Comandos convocados: veja quem foi chamado

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Os comandos convocados

O papel dos comandos no pré e pós 25 de Novembro, um testemunho do Capitão Manuel Faria-Sampaio sobre os Comandos convocados: militares da força de elite que foram chamados ou mobilizados para missões específicas

Estamos a falar de uma página decisiva da nossa história recente, ligada a uma década de turbulência, em que os Comandos Convocados surgem como força de intervenção dramática nos momentos de maior tensão política. Impressiona como, num tempo de transformações rápidas, centenas de homens formaram um elo entre o passado militar e o futuro da democracia que se desenhava. Este depoimento não é apenas uma reminiscência; é um convite para entender como a mobilização e o enquadramento dessas unidades de elite moldaram episódios-chave que influenciaram o rumo do país.

O antes de tudo começou após 28 de setembro de 1974, quando alguns Comandos, tanto na disponibilidade como em serviço ativo, começaram a discutir a necessidade de estruturar uma Associação de Comandos e, mais tarde, um grupo instalador para viabilizar essa ideia. O núcleo que eu integrava mantinha ligações com militares de patente igual ou superior a capitão, e as reuniões aconteceram em locais discretos de Lisboa, entre restaurantes, pastelarias e o hotelaria de referência, sempre com um grau de confidencialidade. A ideia era criar uma rede que pudesse, clandestinamente, reagir a sinais de instabilidade promovidos pela esquerda radical e, ao mesmo tempo, manter o património de valores que os nossos soldados tinham herdado de guerras anteriores.

Concretizar essa visão envolveu viagens, encontros com camaradas no Ultramar e contacto com empresários simpatizantes, numa sequência de ações que visavam duas coisas: organizar uma rede de informações e preparar-se para agir quando fosse necessário. Entre as pessoas que apoiavam o projeto, destacavam-se oficiais que tinham estado na frente de operações em Angola e Moçambique, apesar de reconhecer que havia, por parte de algumas autoridades, reticências profundas sobre a ideia de uma associação de comando com intervenção paramilitar. Ainda assim, o passo seguinte parecia inevitável: criar uma organização estável capaz de responder a riscos reais para a unidade e para a nação.

A conturbada intervenção de 11 de Março de 1975 foi o ponto de viragem que tornou indispensável a articulação entre o grupo instalador e quem tinha maior peso político e militar. Vários oficiais simpatizantes foram detidos, inclusive o General Soares Carneiro, situação que nos levou a intensificar a recolha de informações e a acelerar a criação de estruturas próprias. Nessa altura, já circulavam rumores e pressões, incluindo a intervenção direta de Jaime Neves, que rejeitava o caminho que estávamos a seguir. No dia seguinte ao 11 de Março, as tensões tornaram-se mais evidentes, motivando uma reação que envolveu a continuidade dos contactos com civis influentes e com militares dispostos a apoiar o nosso projeto.

Foi então que emergiu o conceito do Agrupamento Militar de Intervenção (AMI), uma força que reuniria três componentes: Companhias de Comandos, uma vantagem estratégica para responder a missões de maior risco. A ideia era reunir militares de três ramos das Forças Armadas — Exército, Marinha e Força Aérea — e, no entanto, apenas os Comandos entrariam no alinhamento operacional definitivo. A Comissão Instaladora ficou encarregada de selecionar comandos na disponibilidade e formar as três companhias de Comandos que fariam parte do AMI. Em pouco tempo, nasceram cinco equipas de contacto para percorrer o país, contactando quase 380 Commandos, com o objetivo de reunir o efetivo necessário para duas companhias, dadas as janelas de tempo curtas e as dinâmicas políticas do momento.

É relevante mencionar que, nessa fase, não houve participação direta de quadro de comando ativo, e as primeiras composições acabaram por se concentrar em duas companhias de Comandos Convocados, organizadas assim:

  • 121 — Comandante: Capitão Ferreirinha Gonçalves
  • 122 — Comandante: Capitão Manuel Sampaio-Faria

Estas duas unidades tornaram-se o pilar do Regimento de Comandos, dando consistência ao comando de base e assegurando a disciplina necessária para cumprir missões de alta exigência. A formação das companhias não foi apenas técnica; foi também um movimento estratégico que permitiu manter o controlo e a coesão num período de grande incerteza, contribuindo, de forma decisiva, para que o Coronel Jaime Neves pudesse actuar com maior disponibilidade de resposta em situações emergentes.

O during — o período em que estas unidades estiveram em permanência — revelou-se decisivo: as duas companhias dedicaram-se a treino físico, tiro, marcha e a adaptar-se à vida de comando, com uma disciplina exemplar. Ao mesmo tempo, a comissão instaladora manteve-se ativa, acompanhando os acontecimentos no Continente e no Ultramar e a perceber que era necessário reforçar o contingente para assegurar a estabilidade da unidade frente aos choques políticos da época. Para missões de maior risco, como a eventual tomada de setores estratégicos, as duas companhias eram a força de intervenção prevista. Foi uma conjunção de coragem, planejamento e contenção que manteve o equilíbrio entre a necessidade de agir e o respeito pelas regras do jogo democrático emergente.

Contudo, não faltaram percalços. Houve uma campanha de desinformação com a notícia de que mercenários estavam a ser contratados em Lisboa, algo prontamente desmentido pela própria estrutura militar. Além disso, o 25 de Novembro de 1975 forçou uma reequipação da estratégia, com a entrada de uma terceira Companhia de Comandos Convocados (123), ainda que a seleção não tenha sido inteiramente controlada pela Associação de Comandos, surgindo posteriormente diversos ex-Convocados que procuravam ingressar no Regimento. A entrada oficial dos Convocados no Quartel da Amadora, em duas fases distintas (1 de setembro para oficiais e praças, e 1 de outubro para cabos e soldados), marcou o momento em que as unidades passaram a operar de forma integrada, sob liderança direta do Comando do Regimento.

O papel dos Comandos Convocados ficou, no fim de contas, bem definido: além de cumprir missões com maior risco, ofereciam uma ampla cobertura de patrulhas, irradiavam grupos afetos a movimentos políticos adversos e garantiam a libertação de pessoas impedidas de forma indevida. E, no terreno, a disciplina era a marca principal, com as tropas mantendo o compromisso com o serviço até ao fim do período de mobilização previsto.

É importante notar que, após o 25 de Novembro, a legalização da Associação ocorreu apenas em 14 de novembro de 1975, consolidando as estruturas já em funcionamento e abrindo caminho para uma atuação institucional mais estável. Contudo, o retorno à vida civil não foi simples para muitos dos militares desmobilizados. Houve a necessidade de articular um retorno seguro ao posto de trabalho, sobretudo por pressões sindicais e pela forma como ainda se vivia o ambiente de transição. Em alguns casos, o regresso foi dificultado, levando a situações de perseguição e ameaça, à vista de uma democracia ainda em construção.

Na prática, a história mostra que o Grupo, sob a égide da Associação de Comandos e com o apoio logístico da Fidélis, tornou-se parte de um ecossistema de segurança e apoio social que ia muito além das missões de combate. O Sector Social da associação passou a responder a pedidos de ajuda de Commandos desmobilizados, enquanto a própria organização buscava formas de manter a viabilidade econômica necessária para apoiar quem voltava ao mercado de trabalho. A atuação de General Eanes nessa fase gerou entraçamento entre segurança e política, com promessas de apoio que, na prática, não foram plenamente cumpridas, levando à decepção de muitos que acreditavam em um caminho mais estável para a democracia.

Foi neste contexto que nasceu a empresa Fidélis, criada pela Associação para assegurar a prestação de serviços de segurança aos ex-Convocados e a outros setores industriais. A empresa, gerida por mim durante mais de duas décadas, abriu cerca de 100 postos de trabalho no primeiro mês e estabeleceu contratos com diversas empresas, apoiando também atividades laborais importantes na região de Lisboa e Porto. Além de vigilância privada, a Fidélis esteve envolvida em intervenções laborais, ajudando a pôr fim a práticas de abusos em várias unidades industriais, e participou ativamente na proteção de figuras políticas em campanhas eleitorais. Também mantivemos atuação de fronteira com iniciativas de proteção pessoal a personalidades como Sá Carneiro, Freitas do Amaral, Ribeiro Teles e Soares Carneiro, além de apoiar a estrutura de campanha de Eanes, cuja promessa de reforçar a segurança com Commandos ex-Convocados ficou na memória como uma das grandes decepções daquele período.

Ao longo dos anos, a Associação de Comandos evoluiu para uma rede com presença nacional e internacional, mantendo delegações em várias cidades e mantendo relações com congéneres estrangeiros. Hoje, a instituição orgulha-se de defender valores de serviço, honra, disciplina e patriotismo — sem se confundir com qualquer plataforma partidária. Em 2022, foi condecorada com a Ordem Militar de Cristo, reconhecendo décadas de serviço ao país. O legado dos Comandos Convocados permanece ativo, com a responsabilidade de preservar memória, promover a formação de novas gerações e manter viva a essência de uma doutrina que orienta a atuação dos comandos ao serviço de Portugal.

Para quem quiser conversar, partilhar dúvidas ou sugestões, deixo este convite: sou todo ouvidos. Pode enviar mensagem para o e-mail dedicado da casa.

Se ainda tem curiosidade sobre este capítulo, saiba que a história continua a merecer atenção e reflexão, porque os detalhes, as escolhas e as consequências de então moldaram o que somos hoje enquanto leitores, cidadãos e profissionais que olham o passado para entender o presente.

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Jornalista

Carlos Ribeiro

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