Cidades fantasmas do petróleo na Venezuela esperam o plano de Trump

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As cidades fantasmas do petróleo na Venezuela à espera do plano de Trump: ‘Você não vê crianças na rua. Eu morava com nove parentes, todos foram embora’

Em meio a bombas e plataformas de petróleo enferrujadas, antigas cidades petrolíferas da Venezuela depositam suas esperanças em investimentos dos EUA

Miraflores, com suas fileiras de casas alinhadas, gramados bem cuidado e varandas, poderia passar por um típico subúrbio norte‑americano. Mas fica às margens da imensa indústria petrolífera venezuelana, na faixa leste do Lago de Maracaibo. Esse bairro tranquilo carrega, ainda hoje, memórias de uma época em que o petróleo empurrava o país para o topo da prosperidade na região. No dia a dia, porém, o brilho ficou no passado: o lago mostra pistas de riqueza antiga, enquanto a região convive com uma crônica de queda econômica que atravessa décadas.

O cenário é, ao mesmo tempo, fascinante e desolador. Bombas e plataformas de petróleo aparecem dispersas pela paisagem, às esquinas, nos campos ao redor e até emergindo da água. Embora algumas tenham recebido novas camadas de tinta — em amarelo, azul e vermelho, as cores da bandeira — muitas continuam sem se mover, enferrujando com o passar do tempo. Esse conjunto de “campos petrolíferos” em estilo americano, instalados quando empresas estrangeiras vieram para abastecer as operações desde os anos 1920, revela como o dinheiro do petróleo moldou cidades inteiras, elevando famílias inteiras a um patamar de vida que hoje parece distante.

Em Miraflores – onde ficava o núcleo executivo da indústria – muitas residências foram saqueadas, as janelas quebradas, a fiação arrancada. A decadência não é apenas estética; é um retrato da realidade econômica do país, que perdeu fôlego mesmo com reservas de petróleo entre as dez maiores do mundo. Hoje, a região convive com uma crise energética de grande alcance, reflexo de uma queda brutal na produção de petróleo que compromete a qualidade de vida de quem ainda reside ali. E, no plano político‑econômico, o debate se mistura a uma incerteza sobre o que o futuro reserva para quem vive da indústria.

Entre quem ajuda a lembrar a vida de outrora está Gladysmila Gil, que chegou a Miraflores em 1968 com o marido, já falecido, trabalhador do petróleo. “Quando nos mudamos para esta casa, ela parecia em bom estado”, recorda, enquanto observa a tinta rosa descascando das paredes. Hoje, o cenário é muito diferente: o serviço de coleta de lixo é irregular, a energia às vezes falha, e o cotidiano das famílias se concentra em manter o mínimo para sobreviver. Mesmo assim, ela e outras pessoas veem o petróleo como uma esperança não abandonada, especialmente se empresas estrangeiras voltarem com projetos que gerem empregos e iluminação para o lago e as comunidades ao redor.

A história do petróleo na Venezuela tem fases marcadas. Nos anos 70, o país chegou a produzir até 3,5 milhões de barris por dia, respondendo por uma fatia significativa da produção global. Naquela época, o setor era administrado por redes de empresas estrangeiras, muitas americanas, sob concessões governamentais, até que, em 1976, o setor foi nacionalizado e passou a ser gerido pela estatal PDVSA. O dinheiro do petróleo alavancou um série de programas sociais e a construção de infraestrutura que deixou legado em muitas cidades do território.

Com a queda dos preços nas décadas seguintes e os choques políticos, o cenário mudou. Nos anos 1990, reformas abriram espaço para investimentos estrangeiros, e o país ainda manteve uma produção robusta, sobretudo no entorno de Zulia. O auge, no entanto, ficou para trás. A virada de chave ocorreu com o avanço do chavismo e, embora tenha havido períodos de crescimento sob Hugo Chávez, a produção começou a encolher de modo acentuado a partir da década seguinte. Hoje, a produção está em patamar muito distante do que já foi, com números que revelam o desafio de reerguer o setor. Em relatos oficiais, a produção de óleo caiu para cerca de 860 mil barris por dia no fim de 2025, menos de 1% da produção mundial. Como referência, o Brasil hoje produz em torno de 3,7 milhões de barris por dia.

Alguns analistas indicam 2022 como o marco da virada negativa, quando houve uma grande reestruturação da PDVSA após uma greve de petroleiros. Também circula a visão de que demissões em massa teriam aberto uma nova fase de dificuldades: estima‑se que até 22 mil funcionários tenham deixado a empresa numa remodelação marcada por controvérsias. “Não se pode perder dezenas de milhares de técnicos sem que o impacto na produção se faça sentir”, comenta um ex‑empregado, hoje fora da indústria. Desde então, a gestão passou por mudanças políticas e de liderança, com impactos diretos na operação e na capacidade de manter equipes qualificadas.

Em 2017, o governo respondeu com sanções econômicas que travaram parte do fluxo de capital estrangeiro. A ofensiva ganhou novo fôlego em 2026, quando as forças americanas assumiram o controle de Maduro, levando-o a responder a acusações de narcoterrorismo nos EUA. A afirmação de que os EUA administrariam o petróleo venezuelano, mantendo o controle sobre a venda sancionada, foi debatida por especialistas até que Delcy Rodríguez assumiu o comando das instituições nacionais, em meio a uma nova etapa de reformas legais. O objetivo, segundo o governo da época, era criar um ambiente que atraísse investimentos estrangeiros, abrindo espaço para contratos que permitissem que empresas internacionais voltassem a explorar poços de petróleo com garantias legais mais fortes.

Para o parlamento, hoje dominado por aliados de Maduro, a mudança na legislação foi apontada como essencial para o retorno de capitais. “No lago de Maracaibo, existem aproximadamente 13 mil poços que poderiam ser recuperados, além de reservas estimadas em cerca de 26 bilhões de barris”, afirma um parlamentar ligado ao governo. Com a suposta retirada de sanções, o discurso é de que o “estrangulamento econômico” do setor pode ter fim, abrindo caminho para que o capital estrangeiro chegue a novos contratos. Ainda assim, especialistas lembram que restaurar a antiga produção levaria uma década ou mais e exigir bilhões de dólares; a ExxonMobil, por exemplo, já sinalizou cautela, descrevendo a Venezuela como uma opção “não investível” no estado atual sem um arcabouço claro de proteção aos investidores.

Mesmo diante de cenários tão complexos, há quem acredite que a região pode, de fato, encontrar um novo impulso com a reaproximação entre EUA e Venezuela. Quem pensa assim é o grupo de moradores locais que ainda lembra da época de ouro do petróleo, quando as cidades ao redor do lago pulsavam com empregos, serviços e bem‑estar. “Pode vir, mas tem de nos pagar pelo petróleo”, resume José Luzardo, pescador que segue tentando manter a vida no dia a dia. Enquanto debates sobre contratos e proteção jurídica ganham espaço, a esperança é de que o investimento retorne sem deixar de lado a dignidade das pessoas que vivem dessas terras.

Para muitos em Maracaibo, a luz no fim do túnel parece depender de uma conjunção de fatores: a disposição de empresas para retornar, a clareza de regras legais, e a capacidade de o estado venezuelano garantir que o petróleo pertença aos venezuelanos, mas possa ganhar novas oportunidades de desenvolvimento com participação privada responsável. Enquanto isso, a paisagem ao redor do lago continua a contar outra história: uma memória viva de riqueza, contrastando com uma realidade que parece pedir um novo começo — e, quem sabe, uma nova leitura de como o petróleo pode, de fato, transformar a vida das pessoas no dia a dia.

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Jornalista

Fernanda Costa

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