Chavismo 3.0: o círculo de confiança de Delcy Rodríguez e quem ganhou poder com a queda de Maduro na Venezuela
Desde que assumiu a presidência da Venezuela, no último dia 5 de janeiro, Delcy Rodríguez fez várias mudanças no seu círculo mais próximo, que indicam os possíveis rumos do seu governo.
Delcy Rodríguez chegou ao poder em meio a uma guinada histórica para o chavismo, marcando uma mudança de patamar na condução do país. Logo após a posse, ela reconfigurou ministérios, o gabinete presidencial e até a direção da Guarda de Honra Presidencial, abrindo espaço para nomes de confiança que já operavam nos bastidores. Além disso, houve movimentação diplomática: houve quem visse encontros com interlocutores norte‑americanos, e chegaram até anúncios de acordos com os EUA envolvendo petróleo. Em meio a críticas e elogios, a trajetória da nova chefe do Executivo se tornou tema de extensa leitura sobre o que virá pela frente.
O que mais chama a atenção é o retrato de um “dragão de duas cabeças”, termo usado por analistas para descrever a parceria entre Delcy e seu irmão, Jorge Rodríguez. Enquanto ela domina a cadeira do Executivo, ele consolidou o controle legislativo e abriu portas para negociações que ajudam a manter a máquina do Estado em funcionamento. Com uma presença mais pública de um lado e uma atuação firme do outro, os irmãos deixaram claro que o poder não ficará apenas nos cargos simbólicos: há uma estratégia de governabilidade que envolve economia, política interna e relação com o exterior.
Na prática, o formato de poder montado por Delcy se apresenta como um círculo leal, técnico e voltado para a economia. Diversos especialistas destacam que, para atravessar este momento instável, a prioridade pode ser não apenas segurar a agenda ideológica, mas também entregar resultados tangíveis no plano econômico. Entre as leituras, aponta-se que o próximo passo envolve a relação com Washington e a necessidade de conceder espaço a negociações que permitam manter o controle, sem abrir mão da plataforma ideológica que ancora o chavismo.
Entre os nomes que fortalecem esse círculo próximo, destaca‑se o da equipe de Delcy em cargos estratégicos. Félix Plasencia, atual embaixador da Venezuela no Reino Unido, é visto como uma figura de confiança ligada à dupla Rodríguez. Segundo quem observa de perto, ele traz um perfil mais limpo e menos exposto a acusações de violações de direitos humanos, o que pode torná‑lo útil para abrir portas no exterior sem antagonizar mecanismos de pressão. “É fiel aos irmãos, disposto a seguir instruções e, se necessário, atuar como moderado”, resume um analista.
- Calixto Ortega Sánchez — vice‑presidente setorial da Economia, ex‑presidente do Banco Central da Venezuela, com forte rede de contatos internacionais e foco em política econômica.
- Héctor Silva — advogado especializado em negócios internacionais, atuando na área de mineração no sul do país.
- Román Maniglia — líder da Pequiven, indicado para orientar produção petroquímica e relações com o setor produtivo.
- Anabel Pereira — vice‑presidente do BCV e ministra da Economia e Finanças, presença que reforça o eixo técnico na gestão macro.
Entre os nomes que já estavam no radar, surgem também novas funções para quem já tinha trânsito no chavismo, mas com maior protagonismo político. Gustavo González assume a chefia da Guarda de Honra Presidencial e lidera a Direção Geral de Contrainteligência Militar (DGCIM), consolidando a mão forte no lado estratégico de segurança. Anteriormente ligado a Diosdado Cabello, ele passa a atuar como o elo mais próximo de Delcy no âmbito militar, o que reforça a centralização do poder em torno do núcleo de confiança.
Outra figura que reaparece é Juan Escalona, que já teve passagem próxima ao círculo de Chávez e de Maduro. A expectativa é de que ele tenha um papel de alto nível na articulação entre governo e bases, ainda que o posto exato não seja simples de definir. Já Miguel Pérez Pirela foi nomeado ministro das Comunicações, uma escolha que muitos veem como tentativa de modernizar o setor com uma visão mais pragmática, conciliando as demandas de comunicação com a imagem de moderar o tom público do governo.
Além das mudanças de núcleo, o grupo de Delcy também tem de lidar com o bastidor institucional. Álex Saab, figura associada a Maduro e protegida por ele, deixou a pasta ligada à indústria e produção nacional como parte de uma movimentação estratégica que analistas veem como sinal de recalibragem de alianças. Para alguns, trata‑se de um recuo calculado que pode servir de envio de mensagem aos adversários, enquanto para outros é um alerta de que tudo pode mudar rapidamente conforme o jogo político se desenvolve.
As leituras sobre esse novo arranjo costumam chamar de “Chavismo 3.0” o conjunto de medidas que privilegia resultados econômicos, gestão técnica e uma abordagem mais pragmática para manter a governabilidade. Maryhen Jiménez, professora de ciência política da Universidade de Oxford, aponta que esse ajuste envolve concessões estratégicas para manter as portas abertas com os EUA, ao mesmo tempo em que se tenta conter as pressões internas e externas. O dilema, segundo ela, é claro: o chavismo precisou se adaptar para sobreviver.
No dia a dia, o desafio não é apenas nomear gente capaz, mas manter um equilíbrio difícil entre vozes militares, interesses corporativos e a pressão de uma sociedade que cobra melhores condições de vida. Andrés Izarra, comentando o cenário, afirma que a prioridade é manter a coesão interna, sem se deixar arrastar por agendas que possam desagradar Washington ou comprometer a soberania pública. Em síntese, o objetivo apresentado é claro: sobreviver mantendo o controle, ao mesmo tempo em que se busca legitimidade social por meio de resultados econômicos concretos.
Ao mesmo tempo, a avaliação de especialistas aponta que há uma diferença decisiva entre essa nova geração de dirigentes e a velha guarda militar que tradicionalmente compunha o chavismo. Para Andrés De Alba, o foco é menos ideológico e mais técnico: é possível que essa ala se concentre em políticas que ofereçam melhoria econômica real, usando os ganhos para fortalecer a presença política no curto prazo. E, por outro lado, manter o equilíbrio com figuras como Diosdado Cabello permanece crucial para evitar surpresas que possam desalinhar toda a máquina estatal.
Entre as notícias de bastidores, a percepção de que a nova formação de Delcy não se limita a uma visão econômica, mas busca também conservar a liderança em espaços decisivos, destaca que o desafio é sustentar a ideia de soberania diante de pressões externas sem abrir mão de uma agenda de reformas internas. Em síntese, não se trata de abandonar o foco ideológico, mas de diluí‑lo com ações que tragam credibilidade prática: estabilização econômica, melhoria de serviços e um aumento da eficiência pública.
Para leitores que acompanham o desenrolar político, a pergunta que fica é: até onde essa estratégia de rede de poder vai funcionar? O que muda para a vida cotidiana de quem está em casa, vendo o preço da gasolina, o acesso a serviços e as oportunidades de trabalho afetados por esse novo arranjo? No fim das contas, a resposta depende de como Delcy, Jorge e o conjunto de nomes técnicos vão lidar com as exigências dos Estados Unidos, com as demandas internas e com a necessidade de manter a ilusão de normalidade em uma Venezuela que tenta retomar o caminho da estabilidade.