Por que cabecear a bola no futebol pode trazer riscos

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Por que cabecear a bola em esportes como futebol pode ser tão perigoso

Os riscos dos golpes de cabeça vão além do pugilismo. Estudos apontam impactos repetidos em esportes como futebol, rugby e artes associadas a doenças neurodegenerativas ao longo da vida.

Para quem curte o auge da bola no ar, nada supera a sensação de saltar em direção a uma jogada rápida, cabeceando a pelota para as redes. Mas a ciência tem mostrado que esse movimento frequente pode trazer consequências graves para o cérebro, com sinais que aparecem anos ou décadas depois. O radar de alerta não é novo: já em 1928, o patologista americano Harrison Martland descreveu o que mais tarde ficou conhecido como “punch drunk” — uma condição associada a tonturas, desorientação e dificuldades de equilíbrio entre lutadores após impactos repetidos na cabeça. A evolução desse tema levou ao reconhecimento de uma patologia mais ampla, hoje chamada de encefalopatia traumática crônica (ETC).

Inicialmente, o problema parecia restrito aos combates de pugilismo. No entanto, o conhecimento avançou ao longo das décadas, revelando que cabeceios frequentes também podem afetar atletas de outras modalidades. Casos de destaque ajudaram a ampliar esse debate: o jogador de futebol Jeff Astle, da Inglaterra, faleceu aos 59 anos com diagnóstico de demência precoce; nos EUA, o ex-jhedor de futebol americano Mike Webster teve declínio cognitivo abrupto e sinais similares aos da ETC. Em todos esses casos, o laudo pós-morte apontou a ETC, hoje entendida como uma patologia degenerativa do cérebro associada a traumas repetidos.

Essa condição é de fato peculiar: sob o microscópio, ela revela padrões de depósitos anormais de uma proteína chamada tau no cérebro. Uma curiosidade marcante é que, para confirmar se alguém sofre de ETC, os especialistas costumam perguntar simplesmente: “Você já jogou futebol?” ou “Você já disputou rugby?”. A ideia é que, entre quem teve história de cabeceios, a chance de ter ETC é significativamente maior.

O que as pesquisas têm mostrado 
Desde 2008, a professora de neurologia Ann McKee, da Faculdade de Medicina de Boston, lidera estudos com ex-atletas para entender como diagnosticar e tratar ETC. Em uma análise envolvendo 376 ex-jogadores de futebol americano da NFL, foram encontrados traços de ETC em 91,7% dos cérebros examinados. Entre os casos avaliados, estavam nomes como Rick Arrington e Ed Lothamer, que participaram de épocas históricas da liga. Ainda que esse resultado não determine o risco de todas as pessoas, ele oferece uma ideia do que acontece entre quem sustenta impactos repetidos na cabeça. A mesma linha de investigação já identificou ETC também em atletas de beisebol, ciclismo e hóquei, sempre ligado aos traumas repetidos.

Além disso, o pesquisador Willie Stewart conduz o estudo Field (Influência do Futebol sobre a Saúde ao Longo da Vida e o Risco de Demência). Em 2019, ele e a equipe acompanharam a saúde de cerca de 8 mil ex-jogadores de futebol profissional escoceses e os compararam com 23 mil controles da população geral. Os resultados são contundentes: ex-jogadores têm propensão cerca de cinco vezes maior a desenvolver Alzheimer; cerca de quatro vezes mais a sofrer de doença do neurônio motor e aproximadamente duas vezes mais a receber diagnóstico de Parkinson. Somando todos os riscos, a chance de falecer por doenças neurodegenerativas ficou em torno de 3,5 vezes maior do que a média esperada. E o nível de risco varia conforme a posição em campo, com defensores enfrentando maior vulnerabilidade — enquanto goleiros, em média, ficam próximos do risco da população geral.

Mas por que o cabeceio provoca tantos estragos? A explicação envolve o mecanismo da ETC e as características do cérebro. A patologia se manifesta pela presença de tau anormal em determinadas regiões, mas a ciência também investiga como detectar sinais precocemente. Usando ressonância magnética, pesquisadores descobriram que jovens jogadores amadores que headbutt mais vezes apresentam quedas de memória e aprendizagem, além de alterações no córtex orbitofrontal, a área da frente do cérebro envolvida em tomada de decisão e controle de impulsos. A camada externa dessa região, a massa branca, é especialmente vulnerável porque funciona como o “cabeamento” do cérebro, com axônios que conduzem informações entre as áreas. Quando uma cabeçada ocorre, as forças de cisalhamento podem deslocar esse tecido de maneira prejudicial, principalmente em quem cabeceia milhares de vezes por ano.

Ou seja, não é apenas o impacto pontual. A cada cabeceio, há uma chance de deslocar o cérebro dentro do crânio, gerando tensões que afetam a conectividade entre regiões cerebrais. A diferença de densidade entre a massa branca e a cinzenta favorece esse deslizamento, o que explica por que jogadores que repetem cabeceios têm danos maiores na parte frontal do cérebro. Ainda não está claro o que acontece em seguida, e por que alguns indivíduos desenvolvem ETC, Alzheimer, Parkinson ou doença do neurônio motor, enquanto outros não. Provavelmente trata-se de uma soma de fatores — danos acumulados, predisposição genética, estilo de vida e processos inflamatórios crônicos que surgem após lesões.

Na prática, pesquisadores acreditam que haja uma combinação de danos vasculares, inflamação crônica e eventual degeneração de neurônios que se acumula ao longo dos anos. A inflamação, por sua vez, seria uma tentativa de reparar o cérebro após lesões, mas que, quando persistente, pode abrir caminho para as condições degenerativas. Em resumo, o conjunto de fatores é responsável por um cenário complexo de longo prazo que ainda está sendo desvendado pela ciência.

Como transformar essa compreensão em ações concretas? A resposta passa pela prevenção e pela melhoria de equipamentos. Em termos de tecnologia, equipes da Universidade de Stanford trabalham no desenvolvimento de capacetes para futebol americano equipados com absorventes de choque líquidos no interior, prometendo reduzir impactos em torno de 30%. E, no Brasil e em outras ligas, a ideia de reduzir cabeceios ganha espaço para a prática diária: em algumas categorias, deve-se limitar ou eliminar cabeceios em treinos, priorizando treinos que não envolvam impactos repetidos na cabeça. Uma constatação importante vem da observação de que a maioria dos cabeceios ocorre em treinamentos — por isso, a redução nessas sessões pode ter efeito prático significativo.

Se pensarmos no dia a dia dos atletas, a matemática é simples: há quem possa cabecear cerca de 70 mil vezes ao longo de uma carreira, mas apenas umas 2 mil dessas ocorrências acontecem durante as partidas. Em termos de prevenção, isso significa que brincar com a cabeça durante os treinos acumula impactos que, somados aos de jogo, elevam o risco de consequências adversas no futuro. Embora não exista uma solução prática que elimine completamente os cabeceios — afinal, a prática esportiva depende de técnicas e momentos de jogo — as evidências apontam para uma redução consciente de treinamentos com cabeceios e o aperfeiçoamento de equipamentos como caminho realista para proteger os atletas.

No fim das contas, a prevenção aparece como a melhor estratégia. Limitar a frequência de cabeceios, investir em proteção avançada e adaptar os treinos para reduzir o impacto na cabeça são medidas que podem mudar o panorama para jogadores de todas as idades. No dia a dia, isso significa valorizar a saúde cerebral tanto quanto o desempenho em campo, lembrando que o objetivo maior é aproveitar o esporte com responsabilidade e cuidado ao longo da vida.

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Jornalista

André Santos

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