Brasil: início das obras do primeiro data center do Sudeste está perto de começar
Segundo previsão do município, obras devem abrir caminho para a construção em maio, caso todas as licenças fiquem prontas
Um marco da transformação digital brasileira está em curso: o primeiro data center dedicado a inteligência artificial da região Sudeste ganha forma em Uberlândia, Minas Gerais. Nesta segunda-feira, o prefeito Paulo Sérgio Ferreira e o presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, reuniram a imprensa para apresentar os desdobramentos do projeto que será erguido na cidade mineira.
O empreendimento, desenvolvido pela empresa estadunidense RT-One, teve o status do seu projeto arquitetônico apresentado pela administração municipal na última sexta-feira. A Prefeitura indica que a concepção arquitetônica completa deverá ser oficialmente apresentada ao público ainda neste primeiro semestre. Antes de iniciar a obra, a RT-One tenta consolidar todas as licenças necessárias.
A expectativa é que a construção tenha início em maio, desde que as licenças sejam obtidas a tempo. O local escolhido fica na região Oeste de Uberlândia, às margens da rodovia MGC-497, que liga a cidade a Prata (MG). Enquanto as obras não começam, a RT-One planeja um estágio de operação piloto em instalações da Algar, presentes no município, para testar o funcionamento do ambiente.
“Os data centers são fundamentais para essa nova sociedade que estamos construindo, e devemos investir para que, no mundo, muitos deles utilizem matriz energética limpa. Aqui, é justamente onde devemos concentrar esse tipo de infraestrutura”, ressaltou Roscoe durante a coletiva de imprensa.
Sobre o andamento do projeto, a RT-One já protocolou um pedido de estudo técnico na Secretaria Municipal de Planejamento Urbano e, segundo a prefeitura, recebeu sinal verde do ponto de vista da lei de zoneamento e uso do solo. No que diz respeito ao fornecimento de energia, a obra está em tratativas com a Cemig; a expectativa é que a construção conte com uma nova subestação para abastecer o data center, sem impactar o consumo dos clientes atuais da concessionária.
Outro ponto amplamente discutido é a água necessária para a operação. O pedido de abastecimento é de 2,77 L/s, totalizando aproximadamente 239,3 mil litros por dia. De acordo com a autarquia responsável, esse consumo não comprometeria a produção de água tratada da cidade e, ainda, o empreendimento não figurar entre os grandes consumidores de água local. O prefeito salientou que o consumo ficará abaixo do que seria exigido por um conjunto habitacional de 300 residências, ressaltando que a área está fora de áreas de alto impacto ambiental e que a licença ambiental é uma etapa a ser concluída.
Quanto à infraestrutura, o projeto prevê tecnologia de ponta para processamento de alto desempenho, serviços de nuvem com caráter soberano, segurança cibernética e workloads de IA. Em termos físico-operacionais, a primeira etapa ocupará mais de 1 milhão de m², com 630 mil m² dedicados ao data center propriamente dito e cerca de 300 mil m² reservados para áreas de preservação permanente. A capacidade instalada inicial deve ficar em torno de 100 MW, com perspectiva de elevação futura para até 400 MW. A RT-One ainda pretende conduzir a operação com padrões internacionais de eficiência energética, privilegiando o uso de energia 100% renovável e soluções de refrigeração que minimizam impactos ambientais. A área de preservação ambiental foi incorporada ao projeto arquitetônico.
Em entrevista, o presidente da RT-One, Fernando Palamone, afirmou que a implantação do data center em Uberlândia representa uma aposta estratégica da empresa. “A capacidade de processamento de IA é essencial para o mundo moderno. Data centers robustos, seguros e soberanos são a base para essa nova era digital. Trazer essa infraestrutura para o Brasil prepara o país para competir globalmente, gerando empregos qualificados e capacitando talentos para liderar a transformação digital”, explicou.
No âmbito de investimentos, o projeto está associado a um montante inicial de R$ 6 bilhões, segundo a RT-One, com o objetivo de colocar Uberlândia em destaque ao mesmo tempo em que se desenvolve mão de obra qualificada para atender à crescente demanda de IA. Em dezembro, a empresa confirmou a captação de R$ 15 bilhões para erguer o data center na cidade mineira, bem como outras duas obras em Maringá (PR) e em outra localização ainda a ser definida.
Além da RT-One, várias parceiras estratégicas aderiram ao empreendimento, entre elas Hitachi, WEG, Siemens, Vertiv, Schneider Electric, Engemon Construtora, Multiway Infra, Munters e Uniube. A Hitachi chefiou a rodada de investimentos, sinalizando o peso que esse ecossistema carrega para a região. A RT-One declara que busca consolidar a maior plataforma de infraestrutura de IA do Hemisfério Sul, com o Brasil como polo de processamento de IA e computação de alta densidade. A expectativa é atender à demanda de dados na América Latina e além, gerando empregos estáveis e fortalecendo a indústria local.
No seu discurso, Palamone descreveu o projeto como uma oportunidade de colocar Uberlândia em posição de destaque, ao mesmo tempo em que se cria uma base para formação de mão de obra qualificada e atração de novos negócios. Roscoe, por sua vez, completou ressaltando que o investimento amplia a capacidade de atrair empresas e fortalece o ecossistema de inovação local.
Existe ainda uma conexão com iniciativas já em curso em Minas Gerais. Segundo a Rede 98, o projeto tem vínculos com ações já existentes, como o Centro de Treinamento e Desenvolvimento da Indústria 4.0 ligado ao SENAI Minas, na região metropolitana de Belo Horizonte, com o objetivo de qualificar profissionais e impulsionar soluções para a transformação digital da indústria.
Quanto aos desdobramentos futuros, o prefeito de Uberlândia mencionou negociações em andamento para outras três obras de IA na cidade. Conforme Ferreira, o município mantém contatos com dois grupos chineses e mais um parceiro estadunidense, embora sem divulgar nomes.
- Localização: região Oeste de Uberlândia, na rodovia MGC-497 (conexão com Prata)
- Capacidade: início em 100 MW, com potencial para 400 MW
- Área total: > 1 milhão de m² (630 mil m² de data center, 300 mil m² de área de preservação)
- Energia: energia 100% renovável, com nova subestação via Cemig
- Investimento: R$ 6 bilhões (inicial); R$ 15 bilhões já captados para três empreendimentos
- Empregos: milhares de oportunidades, com foco em mão de obra qualificada