Por que Brasil é um dos maiores ‘vencedores’ após mudanças de tarifas de Trump
Um estudo recente aponta que a decisão da Suprema Corte dos EUA reconfigurou as regras tarifárias e colocou o Brasil entre os principais beneficiários, mesmo com o novo regime temporário que padroniza as cobranças.
No último fim de semana, ficou claro que a reviravolta na política de tarifas dos Estados Unidos, depois da decisão da Suprema Corte, não apenas redefiniu o mapa de custos para importações, como também abriu espaço para mudanças relevantes no dia a dia das empresas brasileiras que exportam para o estrangeiro. A Corte, em uma votação de 6 a 3, considerou que o uso de poderes de emergência para impor tarifas por Trump foi além da autoridade concedida, abrindo caminho para uma nova lógica de cobrança sobre produtos vindos de dezenas de parceiros ao redor do mundo. Em seguida, o presidente anunciou a adoção de um instrumento legal novo, estabelecendo uma tarifa de 15% sobre importações do mundo inteiro, com vigência inicial de 150 dias.
Um estudo do Global Trade Alert (GTA), grupo que registra dados comerciais, aponta ganhos e perdas bem definidos com a mudança. Segundo o levantamento, o Brasil figura entre os principais beneficiários, ocupando posição de destaque na redução de alíquotas cobradas pelos EUA. Até então, produtos brasileiros tinham, em média, uma tarifa de 26,33%, o que situava o país entre os 17 maiores tarifas mundiais. Com a virada regulatória, a projeção aponta uma queda de 13,56 pontos percentuais, resultado que coloca o Brasil na dianteira entre as maiores reduções globais – somente Myanmar e Laos registraram recuos maiores.
Sob a nova configuração, a estimativa é de que a tarifa média paga por mercadorias brasileiras caia para 12,77%, alterando significativamente a posição do Brasil no ranking de tarifas. Em termos práticos, isso significa que o país pode descer da 17ª posição entre os maiores cobrados para ficar entre as menos tributadas entre os 20 principais parceiros importadores dos EUA, chegando a um patamar bem mais alinhado com a média global. No estudo, esse movimento é classificado como uma resposta que gera vencedores entre os que já vinham pagando sobretaxas elevadas e, ao mesmo tempo, aponta para setores que enfrentavam menores tarifas antes como os mais atingados por ajustes até aqui.
Para entender o retrato, vale recuar ao passado recente. Em abril de 2025, Trump anunciou um conjunto de tarifas que chamou de “recíprocas” com o objetivo de pressionar a balança comercial, impondo 10% sobre produtos brasileiros. Poucos meses depois, em 30 de julho, o Brasil passou a ser enquadrado na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), uma norma de 1977 que autoriza a adoção de tarifas mais altas quando há uma emergência nacional associada a uma “ameaça incomum e extraordinária” para a segurança econômica dos EUA. A administração de então argumentou que as políticas do Brasil configuravam esse cenário, o que levou a uma sobretaxa de 40% em uma ampla lista de itens brasileiros. Um dos argumentos oficiais citados foi a necessidade de combater o que consideravam uma “caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, segundo a leitura do governo norte‑americano na época.
Ainda que, em novembro, algumas importações brasileiras tivessem sido retiradas da lista de tarifas, o GTA lembra que o Brasil continuava a figurar entre os alvos com uma das maiores médias de cobrança. Entre os 20 maiores fornecedores dos EUA, o Brasil registrava 26,3% de alíquota média, ficando atrás apenas da China, cuja taxa era ainda mais elevada (cerca de 36,8%). Esse cenário mostrava que o país já enfrentava um patamar bastante pesado antes da guinada recente no regime tarifário.
Com a decisão da Suprema Corte, o governo passou a trocar a lógica da IEEPA por uma ferramenta diferente. A Seção 122 da Lei de Comércio de 1974 concede ao presidente poderes limitados e temporários para impor tarifas ou restrições quando há desequilíbrios graves na balança de pagamentos. A mudança para a Seção 122, com uma tarifa fixa de 15%, promete tratar os países de forma mais uniforme do que as decisões caso a caso sob a antiga legislação. Na prática, quem enfrentava sobretaxas altas sob a IEEPA viu reduções expressivas, como é o caso do Brasil, da China e da Índia, enquanto na contramão alguns países de tarifas menores passaram a ver aumentos relativos, como o Reino Unido, a Itália e Singapura, que ganharam alguns pontos percentuais com o novo regime.
Essa uniformidade pretendida pela Seção 122 reduz, de modo geral, a diferença entre as tarifas aplicadas a diferentes parceiros. Mesmo assim, não significa que tudo se resolve de uma vez. O estudo destaca que alguns acordos já vigentes, sobretudo tarifas vinculadas a questões de segurança nacional sob a Seção 232, permanecem em vigor. Ou seja, embora a Seção 122 substitua parte das regras anteriores, as tarifas específicas de setores como aço, alumínio, madeira e automóveis, sob a Seção 232, continuam em operação. Além disso, permanece a possibilidade de o governo manter certas medidas sob a Seção 301, dependendo de investigações sobre práticas comerciais de outros países.
Para o governo dos EUA, a ideia é manter a arrecadação estável em 2026 mesmo com a mudança de regime, compensando a queda relativa de tarifas sob a IEEPA. O Secretário do Tesouro, Scott Bessent, sinalizou que a combinação de tarifas sob as diferentes bases legais deve manter o equilíbrio das receitas públicas, no caminho de reduzir distorções entre países sem afetar o fluxo comercial de forma abrupta.
Mas o que isso tudo significa no dia a dia? Além de explicar os mecanismos, é útil esclarecer o que são tarifas e como elas afetam quem compra e quem vende. Em termos simples, tarifas são impostos cobrados sobre bens importados, normalmente calculados como uma porcentagem do valor do produto. Assim, uma tarifa de 10% sobre um item de $ 10 adiciona $ 1 ao preço, elevando o custo total para o importador. As empresas podem repassar parte ou toda a cobrança aos consumidores ou, ainda, buscar alternativas de suprimento para reduzir o impacto. Em termos de estratégia, Trump defendia que as tarifas elevavam a arrecadação, estimulavam produção local e incentivavam investimentos em território americano, além de exercerem pressão política sobre parceiros comerciais. No plano prático, porém, o efeito é sensível aos setores: alguns itens se tornam menos competitivos, outros podem encontrar saídas mais rápidas no mercado global.
Olhar para esse choque regulatório também traz perguntas sobre o que muda para quem vende para os EUA. Se antes havia um mosaico de tarifas bem diferentes de país para país, a nova linha promete maior previsibilidade. Por outro lado, a leitura de especialistas aponta que a continuidade de certos instrumentos de defesa comercial pode manter tensões em áreas sensíveis, como automóveis, aço e alumínio, ainda que a regra geral passe a ser menos conflituosa entre parceiros. No fim das contas, o objetivo central é estabilizar pagamentos internacionais e reduzir disparidades que afetavam o comércio externo de forma severa.
Para o Brasil, a leitura é de que houve um peso reduzido em várias frentes. O presidente Lula comentou que o país adotou decisões acertadas ao lidar com o quadro tarifário imposto por Washington e ressaltou que houve, ao mesmo tempo, mudanças jurídicas nos EUA que contrariam parte da narrativa anterior. A percepção na prática é de que a economia brasileira pode aproveitar ciclos de demanda externa com mais segurança, especialmente em setores que já vinham buscando ampliar participação no mercado americano, como agroindústria, indústria de alimentos, químicos e bens de capital, entre outros.
Agora, resta acompanhar como essa nova arquitetura tarifária vai se desdobrar nos meses seguintes. Enquanto o Congresso discute eventuais ajustes ou renovações, o que se observa é uma tendência de alinhamento entre regras e a possibilidade de respostas mais rápidas do governo para manter a arrecadação sem frear o comércio. Em outras palavras: o Brasil está numa posição que facilita ganhos reais, desde que a rota de exportação seja mantida estável e as cadeias produtivas consigam se adaptar às novas regras.
E você, leitor, já se perguntou o quanto essa mudança pode influenciar o seu bolso? No cotidiano de quem consome, de quem compra itens importados ou de quem exporta, o efeito costuma aparecer na gôndola, no preço final e até na disponibilidade de determinados produtos. No fim das contas, entender esse jogo ajuda a separar o que está sob controle do que depende de decisões políticas que, sim, mexem com o nosso dia a dia.