Copa pode ser boicotada por torcedores europeus? Entenda a pressão em resposta a Trump
A discussão sobre um boicote ao evento cresceu após Trump afirmar que pretende assumir o controle da Groenlândia, território administrado pela Dinamarca, alegando razões de segurança nacional
O debate ganhou contornos mais contundentes quando Joseph Blatter, ex-presidente da Fifa, passou a apoiar a ideia de torcedores europeus deixarem de comparecer aos jogos da Copa do Mundo deste ano. A justificativa, segundo Blatter, envolve a conduta do atual governo dos Estados Unidos sob a gestão de Donald Trump. O cenário é composto por descontentamentos que vão desde críticas a políticas migratórias até a forma como a administração norte-americana lida com a segurança de torcedores e atletas que cruzam fronteiras para acompanhar a competição, que acontece entre 11 de junho e 19 de julho em uma edição coorganizada pelos EUA, Canadá e México.
Quem impulsionou esse movimento, aliás, foi Mark Pieth, advogado suíço especializado em anticorrupção. Em entrevista publicada, Pieth endossou a ideia de questionar a presença de torcedores estrangeiros, insinuando que, se houver atritos com autoridades, eles podem ser devolvidos rapidamente aos seus países de origem. Em seu post no X, Blatter reforçou a posição de Pieth, destacando que a discussão sobre a Copa merece uma análise mais cuidadosa. A referência de Pieth às dificuldades enfrentadas por manifestantes e opositores mostrou que o descontentamento não é apenas com a organização da competição, mas com o ambiente político como um todo.
Entre os motivos citados para desencadear esse debate estão episódios envolvendo o atendimento de imigração e a sensação de marginalização de vozes dissidentes. Em especial, a morte de uma manifestante nos EUA, assassinada por um agente do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega), é apontada como um dos motivos para repensar a presença de torcedores internacionais, ainda que a discussão seja, acima de tudo, sobre direitos humanos e segurança. O próprio Pieth ressaltou que a situação interna do país levanta questões sérias sobre como visitantes estrangeiros seriam tratados, o que, na visão dele, pode desestimular viagens para acompanhar a Copa.
A partir dessa pauta, o debate se intensifica com um elemento político de peso: a recente posição do presidente dos EUA, Donald Trump, de possuir maior controle sobre a Groenlândia — território ligado à Dinamarca — sob o argumento de motivos de segurança nacional. Nesse contexto, surgiu a fala de Oke Göttlich, vice‑presidente da DFB (Federação Alemã de Futebol), que disse acreditar que já é hora de considerar um boicote à Copa de 2026. Ele lembrou do boicote olímpico de 1980, promovido pelos EUA, como referência para justificar a discussão atual, inclusive para avaliar os riscos que a Copa representa neste momento.
Na esfera esportiva, a relação entre a Fifa e a política não é novidade. No Catar, em 2022, a entidade foi pressionada por temáticas de segurança e pela gestão de direitos, ao passo que a braçadeira OneLove gerou atritos com a FIFA por parte da organização. Em termos políticos, federações e partidos europeus se articulam em busca de garantias que assegurem a integridade de torcedores, atletas e turistas presentes no torneio. Nesse cenário, o Parlamento Europeu e eventuais aliados já tratam de medidas que vão além de torcedores: o Partido Democrático Europeu e outros grupos discutem a possibilidade de exigir garantias sobre a segurança de quem pretende viajar aos EUA para a competição. Paralelamente, parlamentares britânicos de quatro partidos diferentes solicitaram que as federações avaliem a saída de grandes eventos internacionais de solo americano, citando temores sobre violação de direito internacional e condições de viagem.
Os signatários dessa iniciativa destacam que a escalada de ações norte‑americanas contra a Venezuela envolve casos sensíveis, como o que envolve o presidente Nicolás Maduro, e que isso representa uma interferência percebida nos assuntos de um Estado soberano. A moção também cita pressões sobre Dinamarca, Colômbia e Cuba, indicando que esse cenário de segurança e política externa tende a enfraquecer a ordem internacional baseada em regras. Ainda sem resposta oficial por parte da Casa Branca, a imprensa local indica que Maduro foi apresentado como alvo de uma operação de aplicação da lei, o que acabou alimentando a tensão entre Washington e outras nações. Em paralelo, Trump também ameaçou impor tarifas a oito países europeus que não endossam a sua visão, uma medida que adiciona uma camada de atrito às relações transatlânticas. A França, por sua vez, disse não apoiar o boicote neste momento, enquanto a Dinamarca afirma acompanhar a situação com cautela. Em paralelo, Escócia e Inglaterra já foram apontadas como possíveis participantes do movimento de boicote, com membros de associações de torcedores defendendo um “plano B” caso as garantias de segurança não sejam asseguradas.
Em meio a esse caldo, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, recebeu o Donald Trump com um prêmio da paz em uma ocasião de sorteio da Copa do Mundo de 2026, o que gerou críticas de organizações de direitos humanos e da UEFA. A relação entre a entidade e o líder americano alimenta debates sobre a politização de eventos esportivos, ainda que a Fifa sustente que o papel da instituição é manter a neutralidade. Além disso, não é a primeira vez que a Fifa enfrenta pressões que vão além do campo esportivo: em 2018 a Copa ocorreu na Rússia, apesar de tensões com a anexação da Crimeia, e, mais tarde, a proibição de disputar competições internacionais contra a Rússia permaneceu em vigor após a invasão da Ucrânia em 2022. Nesse sentido, alguns membros da Fifa destacam que há uma exigência de consistência entre estados‑membros quando se trata de sanções ou bloqueios.
No terreno das palavras, Infantino já havia afirmado, em outubro, que a FIFA não pode resolver problemas geopolíticos — uma posição que, para muitos, parece abrir espaço para que decisões políticas não interfiram diretamente no calendário esportivo. Especialistas ressaltam que as listas de migração e de vistos mudam conforme as decisões políticas, o que pode criar insegurança jurídica para atletas e torcedores que desejam viajar aos Estados Unidos para acompanhar a Copa. Nesse quadro, países afetados discutem medidas de retaliação diplomática, enquanto federações avaliam pedidos formais para assegurar que cidadãos estrangeiros não sejam impedidos de entrar para assistir ou participar das competições.
Sobre as possibilidades de ação direta da Fifa, o panorama é de cautela. A entidade não sinaliza qualquer movimento concreto de sanção contra o país anfitrião, e muitos afirmam que a interligação entre Infantino e Trump pode dificultar uma posição firme que contrarie a influência política no planeamento do evento. Em paralelo, surgem lembranças de 2018 e 2022: a Rússia, mesmo com sanções, continuou com status de participante em diversas competições, o que reforça a ideia de que manter a neutralidade é um objetivo delicado para a organização.
Em síntese, a discussão sobre boicotes não é simples nem motivada apenas por questões esportivas. Temas de direitos humanos, políticas migratórias e tensões entre grandes potências se cruzam, alterando a forma como torcedores, federações e governos encaram a Copa do Mundo de 2026. A pergunta que fica para o cotidiano do torcedor é: até onde isso pode influenciar sua experiência de acompanhar o evento? No fim das contas, o que se sabe é que a relação entre política e futebol continua a ser um tema sensível, sobretudo quando envolve potências que moldam o destino de grandes eventos esportivos mundiais.