Por que bitcoin despencou ao menor nível desde que Trump assumiu o poder
Preço da moeda digital desabou apesar do apoio público do presidente americano, Donald Trump.
O mercado de criptomoedas vive uma rodada de oscilações acentuadas: o bitcoin chegou a ser avaliado em US$ 65 mil por unidade, o equivalente a cerca de R$ 342 mil, o menor patamar em 15 meses. Em termos de trajetória, a queda já soma 24% desde o começo de 2026. Vale lembrar que, só alguns meses antes, a moeda chegou a registrar o recorde histórico de US$ 122 mil em outubro, ampliando a sensação de euforia entre investidores.
Esse recuo ocorre em meio a um contexto de alta recente, impulsionado pela percepção de que o apoio público de Donald Trump às criptomoedas poderia favorecer uma agenda de desregulamentação. Ao retornar à presidência, em janeiro de 2025, Trump chegou a publicar uma ordem executiva que almejava tornar os EUA a capital mundial das criptomoedas. No primeiro ano de volta ao poder, ele lançou uma moeda digital própria, cuja maior parte dos lucros foi destinada às empresas da família. Além disso, manteve vínculos com a World Liberty Financial, um veículo de investimento ligado à família, reforçando o protagonismo do tema no cenário político. No aspecto regulatório, houve avanços: a legislação federal passou a respaldar as criptomoedas, enquanto ações de fiscalização do DOJ foram reestruturadas, e a SEC interrompeu parte das atividades ligadas a investigações do setor.
Em novembro, democratas do Comitê Judiciário do Senado criticaram a agenda pró-cripto de Trump, destacando que o presidente acumula participações em ativos digitais que superam US$ 11 bilhões e que teve uma renda pessoal de US$ 800 milhões com transações desde que assumiu. No dia a dia, esse conjunto de fatores alimenta um humor de prudência entre investidores, ainda que o debate público sobre o tema permaneça intenso e multifacetado.
No cenário de longo prazo, o recuo recente já aponta para uma mudança de ritmo: o bitcoin registra queda de 32% nos últimos 12 meses, aproximando-se de níveis vistos no início de 2024 e em 2021. Outras criptomoedas de destaque, como ethereum e solana, também recuam, com perdas em torno de 37% neste ano de 2026. De acordo com a CoinGecko, o mercado global já perdeu mais de US$ 1 trilhão em valor apenas no último mês e US$ 2 trilhões desde o pico de outubro. Paralelamente, a Stifel aponta que o bitcoin pode cair para até US$ 38 mil, sinalizando uma tendência de acompanhar mais de perto a valorização/diluição do dólar. Na prática, o dólar atingiu, recentemente, a menor cotação em quatro anos, o que complica o cenário para ativos de risco.
Analistas do Deutsche Bank destacaram que a queda recente foi “desencadeada” pela nomeação de Kevin Warsh para chefiar o Federal Reserve, sinalizando uma postura mais firme sobre juros. A ideia é clara: taxas mais altas podem reduzir o apetite por ativos de maior risco, como as criptomoedas. Mesmo assim, o banco não aposta no fim das criptomoedas, apenas na ideia de que o bitcoin deverá encontrar um papel mais específico no ecossistema financeiro. Por outro lado, especialistas como William Barhydt, da Abra Capital Management, encaram a fase de amadurecimento como parte natural do percurso: volatilidade faz parte da trajetória de ajustes, e uma recuperação não parece improvável, ainda que dependa de muitos fatores de mercado.
No fim das contas, o momento sugere uma fase de transição para as criptomoedas: menos fantasia e mais cálculo, com o mercado buscando consolidar um papel mais estável. Para o leitor, isso significa acompanhar com atenção as mudanças regulatórias, as dinâmicas macro e as palavras dos executivos do setor — sempre com o olhar crítico sobre risco, retorno e o próprio papel dessas moedas no dia a dia financeiro.
- Desvalorização atual do bitcoin: US$ 65 mil e queda de 24% no ano
- Recorde histórico de US$ 122 mil em outubro anterior
- Ações regulatórias e alianças políticas envolvendo Trump
- Mercado global: perda superior a US$ 1 trilhão em um mês e US$ 2 trilhões desde outubro