Bernardo Ricupero: O sequestro de Nicolás Maduro à luz da história
Hegemonia dos EUA na AL em transição
O sequestro de Nicolás Maduro, em pleno século XXI, é apresentado pelo pensamento de Bernardo Ricupero como mais um capítulo de uma luta antiga pela definição de liderança na América Latina. A leitura proposta não se limita a um ato isolado, mas a uma engrenagem histórica em que as grandes potências moldam a região a partir de pressões, acordos e, quando necessário, da demonstração de força. No centro do texto, está a ideia de que a hegemonia norte‑americana vem passando por uma transição, movendo-se de uma combinação de consentimento com coerção para uma negociação pela força quando é preciso manter a ordem regional.
Para entender esse movimento, o autor recua às origens do século XIX: a Doutrina Monroe, de 1823, que prometia proteger a região de intervenções europeias, ainda que deixasse em aberto o expansionismo norte‑americano. O pano de fundo é claro: a América já vivia uma transformação de colônia para potência, o que gerou leituras ambíguas entre proteção e intervenção. E, como lembram historiadores citados no texto, essa ambiguidade fazia parte do próprio pacto entre a defesa de independência e o avanço sobre a esfera de influência de Washington.
Avançando no tempo, surgem episódios que mostram a theoria do poder em prática. Em 1902, potências europeias bombardearam portos venezuelanos a pretexto de dívidas não pagas — uma ação que violava a ideia de que o hemisfério deveria ficar sob a proteção dos EUA. Dois anos depois, em 1904, o então presidente Theodore Roosevelt acabou por formalizar uma posição que iria além da mera justiça financeira: qualquer país que demonstrasse mau comportamento poderia enfrentar a intervenção, consolidando o que ficou conhecido como o corolário Roosevelt à Doutrina Monroe. O compacto era simples: o Brasil, a Venezuela e os vizinhos teriam, a partir dali, a posição de objetos de tutela ou de polícia internacional conforme o juízo de Washington.
Além disso, o autor mostra a transição suave para uma visão mais agressiva, em que o país não era apenas um árbitro, mas também juiz e polícia dos seus vizinhos. O panamericanismo — ideia de uma aliança regional — tentou compor a relação entre as nações americanas, ainda que o sonho tenha ganhado corpo principal na criação de estruturas como a OEA (Organização dos Estados Americanos). Nesse mosaico de iniciativas, o século XX foi marcado pela consolidação de uma presença norte‑americana que combinava diplomacia, acordos econômicos e, quando necessário, força militar.
Principais pontos em evidência para entender a lógica de poder que atravessa o texto:
- Domínio regional como objetivo estratégico, consolidando influência sobre os vizinhos.
- Intervenção como ferramenta policial quando as regras de convivência são quebradas ou quando os interesses de Washington ficam ameaçados.
- A doutrina Monroe evolui para um modelo que permite agir como árbitro e, se preciso, como executor
- A trajetória histórica é marcada por uma alternância entre cooperação e coerção, sempre sob o prisma da percepção de ameaça aos interesses dos Estados Unidos.
No contexto atual, o cenário histórico retorna com pesadas leituras sobre o que sustenta a hegemonia norte‑americana. Em 2026, mais de um século depois, os EUA atacaram Caracas com uma força de combate que derrubou defesas aéreas, mobilizou centenas de soldados e resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua cônjuge. O saldo humano incluiu a morte de dezenas de civis e a prisão dos líderes venezuelanos, que passaram a enfrentar a justiça estadunidense. A narrativa que acompanha a operação não aponta apenas para o que aconteceu, mas para a justificativa apresentada: narcoterrorismo como motivo último, uma linha que busca ligação entre segurança interna e coerção externa.
Essa leitura não parou por aí. A entrevista coletiva da época, citada pelo autor, indicou que a estratégia não apenas usa o pretexto do combate ao tráfico, mas busca redefinir a relação com a Venezuela — uma relação que se aproxima de um protetorado, com o acesso a recursos como ponto central. A ideia de que o petróleo é uma vantagem estratégica foi destacada, ao lado de notas sobre a recente reindustrialização norte‑americana e a necessidade de manter o domínio sobre fontes de energia para sustentar uma classe média fortalecida.
Ao longo da análise, é introduzida uma nova moldura conceitual para interpretar as motivações do ataque: a Estratégia de Segurança Nacional divulgada pela Casa Branca em novembro de 2025, que aponta para a construção de um “corolário Trump” à Doutrina Monroe — uma visão que foca no hemisfério ocidental como arena prioritária. Nesse documento, o uso da força é apresentado não como defesa da democracia, mas como instrumento de proteção de interesses estratégicos, incluindo a segurança de energias cruciais e a proteção de rotas de abastecimento. Em termos práticos, o texto sugere que o objetivo não é transformar regimes, mas manter condições que assegurem a continuidade de investimentos e fluxo de recursos.
Entre as nuances da narrativa, surge também a participação de potências além‑atlânticas. Segundo o texto, a presença chinesa na América Latina cresceu de forma expressiva desde 2000, em contraste com a retração americana. Dados indicam que o comércio externo com a região cresceu 38 vezes nesse período, enquanto a fatia dos EUA na relação comercial encolheu de 54% para 37% até 2023. A China hoje figura como o segundo maior parceiro comercial da região, com peso relevante para economias como Brasil, Chile, Peru e Venezuela. É nesse cenário que se insere a leitura de que a supremacia regional depende cada vez menos de consentimento e mais de demonstrações de força, com o objetivo de manter o domínio sobre recursos estratégicos e oportunidades econômicas.
Na prática, a leitura do autor aponta para uma relação em que a hegemonia norte‑americana se apoia cada vez mais na coerção do que no acordo. O uso da força, que não foi justificado pela defesa da democracia — já que a retórica oficial não a mencionou como objetivo — é apresentado como parte de uma estratégia mais ampla para assegurar posições e recursos. Em termos históricos, o episódio é visto como reminiscência da “era dos impérios”, mas com uma diferença crucial: os EUA, hoje, são uma potência em declínio, não em ascensão, o que, segundo Ricupero, torna a demonstração de poder ainda mais ambígua e instável no cenário regional.
Para o leitor comum, a mensagem é clara, ainda que complexa: a relação entre Washington, Caracas e as demais capitais latino‑americanas está em transformação. No dia a dia, isso se traduz em uma expectativa maior de vigilância, negociações e disputas por recursos, com Beijing, Moscou e Teerã ocupando espaço cada vez maior no tabuleiro regional. E, no fim das contas, a questão que fica é simples: que consequências práticas essa redefinição de poder pode trazer para quem reside no dia a dia de cidades e campos da América Latina?
Bernardo Ricupero, professor do departamento de ciência política da USP, assina uma leitura que busca conectar o passado com o presente, mostrando como as escolhas estratégicas de hoje podem dialogar com antigas tradições de poder. Ele aponta uma espiral de força que, em vez de favorecer a democracia de modo autônomo, pode favorecer um equilíbrio instável de influências entre grandes potências. Em suas palavras, o simbolismo do “big stick” continua presente, mas a leitura contemporânea sugere que o país mestre da região enfrenta um processo de declínio que exige novas formas de interação com vizinhos, parceiros comerciais e rivais geopolíticos.
O debate sobre esse episódio não é apenas acadêmico. Ele propõe perguntas sobre o futuro da cooperação regional, a proteção de soberanias nacionais e o uso de recursos energéticos como alavanca de poder. No fim, a leitura de Ricupero convida o leitor a refletir sobre o que muda na prática quando a geopolítica se faz tão próxima de casa — e como cada cidadão pode acompanhar os desdobramentos de uma história ainda em construção.