Regime matou a infância e parte do futuro, diz autora exilada da Venezuela
Arianna de Sousa-García lega um testemunho das dores da diáspora venezuelana em livro dedicado ao filho – e fala do que espera com a queda de Maduro
Entre as vozes que carregam o peso de um país em exílio, a jornalista e escritora Arianna de Sousa-García coloca a própria trajetória no centro de Atrás Fica a Terra, título recém-lançado no Brasil pela Editora Pinard, com a tradução de Wesley Santos Rocha. O livro, dedicado ao filho, transforma a experiência da diáspora venezuelana em testemunho humano, mesclando memória, dor e a busca por um futuro que não se perca pelo caminho.
A obra costura a trajetória de uma Venezuela que viveu sob a sombra de um regime que nasceu para prometer utopias e se tornou uma máquina de controle, violência e precariedade. Para Arianna, não são apenas números que pesam: é a possibilidade de crescer sem perspectivas reais, especialmente para as crianças que viram o país perder oportunidades de estudo, de comida e de liberdade. Segundo a autora, mais de 5 milhões de venezuelanos encontraram refúgio no exterior, conforme a agência da ONU para Refugiados (Acnur). Ela revive esse percurso ao explicar as escolhas que fizeram sua família abandonar a terra natal em busca de um amanhã mais estável.
No centro da narrativa, a dor da diáspora aparece como uma força que muda de forma ao longo do tempo. Arquitetada pela distância, a obra mantém a memória viva e pergunta o que é possível preservar quando tudo ao redor parece desabar. A autora descreve o ato de escrever como uma tentativa de manter vivo o diálogo com o filho que ficou para trás, tentando lhe passar a sensação de que o mundo ainda tem chão — mesmo que o chão, para muitos, tenha mudado de lugar. E, no meio disso tudo, surge a promessa de que as palavras podem, de alguma forma, conceder uma linha de continuidade entre passado, presente e futuro.
Entre as páginas, a autora aponta que o regime que nasceu na trajetória de Chávez e se perpetuou sob Maduro foi, em muitos aspectos, devastador: transformou a alimentação em bem escasso, esfarelou a convivência social e criou uma máquina de repressão que atingiu sobretudo a infância. Para Arianna, esse é o ponto mais doloroso — o futuro que já não chega ou chega com enormes dificuldades para milhões de crianças que cresceram sem as condições mínimas para sonhar. O retrato é duro, mas não desiste de apontar a coragem de quem tenta seguir em frente, mesmo diante da perda de oportunidades.
A captura de Nicolás Maduro, descrita pela autora como evento que mudou o cenário político, é narrada com o olhar de quem está longe, mas acompanha de perto as consequências para quem permaneceu no país. Ela relata a emoção ao ouvir que a ditadura poderia estar chegando ao fim, ao lado de uma família que celebra a liberdade do outro lado do continente — ainda que reconheça que a reconstrução da vida de cada cidadão venezuelano será longa e complexa. Nesse território de esperanças e responsabilidades, o relato reforça que a luta não termina com a queda de um regime; é preciso reparar feridas, reconstruir instituições e continuar a sonhar com um futuro mais justo para todos.
Sobre convivência entre povos da região, Arianna afirma que a expulsão de estrangeiros não é inevitável nem desejável. No exílio, ela encontra apoio em três círculos de afeto: a comunidade de compatriotas, um grupo de mulheres negras de várias nações da América Latina e, por fim, um grupo de amigos chilenos. Essa rede é, para a autora, um alicerce que sustenta a identidade e a esperança, provando que a solidariedade pode atravessar fronteiras de língua, cor e cultura em momentos de crise.
O sonho de retornar à Venezuela com o filho permanece vivo. Ela admite que o desejo de pisar no solo venezuelano e de apresentar ao menino as cores, cheiros e sabores do país é o motor que sustenta a distância imposta pelo exílio. Ao mesmo tempo, reconhece que o caminho pode ser longo e incerto. Em um gesto que parece sintetizar essa dualidade, a autora revela que, após a entrevista, deixou o Spotify tocar no modo aleatório e ouviu A Mi Ciudad, do grupo chileno Santiago del Nuevo Extremo — uma lembrança musical que, para ela, é mais uma bússola para não perder o elo com a pátria.
Por fim, Arianna reforça a ideia de que a escrita funciona como um espaço de diálogo com as crianças migrantes e com aqueles que ficaram. Ela enxerga no ato de registrar a memória uma forma de cuidar do presente e de vislumbrar um futuro menos hostil. E, no balanço entre dor e esperança, acredita que as palavras podem acompanhar as jornadas humanas, sustentando o presente com o amor da família e dos amigos, e mantendo acesa a faísca de dias melhores para a Venezuela.
Atrás Fica a Terra já está disponível em edição brasileira pela Pinard, com a tradução de Wesley Santos Rocha, levando aos leitores um relato potente, preciso e dilacerante sobre a diáspora venezuelana e a busca contínua por um lar.
Compre agora: Amazon – R$ 62. A obra combina jornalismo e poesia em uma memória que não se cala diante da história, convidando o leitor a entender o que significa deixar tudo para trás para buscar, para quem fica, um futuro que valha a pena ser vivido.