Árvore que chamou a atenção da perícia no caso do tenente-coronel

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A árvore que chamou atenção da perícia no caso do tenente-coronel acusado de matar a mulher

Perícia da Polícia Civil de São Paulo contraria versão de integrante da Polícia Militar sobre a morte da soldado Gisele Santana

A investigação avançou com uma leitura mais precisa do cenário em que se deu a morte da soldado Gisele Alves Santana, da Polícia Militar, levando a uma conclusão que contrasta com a versão inicialmente apresentada por um integrante da Polícia Militar. A perícia, ao analisar o depoimento do tenente‑coronel Geraldo Leite Rosa Neto, aponta divergências relevantes, especialmente em relação a como ele descreveu o momento em que viu o corpo. Uma reconstituição em 3D do apartamento revelou que uma árvore de Natal decorativa estaria posicionada de forma a impedir a visão do cadáver da sala, levantando novas perguntas sobre o que realmente ocorreu no local.

Na prática, a equipe de perícia descreveu um levantamento detalhado do espaço — feito por meio de um escaneamento que mapeou com exatidão as medidas de móveis, portas, janelas e objetos, embasando as narrativas com base em depoimentos colhidos. O relatório aponta que a sequência de eventos narrada pelo oficial “corrobora, em parte, o que foi relatado pelos socorristas”, mas ressalta divergências importantes. Em especial, a árvore de Natal, que ficara no chão ao lado do sofá, permanece na mesma posição quando os socorristas chegaram, segundo as imagens registradas pela equipe. A conclusão é de que o objeto não apenas estava presente, como só foi removido posteriormente para liberar espaço para as manobras de socorro. Dessa forma, a versão de Neto não se sustenta inteiramente diante das evidências encontradas na cena.

No dia da ocorrência, Neto tinha declarado que, por volta das 7h, havia entrado no banheiro do apartamento para tomar banho. Um minuto depois, ele alega ter ouvido um barulho semelhante ao de uma porta batida e, ao abrir a porta do cômodo, encontrou Gisele caída na sala, com intenso sangramento na região da cabeça e a arma de fogo em mãos. A narrativa, registrada pela polícia no momento do atendimento, ganhou contornos diferentes quando confrontada com as imagens do local. A perícia reforça que não há como sustentar a tese de suicídio — as circunstâncias apontadas pelo relatório indicam que o disparo teve trajetória que não casa com um típico cenário de autoagressão, além de outros elementos que sustentam a hipótese de feminicídio.

Nesse cenário, o marido de Gisele permanece preso, com denúncia apresentada pelo Ministério Público, que prevê pena entre 20 e 40 anos de prisão pelo crime de feminicídio, conforme o enquadramento legal. O caso ganhou contornos ainda mais complexos com a revelação de que, antes da fatalidade, a dinâmica entre o casal já vinha sendo marcada por conflitos difíceis, com mensagens encontradas no celular de Neto indicando uma relação marcada por controle e exigência de submissão. Segundo a perícia, o casal vivia uma relação marcada por comportamentos abusivos, ao ponto de Gisele sinalizar a possibilidade de separação, o que acentuaria o peso das evidências apresentadas pela investigação.

Entre os indícios que ajudam a compor o retrato do que aconteceu, chama a atenção a percepção de que a imagem do apartamento, capturada por diferentes ângulos, aponta para uma rotina de tensões que se acentuou com o passar do tempo. Em meio a isso, a presença da árvore de enfeite, o posicionamento dos móveis e a forma como o ambiente foi trilhado pela equipe de socorro são elementos que a perícia mobiliza para entender melhor a linha do tempo dos acontecimentos. No fim das contas, o conjunto de informações reforça a leitura de que o caso não se trata de suicídio, mas de uma ocorrência que pode ter terminado em feminicídio, com o réu mantendo-se à frente do processo.

Para o leitor, o que está em jogo é a percepção de uma situação de violência doméstica que não pode ser negligenciada: as mensagens de texto, as atitudes de controle e a dificuldade de Gisele em manter a própria autonomia aparecem como peças centrais do quebra‑cabeça, ao lado da evidência física encontrada no local do crime. A dualidade entre a narrativa oficial e as evidências técnicas da perícia desperta uma discussão importante sobre como casos assim devem ser apurados, com cuidado para não cruzar linhas entre depoimento e prova.

No fim das contas, o que se observa é um episódio em que a verdade precisa ser cuidadosamente costurada a partir de muitos elementos — depoimentos, imagens, reconstruções e mensagens capturadas. O objetivo da investigação não é apenas responsabilizar o suposto autor, mas esclarecer o que de fato ocorreu, para que a justiça possa atuar com base em fatos verificados. E, no dia a dia, esse tipo de caso volta a lembrar a todos nós a importância de proteger as mulheres e de tratar com rigor qualquer indício de violência, sob o olhar atento da lei.

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Jornalista

Mariana Silva

Personal organizer que adora soluções práticas para casa. Especialista em maximizar espaços pequenos com produtos inteligentes.

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