Aposta de risco para embate com Tarcísio, Haddad colocará em jogo futuro político
Pressionado por Lula, o ministro deve repetir o embate com o governador, mas enfrentará dificuldades maiores que em 2022
A corrida em São Paulo volta a caminhar a passos largos para o centro do cenário nacional. Fernando Haddad, hoje à frente do Ministério da Fazenda, é empurrado para o confronto direto com Tarcísio de Freitas, o governador que comanda a maior máquina estadual e que hoje desponta como favorito nas sondagens. No plano político, o desafio não é apenas vencer uma disputa local: é testar uma estratégia que pode redefinir o eixo de força para 2026, mantendo o Lula no centro do tabuleiro sem abrir espaço para derrotas expressivas que comprometam o futuro do PT no país.
O peso de São Paulo como o maior colégio eleitoral — respondendo por cerca de 22% do conjunto nacional de eleitores — explica boa parte da aposta petista. O PT nasceu no estado, mas nunca governou a capital econômica, e cada voto paulista costuma ter efeito decisivo na configuração federal. Nesse jogo, as últimas eleições presidenciais mostraram como o desempenho local impacta o cenário nacional: em 2018, a vantagem de Bolsonaro em SP foi determinante para a vitória; em 2022, a distância entre Bolsonaro e Lula converteu-se em uma margem menos folgada, aproximando a definição do pleito em nível nacional. Curiosamente, o responsável por aquele resultado paulista de 2022 foi Haddad, que chegou ao segundo turno para governador e conquistou 45% dos votos na chapa de Lula — uma marca superior à de muitos companheiros do PT em outras regiões. A partir disso, o partido resolveu apostar novamente em Haddad para enfrentar Tarcísio, esperançosos de que uma derrota apertada possa servir de combustível para o esforço de Lula rumo a um quarto mandato.
No entanto, a aposta carrega riscos relevantes. O maior deles é o fator favoritismo de Tarcísio: com aprovação em torno de 67% e uma liderança clara nas intenções de voto, ele aparece com potencial de liquidar a eleição já no primeiro turno, com pesquisas apontando cerca de 51% a 27,7% para Haddad. Além disso, diferentemente de 2018, Tarcísio dirige a máquina do estado e pode concorrer à reeleição sem deixar o cargo, algo que reforça a vantagem do governador nas contas locais. No dia a dia, essa vantagem se traduz em estrutura, recursos e rede de apoios que podem dificultar o avanço de Haddad.
Para complicar, Haddad vem enfrentando uma hesitação pública sobre aceitar o desafio. Mesmo reconhecendo a necessidade de discutir o tema com seriedade, ele sinalizou que gostaria de permanecer na programação de Lula, coordenando a campanha presidencial, e apenas deixaria a Fazenda no prazo eleitoral para se desincompatibilizar. A pressão interna aumentou nos últimos dias: nesta semana, Haddad e Lula estiveram em São Paulo, com rumores de um encontro para alinhar a estratégia, especialmente diante da agenda agrícola, econômica e de alianças que moldam o palanque do PT no estado. Em termos de estratégia, o ministro tem ressaltado que seu compromisso é com projetos de projeto de governo, caso aceite o desafio, mas a leitura prática aponta para uma campanha cada vez mais envolvida com a articulação de alianças estaduais.
No tabuleiro de alianças, Lula tenta montar uma chapa ao Senado que passe pelo equilíbrio entre experiência e renovação. Entre os nomes mais comentados estão Simone Tebet (Planejamento) e Marina Silva (Meio Ambiente). Contudo, há quem avalie que uma composição 100% feminina e progressista poderia soar radical para o eleitor paulista, exigindo cautela na montagem do palanque. No caso de Tebet, há ainda questões de domicílio eleitoral (atual em Mato Grosso do Sul) e acerto partidário, já que o MDB paulista atua como aliado de Tarcísio. Outras possibilidades discutidas incluem abrir espaço para o ministro do Empreendedorismo, Marcio França, que sonha com o governo, mesmo que isso não seja prioridade de Lula. Também circula a hipótese remota de Alckmin perdendo a vaga de vice, caso haja acordo com o MDB, o que mexeria com o cenário estadual. Por fim, a vaga de Haddad para o Senado pode abrir caminho para um nome de perfil de centro como vice, buscando ampliar o eleitorado, algo que Lula já fez em 2022 ao acompanhar Alckmin.
Do lado bolsonarista, a definição de candidaturas ao governo estadual e ao Planalto ganhou intensidade. Em um ato de homenagem ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto, na Assembleia Legislativa, rivais a Tarcísio se acotovelaram por um espaço de destaque. Além do presidente da Alesp, André do Prado (PL), marcavam presença outros pré-candidatos ao Senado, como Eduardo Bolsonaro e o irmão Renato Bolsonaro. A indicação já consolidada fica com Guilherme Derrite (PP), ex-secretário da Segurança Pública; a segunda vaga deverá ficar com alguém do PL, sob a articulação direta de Jair Bolsonaro, com participação de Eduardo em jogo mesmo com o exilado nos EUA. Logo, o cenário de construção de palanques na direita ganha contornos de disputa acirrada, capaz de influenciar o ritmo da campanha de Haddad caso haja aproximação entre as siglas.
A maior dúvida para o PT é justamente o que fazer com a imagem pública de Haddad caso a aposta não se confirme. O histórico de derrotas — como ex-ministro da Educação, campanha vitoriosa em 2012 que rendeu o comando de São Paulo, mas derrotas em 2016, 2018 e 2022 — assombra o imaginário de quem vê o esboço de sequência para 2030. No fim das contas, a percepção de que Haddad pode se tornar um herdeiro politicamente confiável depende de resultados concretos na disputa estadual e do quanto Lula estará disposto a sustentar um caminho arriscado que, se bem-sucedido, pode consolidar o bloco de forças que sustenta a disputa nacional.
Em resumo, a aposta é de alto risco, mas é bancada por Lula como parte de uma estratégia mais ampla para 2026. Se o caminho passar por uma vitória apertada em São Paulo ou mesmo por uma vitória no limite, a sensibilidade política do cenário pode mudar de forma decisiva, abrindo espaço para que Haddad ganhe tração nacional e consolide o apoio ao quarto mandato de Lula. Mas, no dia a dia, o que importa ao eleitor é entender como cada movimento pode impactar a vida cotidiana: desde a economia local até as prioridades de investimentos e o equilíbrio entre as forças políticas do país.