Os apoiadores de Maduro que foram às ruas contra sua captura pelos EUA: ‘Nosso presidente foi traído’
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Caracas amanheceu após uma operação que abalou o país e, ainda assim, em meio à tensão, apoiadores de Nicolás Maduro voltaram às ruas para manifestar apoio ao mandatario, enquanto as informações sobre o desfecho chegavam em meio a rumores, perguntas e muita comoção. No centro da cidade, a atmosfera misturava raiva, surpresa e a esperança de que a figura de Maduro ainda estivesse firme diante do que seria considerado um capítulo decisivo na política venezuelana.
Nesse clima, relatos de quem participou das concentrações dão conta de que havia menos gente do que os protestos de grande expressão, mas o tom era de indignação. “O povo indignado exige seus direitos” foi o refrão repetido por quem dizia sentir que tudo mudou de repente. Além disso, importantes coletivos pró-governo e trabalhadores de órgãos públicos se viam entre os presentes, reforçando o recado de apoio ao presidente e à revolução.
O cotidiano do centro de Caracas logo ganhou um contorno de tensão: homens vestidos de preto, armados de rifles longos, circulavam entre estabelecimentos e ruas, reforçando a sensação de que a violência não tinha ficado longe da cidade. No afã de entender o cenário, uma das participantes, Rosa Contreras, de 57 anos, líder social de Antímano, abriu o coração ao dizer que se sentia humilhada pela forma como Maduro havia sido levado, enquanto ainda manifestava a crença de que o presidente não havia traído seu povo.
Foi nesse mesmo dia que o aparato de segurança dos Estados Unidos ganhou as manchetes. A operação — batizada pela Casa Branca como “Operação Resolução Absoluta” — envolveu o deslocamento de 150 aeronaves e o transporte de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, por vias marítimas até chegar a um navio no Caribe, para posteriormente serem levados a Nova York, onde enfrentariam acusações de narcotráfico e narcoterrorismo. A narrativa oficial norte-americana ressaltou o desfecho como uma ação contra o que chamaram de ameaça à ordem regional.
No dia seguinte, Maduro fez sua primeira aparição judicial em solo norte-americano, em Nova York, para tratar de acusações que, segundo ele, não passam de um equívoco político. Em meio à cobrança de sua inocência, ele afirmou ser um “prisioneiro de guerra” e insistiu: “Ainda sou o presidente”.
Para Contreras, a imagem do presidente acenando ao chegar ao tribunal transmite uma mensagem de firmeza aos seguidores: que o líder permanece resiliente diante da adversidade e que os chavistas devem permanecer eretos. Em contrapartida, outras vozes não esconderam a emoção: Carmen Chirinos, 63 anos, não conteve as lágrimas diante da cena de Maduro algemado, reconhecendo que a dor e a tristeza dominavam seu coração revolucionário.
Enquanto isso, a militância que o cerca não poupou a língua afiada. Gelen Correa, de 50 anos, envolvida em programas sociais do governo, não economizou no rótulo de provocação: “Trump, é com você: devolva o nosso presidente”, declarou com fervor, acrescentando que o povo está pronto para se manter firme. Sobre um eventual novo ataque, ela deixou claro que os apoiadores “vão aparecer armados até os dentes” caso haja qualquer retaliação.
E o clima de mobilização não se limitou aos atos de rua. Um recado antigo, que reaparece com força, fala de milícias deficientemente desmobilizadas com o passar do tempo. Montaram-se simpatias para que venezuelanos se alistassem na milícia, com a ideia de defender Maduro a qualquer custo, em um cenário que indica que a tensão pode continuar a se desenrolar nos próximos dias.
Do lado de lá da fronteira simbólica dos apoiadores, o mundo externo assistia a uma versão diferente da história. O governo dos EUA afirmou não ter havido mortos nem feridos entre suas forças na operação. Do lado venezuelano, porém, ainda não havia balanço definitivo de vítimas ou danos materiais: o ministro da Defesa, o general Vladimir Padrino López, afirmou que a maioria dos escoltas de Maduro foi “assassinada a sangue frio” pelos militares americanos, sem apresentar números. O único número divulgado até então veio de Cuba, que informou, no mesmo dia, a morte de 32 cidadãos cubanos em ações ligadas ao episódio.
Entre os críticos da gestão, Elin Mata pediu publicamente a devolução de Nicolás Maduro, repetindo a angústia de muitos que se perguntam sobre a condução do conflito: “Devolvam Nicolás”, repetia. Já entre os apoiadores mais próximos, o debate girava em torno de falhas de segurança e a percepção de falhas que teriam permitido que a situação se agravasse.
À medida que a operação avançava, surgiam dúvidas sobre a condução política do país. Enquanto Maduro permanecia ausente, Delcy Rodríguez, vice-presidente venezuelana, foi investida como presidente interina por determinação do Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela, marcando uma reconfiguração institucional que ganhava corpo no meio de críticas e dúvidas sobre o que viria a seguir.
Fora do raio de atuação dos chavistas, a vida no dia a dia continuava sob a sombra da crise econômica. Em várias áreas de Caracas, as famílias faziam fila para comprar proteínas, leguminosas e itens básicos, com prateleiras dos supermercados já bastante esvaziadas ao fim do dia. O abastecimento de combustível seguia ativo, mas as cenas de desabastecimento já faziam parte da rotina de muitos venezuelanos, que enfrentam há anos a dureza de uma economia sob tensão.
Na prática, o que ficou é a imagem de um país dividido entre o apoio inabalável a Maduro e a incerteza de como a situação seria resolvida daqui em diante. No fim das contas, o que se vê é uma nação que tenta manter o equilíbrio entre a esperança de uma saída pacífica para a crise e a leitura de que grandes mudanças ainda estão por vir.