Ângela Carrato: No banco dos réus da farsa Lava Jato, imprensa falta

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Ângela Carrato: No banco dos réus da farsesca Lava Jato ainda falta a mídia

Silêncio ensurdecedor sobre ordem de Toffoli

Quando o ministro do STF, Dias Toffoli, determinou que agentes da Polícia Federal cumprissem mandado de busca e apreensão na 13ª Vara Federal de Curitiba, o tema parecia pronto para dominar as manchetes da TV. A ordem caiu como uma bomba para Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e a juíza Gabriela Hardt, com a exigência de que fossem recolhidos documentos solicitados pelo STF há quase dois anos. A investigação, ainda sigilosa, foi aberta por demanda da Procuradoria e indicada para aprofundar indícios sobre declarações apontadas por Tony Garcia, empresário e ex-deputado paranaense, que acusa Moro e assessores de crimes graves.

Segundo apuração, o inquérito, aberto no ano anterior a pedido da PGR e impulsionado por apurações da PF, sinaliza a necessidade de investigar com mais cuidado declarações do próprio Garcia. A denúncia central é a de que Moro o cooptou para transformar-se em seu agente, com o objetivo de obter provas contra políticos e figuras proeminentes do mundo empresarial e jurídico. Entre as acusações, destacam-se a existência de cerca de 400 horas de gravações ilegais usadas para chantagear privados e forçar posições na condução de casos no entorno de Moro, à época responsável pela vara. O conjunto de afirmações remonta a 2003, quando Garcia, preso pela PF por gestão fraudulenta, aceitou colaborar com um acordo de delação premiada que o colocou em uma posição próxima de Moro para o que viria a ser parte central da Lava Jato.

Entre os episódios citados por Garcia está a famosa <>festa da cueca<>, ocorrida na suíte presidencial de um hotel em Curitiba, em 2003, onde magistrados foram gravados em ambiente privado, brincando com prostitutas. De acordo com García, as gravações teriam sido usadas para manter desembargadores sob influência de Moro, alimentando um controle estratégico sobre decisões relevantes. A revelação, que pode ter desdobramentos significativos, permanece cercada de silêncio no debate público.

No centro do debate, porém, está o tema de caráter público: o que isso muda na prática para o funcionamento da Justiça e para a política. Enquanto Garcia afirma ter localizado a suposta “caixa amarela” com gravações e vídeos — incluindo o registro da própria festa —, os envolvidos negam ou minimizam a conexão entre tais fatos e as atividades públicas de Moro. A leitura comum é de que o episódio interessa não apenas a trajetória de Moro, mas o equilíbrio de decisões que, no Brasil, ainda hoje influenciam o cenário político.

Além disso, o episódio reacende discussões sobre o alcance da Lava Jato, que, no passado, atingiu dezenas de empresários e abriu controvérsias sobre a prisão de Lula e o foco de investigações, que muitas vezes se projetaram além das fronteiras nacionais. Em paralelo, reportagens e vazamentos já revelados sugerem que houve interações entre membros da força-tarefa de Curitiba e órgãos externos aos seus limites, alimentando um debate sobre parcialidade institucional e transparência. O tema ganhou corpo com referências a séries de reportagens internacionais e nacionais que expõem a dinâmica entre autoridades brasileiras e outros atores políticos.

Não é de hoje que a crise de credibilidade que envolve a Lava Jato repercute nos meios de comunicação. A chamada grande mídia, historicamente associada a grandes oligarquias nacionais, é apontada como parte do entrosamento que levou a narrativa da operação a se consolidar como “a maior ação de combate à corrupção” — e a transformar Moro e Dallagnol em alicerces de uma imagem heroizada. Em meio a isso, surgem vozes que contestam esse enredo, lembrando episódios como as reportagens coletadas pelo The Intercept Brasil que, entre 2019 e 2020, revelaram mensagens que apontaram condutas parciais no processo, gerando debates sobre a real independência das investigações.

Além das críticas sobre a imparcialidade, o texto também relembra números que ajudam a entender o cenário: a mídia aberta continua sendo o principal canal de alcance, com amplas margens de audiência, seguida pelo YouTube e pela televisão paga. O bem-fundado temor de que segredos no âmbito do Judiciário possam não receber a devida divulgação também é citado como parte de uma discussão maior sobre regulação da comunicação, educação midiática e o papel da imprensa na defesa da democracia.

É nesse contexto que o debate sobre a relação entre Lava Jato, o poder judiciário e a imprensa se volta à pergunta central: qual o custo para a democracia de manter ocultas investigações de grande impacto público? E, no dia a dia, que efeito tem para o cidadão comum entender os desdobramentos de um caso que envolve figuras de peso, decisões judiciais e a própria credibilidade das instituições que governam o país?

Não é a primeira vez que vozes críticas acusam a imprensa de escolher o que publicar, ou de privilegiar narrativas convenientes ao que se quis mostrar. A história recente lembra que o silêncio também pode ser uma posição, e que a cobertura completa de temas complexos envolve entender não apenas as acusações, mas também o contexto, os interesses em jogo e o impacto real para a vida das pessoas. Diante disso, o tema exige acompanhamento atento e uma leitura crítica por parte do público, para que a democracia não sucumba ao ruído da desinformação.

Ângela Carrato é jornalista, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG e membro do Conselho Deliberativo da ABI. Leia também VÍDEO: A redenção de uma prisão

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