Ameaça de greve dos caminhoneiros assusta Lula no ano eleitoral

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Ameaça de greve dos caminhoneiros que atormenta Lula em ano eleitoral: “Estamos mais organizados do que em 2018”

Diesel acumula alta de 19% desde início da guerra no Irã e governo anuncia medidas na tentativa de apaziguar os ânimos da categoria que parou o país em 2018.

O cenário é tenso: caminhoneiros de diferentes regiões do país avaliam a possibilidade de parar as atividades nos próximos dias, diante da alta no diesel impulsionada pela tensão no Irã. Em meio a esse cenário, o governo tenta acalmar a categoria, que já provocou impactos significativos na economia em 2018.

Chorão, como é conhecido Wallace Landim, presidente da Abrava, volta a reforçar que a organização da classe hoje está muito mais robusta do que há oito anos. A mensagem deixa claro o peso de cada decisão: com combustíveis caros, o custo de trabalhar aumenta, e a operação fica mais delicada de manter.

Em 2018, a disputa entre caminhoneiros e o governo acabou em uma greve de 10 dias, com consequências reais para o abastecimento e a atividade econômica. Hoje, o diesel S-10 acumula alta de 19,4% no país desde o dia 28 de fevereiro, segundo o painel da ValeCard, que coleta dados de abastecimento em dezenas de milhares de postos. O efeito é sentido no bolso do caminhoneiro e no preço final de mercadorias, gerando insegurança entre empresários e famílias.

Pelo lado oficial, o governo tem buscado atalhos para conter a escalada de preços. Entre as medidas anunciadas constam a isenção de PIS/Cofins sobre o diesel, subvenções para produtores e distribuidores, além de tributos sobre exportação. Na prática, no entanto, a balança não se equilibra: no dia seguinte, a Petrobras comunicou um reajuste de R$ 0,38 por litro no diesel A nas suas refinarias. Mesmo com o aumento, o preço ainda fica abaixo do observado no mercado internacional, o que alimenta a expectativa de novos ajustes no curto prazo, segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom).

Nesta semana, em 18/3, o governo voltou a agir para tentar conter a reação da categoria, ciente dos impactos eleitorais e da popularidade de Lula diante de qualquer paralisação sensível. O ministro dos Transportes, Renan Filho, e o diretor-geral da ANTT, Guilherme Sampaio, anunciaram medidas voltadas à ampliação da fiscalização da tabela de piso mínimo do frete e à responsabilização de infratores. Além disso, o governo sugeriu aos Estados a desoneração do ICMS sobre a importação de diesel, com compensação de 50% da arrecadação pela União, estimando uma renúncia mensal de cerca de R$ 3 bilhões.

Para Landim, as novidades ainda precisam ser avaliadas pelas bases: os caminhoneiros vão decidir se os anúncios são suficientes para desmobilizar o indicativo de greve. Ele diz que o objetivo é manter o equilíbrio entre custo de operação e o que é pago ao longo das viagens, destacando que a alta do diesel é, em parte, reflexo do conflito no Oriente Médio, embora donos de postos já tenham reajustado antes da própria sinalização da Petrobras.

O líder da categoria aponta ainda que a medida de zerar o PIS/Cofins sobre o combustível ficou aquém do necessário. Entre as propostas adicionais, ele cita a necessidade de maior controle sobre a formação de preços pelas redes de postos, além de pleitear a reestatização da BR Distribuidora para ampliar a capacidade de intervenção da estatal na formação de preços. A ideia é que, com o controle direto, haja menos oscilações no bolso do consumidor e do transportador.

Vale lembrar que a estrutura da representação dos caminhoneiros é historicamente pulverizada: além da Abrava, entidades como o Sindicam de Santos e a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística (CNTTL) aparecem em apoio à paralisação. No final das contas, o que a categoria espera é uma solução que reduza custos e traga previsibilidade para o setor, em especial diante de um cenário de preço alto de combustíveis e perspectivas econômicas desafiadoras.

Do ponto de vista econômico, o economista Sergio Vale, da MB Associados, vê o risco de uma greve real, mas ressalta que o espaço de manobra do governo para novas medidas é limitado por questões fiscais. Ele admite que um movimento pontual pode acontecer, embora não se espere a mesma amplitude de 2018. Em termos de reação do mercado financeiro, o paradoxo é que esse tipo de tensão tende a ter efeito moderado, especialmente se houver expectativa de ajustes fiscais e de governo no horizonte. Ou seja, o humor dos investidores pode ser mais cauteloso, mas não necessariamente pessimista diante de mudanças políticas futuras.

Em síntese, a frente de confronto entre caminhoneiros e governo funciona como um alerta claro: o preço do combustível influencia diretamente o dia a dia de quem carrega boa parte da economia brasileira. Por ora, governos e entidades estão em uma tentativa de equilíbrio, buscando soluções que contenham o custo do diesel, mantenham o abastecimento estável e ofereçam previsibilidade para quem opera na estrada. E no leitor comum, a pergunta que fica é simples: diante desse cenário, o que muda na prática para quem recebe as contas no fim do mês?

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Jornalista

Fernanda Costa

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