Ameaça de ataque dos EUA à Colômbia é real, diz presidente à BBC

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Ameaça de ação militar dos EUA contra a Colômbia é ‘real’, diz presidente do país à BBC

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O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, afirma à BBC que hoje existe uma ameaça real de uma intervenção militar dos Estados Unidos contra o seu país. Para ele, os EUA estão tratando outras nações como parte de um império americano, e a declaração chega em meio a rumores de que Donald Trump ameaçou a Colômbia de ação bélica. Petro diz que o país corre o risco de sair de um lugar de “domínio do mundo” para ficar isolado do mundo, caso a política de Washington siga nesse caminho. Além disso, o presidente colombiano acusou agentes do ICE (Immigration and Customs Enforcement) de atuarem como brigadas nazistas, em um tom de crítica contundente à postura migratória norte-americana.

Segundo Petro, a relação entre Bogotá e Washington ganhou contornos de tensão após o que ele descreve como uma escalada de retórica. A Casa Branca, procurada pela BBC, não comentou as declarações. Enquanto isso, Trump afirmou em tom de provocação que poderia haver apoio a uma operação militar contra a Colômbia, justificando o endurecimento com ações de combate ao crime e à imigração irregular. Em uma ligação com o colega colombiano na noite de quarta-feira (07/01), Trump disse que se reuniria com ele na Casa Branca “em um futuro próximo”; já em uma publicação no Truth Social, descreveu a conversa como uma grande honra, sinalizando uma mudança de postura que um assessor colombiano avaliou como uma espécie de inversão de retórica entre os dois lados.

No entanto, na quinta-feira (08/01), o tom de Petro indicou que a relação não havia se aquecido de forma significativa. A ligação, que durou pouco menos de uma hora, segundo o presidente colombiano, teve como eixo o tráfico de drogas, a situação na Venezuela e a visão de Bogotá sobre a América Latina e os EUA. Petro voltou a criticar a política migratória dos EUA, insistindo que o ICE já ultrapassou limites ao agir contra latino-americanos e, em sua leitura, até mesmo contra cidadãos dos Estados Unidos.

Para situar o leitor, vale mencionar a dimensão de confrontos na agenda migratória. Dados citados por Petro apontam que o governo de Trump afirmou ter deportado 605 mil pessoas entre 20 de janeiro e 10 de dezembro de 2025, e que cerca de 1,9 milhão imigrantes se autodeportaram de forma voluntária — número divulgado após campanhas públicas de conscientização. Em novembro de 2025, cerca de 65 mil pessoas estavam detidas pelo ICE, segundo estimativas de organizações acadêmicas.

Em meio a esse cenário tenso, um incidente grave chamou a atenção internacional: em uma cidade norte-americana, um agente do ICE matou uma cidadã americana de 37 anos, Renee Nicole Good, após declarações de que a vítima tentou atropelar agentes com o veículo. Autoridades federais defenderam o uso da força, enquanto o prefeito de Minneapolis pediu responsabilidade e pediu que a agência revisasse seus procedimentos. Petro destacou que o ICE, em sua avaliação, já não persegue apenas imigrantes, mas também afeta cidadãos locais, o que poderia aprofundar um cerco contra a presença latino-americana nos EUA.

Na visão de Petro, após a intervenção norte-americana na Venezuela, os EUA parecem favorecer guerras por recursos — sobretudo petróleo e carvão — e ele lembrou que, se o Acordo de Paris tivesse sido respeitado, haveria menos guerras e relações mais democráticas com a região e com a América do Sul. O tema venezuelano, segundo o presidente colombiano, envolve tentativas de interferência e operações secretas de diversas agências de inteligência. Petro também citou que, embora haja cooperação entre agências, essa atuação se restringe a controles sobre o tráfico de drogas e não a confrontos diretos com governos vizinhos.

Sobre Maduro, Petro mencionou que ele foi capturado pela Força Delta, uma unidade de contraterrorismo dos EUA, após uma ajuda de uma fonte da CIA dentro do governo venezuelano. Em relação ao que tudo isso significa para a Colômbia, Petro lembrou que a Colômbia é hoje o maior polo de produção de cocaína no planeta e possui reservas relevantes de petróleo, além de minério e carvão. Nessa linha, os EUA teriam interesse em manter sob controle as vendas de petróleo venezuelano por tempo indeterminado, enquanto Washington continua a reorientar sua estratégia regional.

Em síntese, Trump descreveu Petro como alguém com comportamento considerado problemático para as relações bilaterais, ao apontar que o colombiano seria um líder influenciado por redes de tráfico. Petro, por sua vez, negou veementemente qualquer envolvimento com narcotráfico, lembrando de décadas de luta contra cartéis e destacando que o país viveu anos de exílio para buscar a paz. Mesmo assim, ele admite que o atual formato de diálogo com grupos armados precisa de equilíbrio: há, por um lado, uma abertura para negociações com criminosos; por outro, uma ofensiva firme contra quem não quer paz.

Segundo o presidente colombiano, as negociações no sul da Colômbia — onde, segundo ele, houve a maior redução no cultivo de folhas de coca e onde a violência registrou quedas expressivas — demonstram que a estratégia de paz total continua, mas não é ingenuidade: “sabemos com quem estamos negociando” é a síntese de uma política que busca desescalar a violência sem abrir mão da soberania. No fim das contas, Petro sustenta que o país precisa de diálogo, sim, mas com condições claras, e que a Colômbia tem histórico de resistência frente a grandes exércitos.

Entre uma retórica cada vez mais polarizada e desdobramentos diplomáticos, a pergunta que fica é simples: como essa dança de sinais entre Bogotá e Washington vai se desenrolar daqui em diante? A resposta pode moldar não apenas a política regional, mas o cotidiano de quem vive na fronteira entre interesses estratégicos, econômicos e humanos.

  • Ameaça real de intervenção militar é o centro da discussão entre Colômbia e EUA.
  • ICE no centro de controvérsias sobre políticas migratórias e direitos civis.
  • Dados sobre deportações e detenções mostram uma agenda de imigração energeticamente agressiva.
  • As negociações sobre coca e paz na Colômbia são cruciais para reduzir violência e estabilizar a região.

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Jornalista

Mariana Silva

Personal organizer que adora soluções práticas para casa. Especialista em maximizar espaços pequenos com produtos inteligentes.

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