Amamentar o ogre
(créditos: Globo) Esta manhã leio uma notícia e vejo uma fotografia. A fotografia é do Presidente do EUA e da mais recente vencedora do Prémio Nobel da Paz, a oposicionista venezuelana María Corina Machado. Na imagem que acima reproduzo vê-se o primeiro com a medalha que a segunda recebeu em Oslo.Depois de se ter auto-proposto como candidato ao Nobel da Paz, com uma contabilidade e revelando uma ignorância e argumentos que envergonhariam qualquer aldrabão de feira, e de por várias vezes ter publicamente afirmado que gostaria de ser o escolhido e de receber o Nobel, tal o despeito por o mesmo ter sido atribuído a um dos seus antecessores na presidência; e de ter recebido das mãos do indiscritível Infantino, primeiro responsável da FIFA, um “prémio” criado à pressão para lhe satisfazer o ego e a idiotia, chegou agora a vez de se predispor a aceitar da política venezuelana o galardão que a esta fora atribuído. A academia sueca já tinha avisado, ao saber das primeiras intenções de Corina, de ceder o prémio ao fulano, que tal não seria possível.Os prémios, independentemente da justiça ou injustiça da escolha e dos méritos dos galardoados, são pessoais e intransmissíveis. Obedecem normalmente a um regulamento, sendo certo que podem sempre ser recusados, o que a venezuelana não fez.Que Donald Trump, com toda a sua estultícia, rodeado por uma corte de outros como ele e uma multidão de esquizofrénicos, energúmenos e boçais, mais o seu vasto lençol de inanidades, insultos e crimes estivesse disponível para receber a medalha, aquela ou outra qualquer, nos dias que correm não será motivo de estranheza para pessoa medianamente informada. Saber que a dirigente politica venezuelana, depois de destratada e ridicularizada pelo próprio Trump, e do telefonema que lhe fez na sequência do recebimento do prémio, como se estivesse a desculpar-se pelo facto de ter sido escolhida, aceitou deslocar-se à Casa Branca para oferecer a sua própria medalha e posar para as câmaras ao lado do anfitrião é do domínio do vexame. Duvido que o seu gesto possa trazer quaisquer frutos para o seu povo, melhore a sua qualidade de vida, reduza a conflitualidade, aumente a paz no mundo – que seria sempre um factor a considerar –, contribua para a sua causa ou restitua a democracia, a liberdade e algum amor-próprio aos venezuelanos.Posso estar enganado, mas um ser humano, uma mulher, uma política que diariamente se rebaixa perante aquele ogre, saído directamente das profundezas da Idade Média para as margens do Potomac, mostra não estar à altura do prémio. Desse ou de qualquer outro.
Nesta leitura, a imagem funciona como um espelho de tensões políticas que atravessam o cenário global: de um lado, a diplomacia e a ostentação de símbolos; de outro, o desgaste de lideranças que acabam sendo consumidas pelo próprio espetáculo. María Corina Machado permanece sob o holofote não apenas pelo que declara, mas pelo que o gesto diz aos seus apoiadores e adversários. No dia a dia, a reação à medalha — o momento capturado na Casa Branca — revela mais sobre o ambiente político venezuelano do que sobre o que acontece no Salão de Oslo.
O episódio também coloca em evidência a distância entre a recepção pública de uma premiação e o que ela representa para o povo. Em termos práticos, a cerimônia e o reconhecimento não parecem trazer imediatamente melhorias concretas para a vida cotidiana dos venezuelanos. A controvérsia fica menos sobre o mérito do prêmio e mais sobre o que cada gesto comunica àqueles que acompanham a crise interna do país.
Como leitura crítica, chama a atenção que, mesmo com regras claras de atribuição — regras que enfatizam a natureza pessoal e intransferível dos prêmios — nem todos aceitam ou recusam a homenagem da mesma forma. No fim das contas, o que importa para o público é entender quais consequências reais existem por trás de uma foto e de uma palavra proferida num cenário tão destacado.
É inevitável perguntar: qual é o significado de esse tipo de protagonismo, hoje, para quem está na linha de frente de uma batalha política? Será que gestos simbólicos ajudam a avançar causas, ou acabam servindo apenas para alimentar a narrativa de quem quer manter o foco no espetáculo? No balanço, resta a sensação de que a obra pública pode se tornar um palco onde críticas contundentes não encontram respostas rápidas — e onde o leitor, no cotidiano, fica com a tarefa de filtrar o ruído da imagem.
Desse ou de qualquer outro, a impressão que fica é a de que o pós-prêmio pode revelar muito sobre as alianças, as pressões internas e as expectativas de mudança. E, no fim das contas, o leitor comum fica com a pergunta que não quer calar: o que realmente muda na prática para quem vive com a incerteza diária na Venezuela?