Quais aliados restaram ao Irã na região após ataques dos EUA e Israel

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Quem são os aliados que sobraram ao Irã na região após ataques dos EUA e Israel

O “eixo da resistência”, aliança de milícias pró-Iran no Oriente Médio, está enfraquecido, embora ainda tenha capacidade de atacar alvos ocidentais na região

O Oriente Médio está mais tenso do que nunca, com o apontar de uma possível grande guerra regional após ataques dos EUA e de Israel contra o Irã neste fim de semana. Em resposta, o Irã disparou mísseis que atingiram várias nações da região onde os EUA mantêm bases, elevando o temor de que o conflito se estenda. No dia a dia, o cenário envolve Jordânia, Catar, Emirados Árabes, Bahrein, Kuwait e Arábia Saudita, além de Israel, como destinos de retaliação que colocam à prova o equilíbrio regional.

Essa sequência envolve o que se costuma chamar de eixo da resistência, uma aliança de milícias e grupos que seguem a linha antiamericana. A ideia original era contrabalançar a influência de Washington e de Israel, reunindo organizações como Hamas, no território palestino, Hezbollah, no Líbano, os houthis no Iêmen e coletivos no Iraque e na Síria. Muitas dessas entidades aparecem como organizações perigosas em diferentes cenários ocidentais, e por anos desafiaram serviços de inteligência e operações israelenses no terreno.

No plano internacional, o Irã também buscou alianças com potências que compartilhavam sua visão antiamericana, como o presidente russo Vladimir Putin, além de laços com Bashar al‑Assad, da Síria, e Nicolas Maduro, da Venezuela. Hoje, esse entramilho de alianças aparece mais fragilizado do que nunca, ainda que esteja longe de desaparecer.

Síria, o aliado perdido — O regime sírio era visto como porta de entrada para a influência iraniana no mundo árabe. O Irã investiu pesadamente para sustentar Assad, mas a guinada política do país, com a queda de Assad no fim de 2024, abriu espaço para reequipamentos de forças locais e Questionamentos sobre o eixo da resistência. O novo líder, Ahmed al‑Sharaa, ligado a correntes sunitas, passou a se alinhar aos Estados Unidos, o que enfraqueceu o elo entre Damasco e Teerã. Mesmo assim, o território sírio continuou a permitir o envio de armas e combatentes ao Hezbollah, mantendo vivo o fio que conecta Líbano, Síria e Irã, ainda que com interrupções que desafiaram a continuidade desse arco estratégico.

Houthis no Iêmen — No norte do Iêmen, o movimento xiita Ansar Allah ampliou sua influência, controlando cerca de 30% do território e impondo um regime que atrai críticas por violações de direitos humanos. O grupo, que se consolidou na década de 1990 entre zaiditas, ganhou protagonismo justamente quando o Hezbollah no Líbano enfrentou reveses. Os ataques lançados contra navios e alvos dos EUA e de Israel aumentaram desde o início da guerra em Gaza, e os houthis também demonstram capacidade de atingir Israel com mísseis e drones. Em 2025, a ofensiva americana mira desmantelar a insurgência marítima, com ações que chegaram a mais de mil alvos no Iêmen. Ainda assim, a presença e a influência dos houthis permanecem relevantes no tabuleiro regional.

Hezbollah — Até muito recentemente, o Hezbollah era apontado como o principal e mais forte aliado do Irã na região, com uma presença sólida no Líbano e milhares de combatentes. Contudo, a guerra em Gaza alterou esse equilíbrio: o grupo enfrentou retaliações nacionais e regionais que o deixaram mais vulnerável. Os ataques israelenses na região atingiram instalações do Hezbollah e, em uma leitura dramática, chegaram a tirar o líder Hasan Nasrallah do centro das decisões, ampliando o desgaste. Ainda assim, o Hezbollah mantém um arsenal considerável capaz de atingir Israel, mantendo uma linha de atuação que o Irã não pode abrir mão.

Milícias xiitas do Iraque — Sob o guarda-chuva das Forças de Mobilização Popular (FMP), diversas milícias xiitas mantêm vínculos fortes com Teerã. Funcionando como uma espécie de guarda avançada iraniana, algumas organizações estendem suas ações ao território iraquiano, operando com autonomia. Recentes ataques aéreos em Jurf al Sakhar, ao sul de Bagdá, resultaram em mortes e ferimentos entre integrantes dessas milícias, e há quem aponte para uma possível entrada direta em conflitos caso o Irã sofra novas investidas. A Kataib Hezbollah chegou a orientar seus combatentes a se prepararem para uma guerra prolongada, sinalizando que o Irã continua sendo uma peça estratégica para vários atores locais.

Hamas — No campo palestino, o Hamas, historicamente apoiado por Teerã, enfrenta uma fase de debilidade após anos de confronto com Israel na Faixa de Gaza. Embora ainda haja apoio entre parcelas da população, a capacidade de lançar ataques de maior escala foi drasticamente reduzida. Entre as perdas, estão líderes importantes do grupo: Ismail Haniya, chefe político, foi tirado de cena em um bombardeio em Teerã em 2024, assim como Yahia al‑Sinwar, o ideólogo por trás de ações de 2024. Mesmo com esse revés, a influência regional do Hamas persiste como uma variável no equilíbrio entre Israel e os seus vizinhos.

No tabuleiro global, o Irã consolidou vínculos com a Rússia, que passou a receber armamentos e tecnologia de Teerã para contornar sanções. A Rússia, por sua vez, criticou ataques contra o Irã e busca preservar vínculos com outras potências regionais. Do outro lado, a China pediu o cessar-fogo imediato e enfatizou a importância de respeitar a soberania iraniana, mantendo uma relação comercial estratégica, ainda que com limitações impostas por sanções internacionais. O Irã também manteve laços com a Coreia do Norte e com a Venezuela, apesar das tensões que envolvem sanções e a instabilidade regional. A recente captura de Nicolás Maduro pelos EUA lançou a relação com Caracas em compasso de espera, com benefícios que, em grande medida, já não são apenas materiais, mas simbólicos.

No fim das contas, a rede de alianças do Irã na região continua menos robusta do que no passado, mas não está completamente diluída. O conjunto de forças que formava o eixo de resistência se reorganiza diante dos reveses, mantendo capacidade de responder a alvos ocidentais na região, com impactos diretos sobre a maneira como as potências da área lidam com o conflito. E você, leitor, o que acha que muda na prática para quem vive no dia a dia dessa região instável?

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Jornalista

Lucas Almeida

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