Abertura econômica e tutela dos EUA: mudanças na Venezuela pós-Maduro

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Abertura econômica e tutela dos EUA: o que mudou na Venezuela após queda de Maduro

Um mês depois da operação dos EUA que derrubou o ditador venezuelano, incerteza ainda reina em Caracas

Em 3 de janeiro de 2026, Caracas viveu uma madrugada de operações militares que levou à deposição de Nicolás Maduro, com o ditador removido pelas Forças Armadas americanas e levado a Nova York para responder por acusações ligadas ao tráfico de drogas. A mudança abriu espaço para uma nova realidade política, ainda que cercada de dúvidas sobre o que virá no curto prazo. No centro dessa virada está Delcy Rodríguez, ex-vice-presidente, que passou a conduzir as mudanças sob pressão dos Estados Unidos, mantendo, ao mesmo tempo, uma retórica que resvala na herança chavista. Na prática, o país caminha sob uma espécie de “estabilidade tutelada”, conforme aponta o consenso de analistas, com Washington acompanhando de perto cada passo.

Rodríguez assume o governo de forma interina e já está promovendo ajustes em setores-chave, incluindo a relação com as Forças Armadas e a administração pública. Enquanto isso, a imprensa e a sociedade civil monitoram quais promessas vão de fato se materializar, principalmente no que diz respeito à transição democrática, à liberdade de expressão e ao tratamento de opositores e prisioneiros políticos. Há quem veja nessa transição uma mudança necessária para abrir espaço a um equilíbrio entre o novo eixo de Washington e os interesses internos do chavismo, já sob nova forma de governança.

Na avaliação de especialistas, essa fase é marcada por uma “retomada” das relações com os Estados Unidos, ainda que com cautela. A chegada de Laura Dogu, nova chefe da missão diplomática norte-americana, reforçou a ideia de uma transição estruturada, com discursos que enfatizam uma Venezuela “amigável, estável, próspera e democrática”. No dia a dia, porém, persiste a dúvida sobre o ritmo dessa transformação e sobre o que finalmente vai ocorrer em termos de eleições e de reformas institucionais. Do lado de Washington, o tom é de pragmatismo: a reaproximação é vista como fundamental para atrair investimentos, especialmente no setor de energia.

A reaprovação de canais diplomáticos coincide com uma agenda econômica explícita: a reforma da lei do petróleo, uma peça-chave do novo ciclo, abriu espaço para a atuação de empresas privadas de forma independente em parceria com a estatal PDVSA. A mudança elimina a ideia de uma produção controlada apenas pelo Estado, flexibiliza taxas de royalties, simplifica pagamentos de impostos e amplia a participação de companhias privadas. O objetivo declarado é atrair investimentos norte-americanos, com foco particular em grandes players como a Chevron. Especialistas afirmam que, para reativar a indústria petrolífera — que sofreu com décadas de má gestão e corrupção — serão necessários cerca de US$ 150 bilhões (aproximadamente R$ 788 bilhões).

Nessa linha, a gestão de Rodríguez já mostrou uma atuação que, embora alinhada a Washington, preserva um vocabulário que se refere ao legado chavista. A experiência anterior no Ministério dos Hidrocarbonetos, onde implementou reformas de livre mercado, aparece como base para as mudanças do presente. Além disso, a administração interina não apenas busca recuperar o fôlego da economia, mas também sinaliza um caminho de normalização política que, na visão de analistas, contrasta com a retórica anti-imperialista históricamente associada ao chavismo.

A aproximação com os EUA também envolve a agenda de transição. Em um contexto de comunicação deliberadamente articulada, Rubio, secretário de Estado interino, apontou que o alinhamento com Washington deverá seguir fases bem definidas, com atenção especial a garantias democráticas. Ainda assim, o governo em exercício não tem pressa em convocar eleições imediatas, alimentando a percepção de uma fase de reajustes que pode levar tempo para consolidar uma nova legitimidade. O balanço entre continuidade administrativa e inovação política permanece no centro das discussões.

Entre os destaques da “fase de reajuste”, está a promessa de anistia geral, que o Parlamento precisa aprovar na semana atual. Embora o discurso seja de liberdade para muitos, o efeito prático continua sendo debatido. O Foro Penal tem sido cauteloso ao discutir o alcance dessa anistia, observando que pode haver riscos de criar um manto de impunidade para crimes cometidos no passado. Enquanto isso, famílias de presos políticos voltam a se reunir nas ruas, clamando por libertação, em meio a previsões de que o processo de soltura caminhará pouco a pouco.

No dia a dia do país, o clima é de “normalidade tensa”. A rotina de Caracas voltou ao ritmo previsível, mas com olhos atentos às mudanças que se anunciam. A imprensa descreve um cenário em que o governo celebra avanços econômicos, enquanto a sociedade civil permanece vigilante, não abrindo mão de cobrar transparência, justiça e instituições mais fortes. Nesse contexto, a centralização de poder, a presença de figuras-chave do chavismo que permanecem no governo e as decisões sobre o futuro institucional do país continuam a gerar dúvidas sobre o caminho definitivo da Venezuela.

Em meio a essa reorganização, também se observa uma estratégia de propaganda e mobilização social. O chavismo mantém força organizando manifestações quase diárias que condenam o que chamam de sequestro de Maduro, enquanto a televisão estatal divulga mensagens de libertação e de apoio ao novo curso político. O retrato é de um país dividido entre o desejo de estabilidade econômica e as pressões de uma memória política que ainda pesa, gerando tensões internas que exigem equilíbrio cuidadoso.

Para além das mudanças estruturais, há quem destaque o aspecto humano da transformação. Alguns venezuelanos descrevem o cotidiano como uma mistura de esperança contida e cautela. A percepção de uma normalidade que se reconquista aos poucos traz à tona perguntas sobre o que realmente pode mudar na vida das pessoas: haverá dinheiro circulando, empregos assegurados, oportunidades reais para quem produziu e para quem não tinha com o que contar? E, no fim das contas, quais garantias existirão para que as promessas de liberdade e prosperidade se tornem fatos estáveis, não apenas slogans?

O que parece claro é que o país está diante de uma virada com consequências profundas: uma abertura econômica sem precedentes para o setor petrolífero, uma nova leitura da relação com os Estados Unidos e um debate amargo sobre justiça e reconciliação. Enquanto Delcy Rodríguez conduz com mão firme e pragmática, a Venezuela precisa também lidar com a memória de décadas de controle político, com a pressão internacional e com a necessidade de construir instituições que sustentem a democracia ao longo do tempo.

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Jornalista

Renata Oliveira

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