António Filipe: “Marques Mendes é o candidato do Governo”
Candidato do PCP considera “natural” apoio de Luís Montenegro a Marques Mendes e rejeita voto útil. Iniciou campanha em Peniche com ex-presos políticos contra quem “branqueia o fascismo”.
Em meio à atual corrida presidencial, António Filipe voltou a defender uma leitura clara do cenário político: Luís Marques Mendes seria o candidato do PSD para sustentar a linha de governo em curso, e, por isso, não surpreende que o primeiro-ministro o apoie. A declaração surgiu após um contacto com eleitores na região do Barreiro, quando lhe perguntaram sobre a participação do chefe do Executivo numa ação de campanha do adversário. Para o candidato apoiado pelo PCP e pelo PEV, é “natural” que o apoio a Mendes se tenha efetivado, já que “ele representa o projeto de governo que hoje está em prática”.
Na prática, Filipe explicou que Mendes “é o candidato do PSD” e que Luís Montenegro, ao ser o presidente do partido, encarna esse mesmo movimento político. Em suma: a coincidência de estratégias ajuda a moldar o cenário eleitoral, e o que parece claro para ele é que a agenda de governo já tem, de fato, um rosto público aliados à campanha do PSD. Ainda assim, o candidato ressaltou que a sua leitura sobre o momento não se resume a uma frente única, mas a uma posição que considera natural dentro do panorama democrático. “A minha candidatura não é apenas um conjunto de propostas; é uma escolha que se inspira na Constituição, nos valores de Abril e na esquerda que tenho defendido há anos”, afirmou, reiterando que o seu projeto nasceu para marcar uma linha distinta e insubstituível.
Sobre o voto útil, que tem sido tema de discussão, Filipe foi direto: não há fórmula mágica nem promissora de “valorizar” uma candidatura à custa de outra. Em tom irônico, comentou que a ideia de que o voto útil se concentra em Marques Mendes não o convence. “Uma candidatura vale por si, independentemente de coligações ou de outros nomes”, frisou, acrescentando que a sua visão de futuro está enraizada na defesa dos trabalhadores e dos valores democráticos que pretende manter no centro do debate público. No dia a dia, ele reforçou que a sua meta é clara: tornar a sua candidatura uma manifestação autêntica da Constituição que todos os portugueses merecem.
No decorrer do encontro, António Filipe voltou a defender o pacote laboral, lembrando o grupo de três candidatos que, para ele, nada fizeram para enfrentar as medidas impostas pela troika. Além de Mendes, citou André Ventura e António José Seguro, sinalizando que o seu posicionamento é o oposto a quem opta por ficar “em cima do muro” diante de mudanças tão importunas para os trabalhadores. “Eu escolho o lado dos trabalhadores e daquelas pessoas que se sentem lesadas se o pacote laboral avançar”, declarou, deixando claro que não estará do lado de quem apenas observa o desenrolar das propostas sem se comprometer com resultados práticos. Ao final, enquanto os apoiadores aplaudiam, o candidato brindou com ginjinha e saboreou bolo-rei, num momento de confraternização que ele descreveu como incentivo para a sua campanha.
A arrancada oficial da candidatura, no entanto, teve um marco incomum: Peniche, fortaleza histórica que foi polo político durante décadas. Foi ali que António Filipe iniciou a campanha oficial, recebendo o apoio de ex-presos políticos, ouvindo relatos de vida na cadeia e advertindo contra tentativas de “branquear” as páginas sombrias da ditadura. A fortaleza, hoje museu dedicado à resistência e à liberdade, tornou-se símbolo de uma mensagem que Filipe quer manter na agenda pública: combater a fascistização da história e manter a democracia como um compromisso vivo.
Durante a visita, Filipe destacou que o museu representa uma memória necessária para as novas gerações entenderem o que foi o fascismo em Portugal, bem como a importância de defender a Constituição que dele emanou. Ele citou especificamente uma abaixo-assinado entregue no interior da fortaleza, com o apoio de 159 ex-presos políticos, e contou com depoimentos de quem viveu de perto a repressão do regime do Estado Novo. Entre eles, Ana Abel, de 79 anos, que recordou a luta pela democracia e o apoio expressivo à candidatura: “venho aqui transmitir o encorajamento de quem viveu na pele a repressão, para que os valores da liberdade não se percam.”
Os relatos ali presentes foram reforçados por testemunhos de antigos prisioneiros, entre eles José Marcelino, 86, que recordou as longas semanas sem ver o mar e a trajetória de resistência contra a propaganda de branquear o fascismo. Já Eugénio Ruivo, 72, contou sobre as várias vezes que enfrentou a cadeia por lutar pela educação, pela liberdade e contra a censura, deixando claro que a memória coletiva não pode ficar apenas nos livros, mas precisa ser lembrada pelas novas gerações.
No resumo de Filipe, a visita à antiga prisão não constitui uma aposta de fação, mas uma forma de homenagear quem lutou pela democracia. “Não pretendo esconder a minha origem política; sinto orgulho nela, mas acredito que o papel do Presidente da República é cumprir a Constituição, não ser uma peça de apoio a uma qualquer corrente partidária”, afirmou. Para ele, lutar pela democracia não é uma estratégia de bastidor, e sim um compromisso que precisa estar presente em todos os democratas, especialmente quando se chega à eleição de um chefe de Estado.
Ao fim do dia, ficou a mensagem de que os tempos são desafiadores e que a defesa dos valores democráticos deve ser a base de qualquer mudança. Filipe reforçou que o seu objetivo é unir a população em torno de um futuro que preserve a Constituição, o direito de se expressar e a liberdade de escolha, sem abrir mão de critérios de justiça social. E, no seu entender, a resistência antifascista é a bússola que orienta essa caminhada, independentemente da posição partidária de cada um.