Delcy Rodríguez, a poderosa sucessora de Maduro na Venezuela que os EUA esperam que tome “decisões corretas”
Após a captura de Nicolás Maduro pelas forças norte-americanas, o Superior Tribunal de Justiça determinou que Rodríguez assuma o comando do país diante da “ausência forçada” do líder. O cenário provoca reacendimentos diplomáticos e um jogo de expectativas entre Washington, Brasília e aliados regionais.
A tarde de um sábado agitado trouxe uma reviravolta que ninguém imaginava. Em meio à operação militar que prendeu Nicolás Maduro nos Estados Unidos, o tribunal venezuelano confirmou que Delcy Rodríguez, já à frente de várias frentes do governo, assume a chefia do Estado diante da **ausência forçada** do presidente. A decisão, assinada pela presidente da Sala Constitucional, Tania D’Amelio, sustenta que a Constituição confere à vice-presidência a função de substituir o presidente em casos de ausência temporária ou definitiva. Em tom duro, a magistrada qualificou a operação dos EUA como um “sequestro” e uma agressão estrangeira.
Logo após o anúncio do tribunal, Rodríguez subiu à tribuna em rede nacional para defender a Venezuela. Em discurso transmitido pelo rádio e pela televisão, ela afirmou que “o que está sendo feito com o país é uma barbaridade” e classificou a captura de Maduro como um ato ilegal e ilegítimo. Pedindo união, pediu aos venezuelanos que não se ajoelhem diante de bloqueios que, na prática, tentam impor a vontade internacional sobre o povo venezuelano. No dia a dia, ela deixou claro que precisa manter a defesa da soberania e a ordem constitucional em meio à tormenta externa.
Enquanto isso, as declarações de Washington ressaltavam uma linha de negociação. Em coletivas, o presidente Donald Trump insinuou que Rodríguez poderia liderar o governo na transição, desde que alinhada aos interesses dos EUA na recuperação da Venezuela. “Ela não tem alternativa”, repetiu o tom do líder americano, insinuando que a nova cúpula precisaria acatar exigências de Washington para manter o país estável. No entanto, Rodríguez manteve sua posição de considerar Maduro como o único presidente legítimo e denunciou a captura como sequestro, reafirmando que a Venezuela não se entrega nem se entrega a ninguém.
No tabuleiro regional, fontes próximas ao Palácio do Planalto avaliam que ainda há espaço para uma espécie de negociação entre Rodríguez e os EUA. Segundo relatos, se as autoridades presididas por ela não aceitarem determinadas condições, a situação interna pode se complicar. O Brasil, segundo uma linha de análise corrente, reconhece em Rodríguez uma interlocutora hábil, conectada ao empresariado e com laços diplomáticos astutos. Há quem veja nessa figura uma ponte de diálogo com Washington, mas também com interesses de energia que interessam ao Brasil.
Quem é Delcy Rodríguez, então, para chegar a esse patamar de poder? Dentre os traços mais citados está uma linhagem política de esquerda. Filha de Jorge Antonio Rodríguez, guerrilheiro da década de 1960 que morreu sob custódia policial em 1976, Delcy cresceu cercada pela história dolorosa de perseguições e torturas. A própria experiência da família moldou sua decisão de ingressar no Direito, curso que concluiu na Universidade Central da Venezuela e que aprofundou com estudos de Direito Trabalhista e Sindical na França. Em suas palavras, a justificativa foi “fazer justiça” no caso do pai e buscar um caminho de atuação pública mais efetiva.
A trajetória de Rodríguez se confunde com a da revolução bolivariana. Iniciou a escalada durante o governo de Hugo Chávez, ocupando por alguns meses o Ministério do Despacho da Presidência, antes de ganhar espaço sob Nicolás Maduro. Ao longo dos anos, acumulou cargos sensíveis: ministra da Comunicação e Informação, ministra da Economia e, em outra frente, chanceler. Mais recentemente, assumiu a posição de vice-presidente executiva e ao mesmo tempo ficou responsável pelo Ministério do Petróleo. Foi a primeira presidente da Assembleia Nacional Constituinte, órgão polêmico criado em 2017 com poderes que, na prática, eram vistos como supraconstitucionais. Amigos e analistas a descrevem como um recurso estratégico que o chavismo usa para manter as engrenagens do poder funcionando, tanto interna quanto externamente.
Alguns observadores destacam um traço marcante: Delcy trabalha em parceria com o irmão, Jorge Rodríguez, atualmente à frente da Assembleia Nacional, formando uma espécie de núcleo de coordenação entre várias frentes do governo. Ela é descrita como alguém que tende a ser mais operativa do que teórica — uma combinação que, segundo especialistas, foi essencial para preencher lacunas deixadas pela falta de quadros mais históricos. “São pessoas bem formadas que ocuparam um vazio estratégico”, comenta o cientista político Nícmer Evans, em retrospeções sobre o papel dela no governo.
Na arena internacional, Delcy Rodríguez tem se consolidado como uma figura de diplomacia ágil. Mesmo com Maduro reduzindo suas viagens, ela tem atuado como ponte com aliados como Turquia, China e Irã, e, segundo fontes, mantém contatos com o governo dos EUA desde a gestão de Joe Biden. Em contrapontos diplomáticos, já esteve envolvida em incidentes marcantes, como a tentativa de entrar em uma reunião do Mercosul em Buenos Aires em 2016, quando a Venezuela foi excluída do bloco, e o episódio internacional conhecido como “Delcygate” em 2020, envolvendo uma visita a Madrid que gerou polêmica com autoridades espanholas.
A curva de sanções também compõe o retrato de Rodríguez: a União Europeia e, em 2018, os EUA apontaram sanções contra ela e outros integrantes do governo, o que não a desmobilizou, apenas consolidou a imagem de uma líder que não aceita imposições externas sem contestação. Em tom firme, ela já disse que não se submeterá facilmente a pressões externas, ainda que reconheça que o país precisa equilibrar suas relações com o cenário internacional. Em síntese, Delcy Rodríguez aparece como uma figura capaz de manter operações do governo mesmo em tempos de tensão internacional, ao mesmo tempo em que carrega uma visão clara de soberania e defesa dos interesses venezuelanos.
No fim das contas, o que muda para o cidadão comum? A transição envolve tensões entre respeitar o processo constitucional e responder a pressões de potências externas. A expectativa é que Rodríguez precise lidar com dilemas de política externa, energia, comércio e alianças regionais, sempre buscando manter a estabilidade interna sem abrir mão da visão de independência demonstrada pela Venezuela ao longo dos anos. Ainda que o cenário seja dinâmico, o país parece entrar em um novo capítulo com uma líder que combina profundidade estratégica a uma leitura prática dos contornos do poder.