Flávio diz que foi escolhido por Bolsonaro para disputar Presidência
Escolha do sucessor de Bolsonaro gerou rachas na família do ex-presidente e na oposição; senador diz que o pai lhe deu “missão de dar continuidade ao nosso projeto de nação”
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) comunicou nesta sexta-feira que foi apontado pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), como candidato da família à Presidência da República na eleição de 2026. “É com grande responsabilidade que confirmo a decisão da maior liderança política e moral do Brasil”, afirmou Flávio, citando o relato do pai ao dar a torcida para que ele continue o que chamam de “nosso projeto de nação”.
A confirmação veio por meio de uma nota assinada pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, na qual se lê que o senador “me disse que o nosso capitão confirmou sua pré-candidatura”. E acrescenta: “Então, se Bolsonaro falou, está falado!” No cenário político, o anúncio surge após semanas de desentendimentos entre a família Bolsonaro e a oposição em torno de alianças para 2026 e de quem deve liderar a direita, especialmente com o ex-presidente já preso.
Na prática, o recorte ganhou contornos ainda na semana passada, quando a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro criticou publicamente uma possível aliança entre o PL e o PSDB de Ciro Gomes para disputar o governo do Ceará no próximo ano. Em Fortaleza, durante um evento no domingo (30/11), Michelle dirigido ataques aos dirigentes do PL, incluindo Valdemar Costa Neto e o presidente estadual, André Fernandes, acirrando a crise entre os filhos do ex-presidente e o comando do partido.
Segundo Flávio, porém, o ex-presidente teria dado aval ao PL do Ceará para negociar o apoio a Ciro Gomes. E, após o anúncio da pré-candidatura, Michelle publicou em suas redes sociais uma mensagem desejando “sabedoria, força e graça” a Flávio para a nova etapa.
Em termos de projeções, uma pesquisa AtlasIntel de novembro mostrou que, no primeiro turno, Lula apareceria com 47,3% das intenções de voto, enquanto Flávio ficaria em 23,1%, seguido por governadores de direita como Ronaldo Caiado (10,2%), Ratinho Jr. (7,1%) e Romeu Zema (5%). O levantamento não incluía o nome de Flávio nas alternativas de segundo turno. Já o desempenho variava conforme o recorte populacional: entre os jovens de 16 a 24 anos Flávio ficava à frente de Lula (31,3% contra 23,6%), e entre evangélicos (34,9% contra 27,1%). Em todas as demais categorias — gênero, nível de escolaridade, região e renda familiar — Lula liderava.
O anúncio da pré-candidatura veio cerca de duas semanas depois de Flávio convocar uma vigília em apoio ao pai nas proximidades da residência do ex-presidente. A prática foi citada pelo ministro do STF, Alexandre de Moraes, como um dos motivos que levaram à decretação da prisão de Bolsonaro, que já respondia em regime de prisão domiciliar. Em resposta, Flávio alegou que a decisão do ministro “crime a livre prática da crença” e afirmou que não poderia orar pelo pai nem pedir a um padre para rezar um pai nossos em um carro de som, sob o rótulo de subterfúgio e fuga do Bolsonarismo.
As reações foram distintas. Por um lado, apoiadores próximos elogiaram a escolha. O influenciador Paulo Figueiredo classificou a notícia como excelente, dizendo que a base bolsonarista estaria empolgada. O ator Mário Frias, ex-secretário da Cultura, também exaltou o movimento. Por outro, parte do Centrão manifestou insatisfação: alguns grupos daquela esfera passaram a defender a ideia de manter Tarcísio de Freitas (Republicanos) como candidato, recuando diante da sinalização de que Bolsonaro indicaria Flávio. Em meio a isso, observadores citavam que nomes como União Brasil, PP, Republicanos e PSD poderiam optar pela neutralidade. O presidente do União Brasil, Antonio Rueda, publicou uma mensagem sem citar nomes, destacando que em 2026 não será a polarização o caminho, mas a capacidade de unir forças em torno de um projeto sério.
No cenário econômico, o anúncio trouxe impactos imediatos: o dólar fechou em alta de 2,3% e o Ibovespa recuou, caindo cerca de 4,3%. O economista André Perfeito avaliou que a decisão pode ter “implode” alianças entre centro e direita para 2026 e que o mercado passa a observar se Flávio conseguiria aglutinar esse amplo espectro político. Já o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias, avaliou que a escolha era esperada para a família, afirmando que a candidatura de Tarcísio seria “o beijo da morte” para o núcleo bolsonarista, sustentando que Lula tende a ser reeleito.
No balanço final, analistas veem o movimento como uma subida de tom na estratégia eleitoral da família, ainda que traga incertezas sobre alianças, apoio de partidos e a percepção de mercado. No dia a dia do eleitor, a pergunta que fica é: quem de fato consegue consolidar uma frente capaz de enfrentar Lula em 2026, e quais compromissos políticos emergem com essa construção?