Analista americano aponta que Trump deixa Bolsonaro sem rumo

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Trump está deixando Bolsonaro ‘à deriva’, diz analista americano

O brasilianista Brian Winter, editor da Americas Quarterly, avalia que a decisão de Washington sinaliza avanços no diálogo com o governo Lula

A notícia de que o presidente dos Estados Unidos reconsiderou as sanções impostas sob a Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes é, para muitos observadores, mais que um movimento pontual. Para o brasilianista Brian Winter, editor da Americas Quarterly, trata-se de uma virada importante, um recuo que mostra que a relação entre os dois países pode ganhar novos contornos. Em linhas gerais, a decisão não aparece como um abandono da cooperação com aliados, mas como uma mudança de tom que pode abrir espaço para conversas mais amplas com o governo de Lula. “Hoje é uma confirmação total de que nada parece ter enterrado o diálogo entre Brasília e Washington”, resume Winter. E ele acrescenta que, na prática, o americano costuma recalibrar a estratégia se os resultados não aparecem, o que, segundo ele, explica parte do ajuste recente.

Winter destaca ainda que o giro de posição não significa, de modo algum, um recuo de apoio a aliados da região. Segundo ele, o começo dessa mudança pode ter se dado quando Trump encontrou o presidente brasileiro em Nova York, durante a Assembleia Geral da ONU. O comentário dele soa objetivo: o gesto é, sim, uma forma de demonstrar que Washington continua investindo em parcerias na América Latina, mesmo que com instrumentos diferentes. “Ele quis ajudar um aliado [Jair Bolsonaro], porque é um líder que acredita no direito de apoiar seus parceiros ideológicos na região”, afirma o analista. E, para as reflexões dele, eventos recentes, como a eleição em Honduras e o pleito de outubro na Argentina, vieram a somar à leitura de que a orientação regional está sendo recalibrada.

De acordo com Winter, não se trata de abandonar a ajuda aos aliados, mas de ajustar as prioridades diante das dificuldades domésticas. Um dos exemplos citados pelo analista é a avaliação de que as tarifas sobre produtos brasileiros foram reavaliadas justamente para reduzir impactos na inflação interna – com café e carne no centro das atenções. A ampliação de exceções na lista de produtos isentos de tarifas aponta, segundo ele, para essa leitura prática de combate à inflação. Em paralelo, a decisão de manter em pauta a Lei Magnitsky, ainda que com ressalvas, é interpretada como um sinal de que as conversas com o governo brasileiro sobre outras áreas já estão em curso.

No radar das análises, surge a hipótese de que temas como as terras raras — elementos estratégicos presentes em eletrônicos, turbinas eólicas e veículos — possam ter ganhado relevância nas discussões. O Brasil, de fato, detém reservas consideráveis de minérios deste tipo, o que transforma esse tema em uma fronteira potencial de cooperação. “Utilizar a Magnitsky contra Moraes gerou barulho político nos EUA; a sinalização de que essa via pode ser descartada abre espaço para futuras parcerias entre Brasília e Washington em áreas sensíveis”, aponta Winter. A leitura dele é de que esse movimento não apenas altera a dinâmica entre os dois governos, como também reconfigura expectativas sobre futuros acordos com o governo Lula.

A Lei Magnitsky, institui uma das duras ferramentas de Washington para punir abusos de direitos humanos e corrupção, e Alexandre de Moraes tornou-se a primeira autoridade brasileira a ser alvo dessa lei, em julho passado. Em uma cerimônia de agosto, Moraes comentou a reação do governo americano, destacando que a decisão não deveria atrapalhar o funcionamento do Judiciário. A esposa dele, a advogada Viviane Barci, também teve o nome retirado da lista. De acordo com fontes próximas, a retirada da sanção atende a um pedido direto de Lula, que teria pedido a Trump para rever o caso. E, no desenho político, o momento é visto como um sinal de que a seara de direitos humanos, políticas de segurança e tradeoffs entre valores e interesses estratégicos pode estar se tornando menos litigiosa entre Brasília e Washington.

Neste cenário, o Congresso brasileiro também aparece no centro das engrenagens. Em nota enviada à BBC News Brasil, autoridades norte-americanas sinalizam que a retirada das sanções decorre, entre outros fatores, da aprovação na Câmara de um projeto de lei que reduz penas de condenados por tentativas de golpe, uma medida que pode beneficiar Jair Bolsonaro. A leitura rápida é de um lawfare — termo em inglês que descreve a instrumentalização da lei para fins políticos — em recuo, que, por outro lado, pode abrir espaço para uma convergência maior entre as duas capitais.

Na prática, já havia encaminhamentos. Na quarta-feira anterior, deputados haviam avançado no que ficou conhecido como o projeto de “Dosimetria”, que traz redução das penas relacionadas aos ataques de 8 de janeiro, incluindo o caso envolvendo Bolsonaro. O texto seguiu para o Senado, enquanto, no mesmo dia, o vice-secretário de Estado americano, Christopher Landau, enalteceu a aprovação na Câmara e ressaltou que os Estados Unidos continuam atentos para evitar que questões legais sejam usadas para pressionar o Judiciário ou condicionar a política interna brasileira. “Estamos vendo o início de um caminho para melhorar nossas relações”, escreveu ele, em tom de convite para as etapas seguintes.

Para o leitor comum, o que muda no dia a dia com essa leitura de prioritários? No centro da explicação está a percepção de que os Estados Unidos não abandonaram o diálogo com o Brasil, mas passam a adotar uma abordagem mais pragmática — com ajustes que atendem às necessidades domésticas de inflação, bem como às complexidades políticas regionais. No fim das contas, o que se vê é um recuo pontual de uma decisão partidária para abrir margem a conversas mais amplas, inclusive em áreas de interesse estratégico para Washington e Brasília. E, claro, tudo isso acontece num cenário em que o Brasil permanece com posição de destaque por possuir reservas de minérios cruciais e por seu papel geopolítico na região.

Enquanto o caminho ainda está sendo traçado, o tom do debate indica que as relações entre Brasil e EUA tendem a ganhar capilaridade em áreas que vão da energia às políticas de segurança a partir de um novo eixo de cooperação, que não se limita a sanções pontuais. E para o leitor, a boa notícia pode ser justamente essa: a sinalização de que, mesmo diante de choques políticos e de diferenças ideológicas, é possível manter o intercâmbio aberto, com foco em resultados práticos para a vida cotidiana, para o comércio, para a estabilidade regional e para a democracia brasileira como um todo.

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Jornalista

Carlos Ribeiro

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