Criminalidade no Brasil: Estado oficial e paralelo, diz coord. Lula

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A criminalidade está misturada no Brasil. Temos o Estado oficial e o Estado paralelo’, diz coordenador de campanha de Lula

Wellington Dias, ministro e coordenador político da campanha de Lula, reconhece a sensibilidade do tema de segurança às vésperas das eleições e analisa o crescimento de Flávio Bolsonaro nas pesquisas.

No dia a dia da política, poucos temas soam tão presentes quanto a segurança pública. O ministro Wellington Dias, responsável pela articulação entre o governo e a campanha de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, afirma que o cenário atual mostra um Brasil convivendo com dois tempos: o Estado oficial e o Estado paralelo, especialmente quando o assunto é crime organizado. Em entrevista, ele destaca que o governo tem atuado para avançar em medidas de segurança, embora reconheça que o relógio corre contra a aprovação de propostas como a PEC da Segurança Pública.

Na prática, as ações vêm sendo discutidas em meio a avanços pontuais — entre eles a Lei Antifacção, sancionada recentemente, que ampliou penas para líderes de facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Ainda assim, a tramitação da PEC ainda não foi concluída pelo Congresso, e a percepção pública da segurança continua sendo apontada como uma das principais preocupações do eleitorado, ao lado da saúde. Dias afirma que houve progressos, mas admite que a redução da sensação de insegurança foi modesta até o momento. “Ainda não deu tempo. A melhoria é lenta, mas acredito que até as eleições possamos ver uma evolução”, disse.

A dupla gestão do assunto — entre governança federal e mobilização política — colocará Dias como um dos principais articuladores do eventual quarto mandato de Lula. Com passagem consolidada pelo Piauí, ele aparece como uma das figuras de confiança nos bastidores, encarregado de costurar apoios e palanques que possam ampliar a base da campanha em um cenário de oposição acentuada.

O cenário de pesquisas, de fato, impõe cautela. Conforme o Datafolha, a avaliação negativa do governo Lula supera a positiva. Enquanto 32% classificam o governo como ótimo ou bom, 40% o veem como ruim ou péssimo. Em meio a esse quadro, surge a leitura de que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vem ganhando espaço, elevando o tom da disputa. Em simulações de segundo turno, Lula ainda lidera, mas a diferença caiu de 15 para apenas 3 pontos percentuais entre dezembro de 2025 e março de 2026. E a margem de erro, de dois pontos, mantém o empate técnico sob análise.

Para quem está à frente da campanha, o recado é claro: não há estratégia de subestimar o adversário. “Não subestimamos nenhum candidato”, afirma Dias. Ainda assim, ele confia que o histórico de Lula, somado a uma avaliação positiva de políticas como o programa de combate à pobreza e a geração de empregos, pode favorecer a reeleição. “Em 2026, há uma possibilidade melhor do que em 2022. A conjuntura mudou”, afirma o ministro, ressaltando que as condições econômicas começaram a se estruturar de forma mais estável nos últimos anos.

Entre os temas que costumam mexer com o eleitorado, a influência de fatores externos também aparece na pauta. Dias rechaça qualquer hipótese de interferência de outros países nas eleições brasileiras e reforça a importância da soberania. “Não vamos tolerar interferência de ninguém. O Brasil exige respeito dos outros países. A nossa soberania está em jogo”, afirmou, destacando que a defesa da autonomia nacional segue como prioridade do governo e da campanha.

Falando de políticas públicas, o ministro cita a necessidade de diálogo com diferentes segmentos da sociedade para ampliar a adesão às propostas do governo. Entre eles, jovens, classe média, ruralistas e comunidades evangélicas, que — segundo ele — ainda trazem um conjunto de dúvidas sobre o que o governo realmente oferece. “Temos que dialogar com todos, sem abrir mão de nossos argumentos”, diz. Dias também comenta que o combate à violência não é apenas uma questão de segurança, mas de qualidade de vida: perguntas como “ minha filha pode ir à escola com tranquilidade?” estão no cerne das perguntas que moldam a opinião pública.

Sobre o desempenho econômico, o ministro ressalta que o país conseguiu reduzir a pobreza e manter indicadores favoráveis, mesmo com juros altos. Ele recorda o caminho percorrido para reduzir a inflação e o endividamento, apontando que o programa Desenrola Brasil, lançado no governo anterior, serviu como referência para ações de alívio financeiro em meio a um cenário de juros elevados. “O problema do endividamento tem raízes em fatores como o câmbio, o saldo de pagamentos e o peso de precatórios; ainda assim, o governo busca caminhos para que famílias consigam superar esse aperto”, afirma.

Outro tema sensível é a relação com o eleitorado evangélico. Dias admite que a desaprovação entre esse grupo é expressiva, mas ressalta a importância de manter um diálogo aberto. Segundo ele, há programas de habitação em parceria com entidades religiosas e uma atuação que busca desfazer a ideia de que o governo pretende fechar igrejas ou tributar instituições religiosas. “A estratégia é falar com as lideranças e com a sociedade, fortalecendo ações que cheguem às comunidades”, comenta.

Entre as mudanças propostas, o fim da chamada escala 6×1 aparece como um tema de interesse entre empresários e trabalhadores. Dias afirma que, no Brasil, a necessidade é de ampliar oportunidades, inclusive com jornadas mais flexíveis que acompanhem os avanços tecnológicos. “Não é nada contra o trabalhador; é reconhecer que o mundo mudou e a tecnologia exige ajustes também na organização do tempo de trabalho”, defende.

No campo da segurança, a percepção pública ainda pede resultados mais perceptíveis. Dias reconhece que a redução de crimes ainda não é sentida de forma abrangente, mas aponta para uma trajetória de melhoria gradual, com ações integradas entre União, estados e municípios para reduzir crimes, aumentar a presença policial e melhorar a vigilância contra facções criminosas. “A população quer saber se pode sair à noite, ir à igreja, levar os filhos à escola sem medo. É esse o objetivo que orienta as medidas que estamos discutindo”, reforça.

Por fim, o ministro não deixa de mencionar a importância de manter o foco na construção de um Brasil soberano, estável e com rumo claro. A leitura é simples: equilíbrio entre segurança, economia e dignidade social é o que pode, no fim das contas, consolidar a confiança do eleitor. E, para quem acompanha a narrativa política, esse conjunto de sinais ajuda a entender por que a batalha pela Presidência em 2026 continua tão acirrada, mas também tão centrada em propostas concretas para a vida das pessoas.

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Jornalista

André Santos

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