Caiado sepulta a ideia da terceira via e mira no eleitorado de direita

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Caiado enterra de vez a fantasia da terceira via e mira firme no eleitorado da direita

No campo da esquerda, pela primeira vez desde a redemocratização, Lula se consolida como o único nome na disputa presidencial

Em uma tarde de lançamento simbólico, o ex-governador Ronaldo Caiado, agora filiado ao PSD, confirmou sua pré-candidatura à Presidência em 2026. A visita à sede do partido em São Paulo, cercada pela mulher, pelos filhos, pelo presidente da legenda, Gilberto Kassab, e alguns filiados, cristalizou a aposta de que a direita enfrenta uma fragmentação que pode favorecer o eleitor antipetista, mesmo com uma base de apoio relativamente estreita.

O desafio não é pequeno. Caiado começa com cerca de 4% nas pesquisas nacionais, quando o campo de direita já está repleto de nomes. Além dele, existem outros quatro potenciais candidatos de direita que disputam a preferência do eleitorado: Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e o ex-ministro Aldo Rebelo (DC). Juntos, eles somam uma parte modesta do eleitorado, mas suficientes para complicar a rota de quem tentar unificar esse espaço desde o primeiro turno. Essa diversidade é, ao mesmo tempo, uma oportunidade de ampliar o alcance da direita no curto prazo e um risco de diluição de votos, caso a coordenação falhe.

  • Flávio Bolsonaro continua à frente nas pesquisas, puxado pela base do pai e ex-presidente.
  • Romeu Zema é visto como uma alternativa liberal e empresarial, com potencial de atrair parte do eleitorado que busca uma agenda econômica mais agressiva.
  • Renan Santos aparece como voz ultraliberalista, explorando o carisma das redes para ganhar musculatura política.
  • Aldo Rebelo surge como uma opção independente dentro do espectro conservador, tentando ocupar espaço na lanterna da disputa.

Nos bastidores, Kassab avaliou diversas trajetórias antes de optar por Caiado, destacando o desempenho dele nas pesquisas como o principal critério de escolha. A aproximação com o bolsonarismo não é novidade para Caiado: o senador participou de manifestações do ex-presidente nos últimos anos, e, no anúncio, já sinalizou a intenção de conceder indulto para liberar Bolsonaro e condenados pelos episódios de 8 de janeiro de 2023. No dia a dia, o PSD passa a se posicionar num terreno que, historicamente, não era de domínio absoluto da direita mais radical, tentando ocupar espaço onde o bolsonarismo tem maior influência.

Para entender o cenário, é útil olhar a composição da direita de 2026: Caiado, Zema, Renan e Aldo representam, juntos, uma fatia de apenas 10% das intenções de voto no primeiro turno. Esse achado que pareceria simples mostra, na prática, como a fragmentação pode afetar o equilíbrio. Segundo analistas como Murilo Medeiros, cientista político da UnB, a unidade entre esses nomes pode depender de uma leitura comum sobre ordem, crítica ao sistema e promessas de mudança pautadas em valores. Caso haja coordenação, a direita pode ampliar seu alcance; caso contrário, a tendência é que a competição predatória entre essas forças favoreça o crescimento do antipetismo representado por Lula ao longo do pleito.

Enquanto isso, do lado esquerdo, Lula consolida-se cada vez mais como o único nome viável no campo progressista. A lógica, segundo especialistas, está na forma como as alianças foram estruturadas ao longo dos anos e na postura do presidente, que, em geral, evita ocupar o espaço de outras lideranças da esquerda. Esse monopólio, aliado à promessa de manter o antipetismo em pauta, cria uma vantagem teórica para Lula, mas também abre espaço para que rivais de esquerda encontrem lacunas a explorar caso haja falhas na condução da economia e da agenda social do governo.

No fim das contas, o primeiro turno tende a se configurar, para a direita, como uma grande primária informal, com um campo que pode tanto convergir quanto se dispersar. A observação de especialistas aponta para dois caminhos: se a oposição conseguir coordenação, a pluralidade pode ampliar o eleitorado; se não houver alinhamento, o próprio congestionamento de candidaturas pode entregar vantagem a Lula. A pergunta prática para o eleitor comum é simples: qual versão da mudança ele confia para lidar com as demandas do dia a dia?

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Jornalista

Lucas Almeida

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