Programas sociais turbinados e isenção do IR: os bilhões que Lula vai injetar na economia em ano eleitoral
Medidas devem aquecer a economia e pressionar inflação e juros, mas forte polarização deve limitar impacto eleitoral, avaliam especialistas.
Em meio a uma corrida presidencial disputada, o governo aposta em um conjunto de ações para elevar o poder de compra dos brasileiros, estimular o consumo e manter a economia aquecida. No centro desse movimento estão políticas como o Gás do Povo e o Luz do Povo, além de mudanças tributárias que afetam diretamente a renda de famílias de diferentes faixas. No dia a dia, a ideia é ver o dinheiro circulando mais rápido, mesmo diante de um cenário internacional complexo, com a guerra envolvendo Estados Unidos e Irã e os impactos no preço de combustíveis e de commodities.
Entre as mudanças divulgadas, destacam-se alterações no Imposto de Renda que afetam principalmente a classe média. A isenção do IR passa a alcançar quem ganha até R$ 5 mil mensais, enquanto a redução de alíquota vale para quem tem renda de até R$ 7.350. A medida começou a valer já em janeiro e promete reduzir a arrecadação em faixa entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões, segundo projeções de instituições financeiras. Ao todo, a previsão é beneficiar aproximadamente 15 milhões de pessoas, em uma cena descrita pelo governo como um “quarto salário”.
Não menos relevante, os programas Gás do Povo e Luz do Povo devem somar, neste ano, um alívio de R$ 15,5 bilhões no bolso de famílias de baixa renda, sinalizando um crescimento de R$ 3,6 bilhões ante 2025. O Gás do Povo dobrou o alcance de famílias atendidas, que passou de 4,5 milhões para 15 milhões, com direito a recargas anuais que variam entre 4 e 6 botijões, conforme o tamanho da casa. Já o Luz do Povo deve levar o benefício de energia para 20,9 milhões de residências, aumentando a cobertura em relação a 2025. Quem ganha até meio salário mínimo por pessoa e consome até 80 kWh por mês pode ficar com a conta gratuita; para quem recebe até um salário mínimo e consome até 120 kWh, o desconto fica abaixo de 12%. No conjunto, os dois programas aparecem como bandeiras do governo na área social.
Além disso, medidas para facilitar o acesso a crédito foram antecipadas ao longo de 2025 e devem seguir impactando 2026. A novidade com maior potencial de recurso é o Crédito do Trabalhador, linha de crédito consignado que permite que trabalhadores formais utilizem até 10% do saldo do FGTS como garantia. Com isso, o risco de inadimplência cai e os juros cobrados tendem a diminuir. Em 2026, a expectativa é de que o volume de novas operações atinja cerca de R$ 134 bilhões, segundo a ARX Investimentos, com apoio de dados do Ministério do Trabalho e Emprego. Em 16 de março, já haviam sido concedidos R$ 26 bilhões em novos empréstimos, equivalente a quase a metade de todo o valor liberado em 2025 (R$ 53 bilhões).
Na prática, economistas ouvidos pela avaliação do mercado entendem a estratégia como uma abordagem de “dividendo político-eleitoral” que atua em várias frentes: além de beneficiar o consumidor, fortalece a atividade econômica por meio do crédito, mantendo o nível de demanda alto na aproximação das eleições. “É uma tática que busca o equilíbrio entre benefícios sociais e estímulo ao crédito”, afirma o economista-chefe da ARX Investimentos, Gabriel Leal de Barros.
Do ponto de vista econômico, porém, a reportagem aponta para um custo maior de política monetária. O ambiente de maior consumo agregado, aliado a uma economia que já opera perto do pleno emprego, aumenta a pressão inflacionária e, por consequência, o custo da dívida pública. O Banco Central já viveu um ciclo de aperto de juros: a Selic subiu de 10,5% ao ano em julho de 2024 para 15% ao ano em junho de 2025, mantendo-se elevado mesmo após um pequeno recuo para 14,75% na última reunião do Copom. A leitura entre economistas é de que esse ambiente de altas taxas, em conjunto com o aumento de gastos, tende a sustentar o custo da dívida pública, elevando o peso do serviço da dívida no orçamento.
Essa visão não é unânime. Outros economistas argumentam que parte da explicação para a dívida elevada está ligada a metas de inflação fixadas pelo CMN. Em termos de política, o que se discute é equilíbrio entre manter juros que controlem a inflação e estimular o crescimento, sem que haja atraso na consolidação orçamentária. A meta de inflação para 2026 é apontada como 3%, com margem de tolerância de até 4,5%, enquanto o IPCA indicou 3,81% de alta em 12 meses até fevereiro. Ainda assim, o Boletim Focus projeta que o índice encerre 2016 acima de 4%, sinalizando turbulência nas previsões de curto prazo.
Entre as estratégias de estímulo ao setor da construção e da habitação, o Minha Casa Minha Vida (MCMV) volta a ganhar fôlego. O programa, apontado como um dos de maior aprovação entre as políticas públicas, recebeu reforço orçamentário em 2025 e terá continuidade em 2026. O objetivo é chegar a 3 milhões de unidades até o fim de 2026, frente a 1,9 milhão contratadas desde 2023. O orçamento somado já ultrapassa R$ 300 bilhões, com investimentos públicos que prometem manter a expansão no setor. No âmbito de ajuste de renda, o governo ampliou as faixas de renda atendidas pelas quatro modalidades do MCMV, elevando o teto de renda de R$ 12 mil para R$ 13 mil mensais e o valor máximo do imóvel financiável de R$ 500 mil para R$ 600 mil. Quem pode se beneficiar também passa a contemplar uma nova faixa de renda no fim de março, ampliando a cobertura de famílias de maior renda. A previsão da ARX Investimentos é que apenas essas duas medidas façam movimentar R$ 46 bilhões neste ano, ante R$ 8 bilhões em 2025.
Complementando, o ritmo de crédito também vem do lado do BNDES, com expansão expressiva de operações. Em 2025 foram registradas R$ 169,7 bilhões em empréstimos, alta de 27% frente a 2024 e de 74% ante 2022. A projeção para 2026 é superar R$ 200 bilhões liberados, fortalecendo o tom de continuidade do investimento público. “Isso ajuda o governo eleitoralmente, porque gera emprego e renda, e mantém o PIB resiliente”, comenta Gabriel de Barros, da ARX.
Por outro lado, o lado fiscal não fica sem críticas. A expansão de consumo e crédito já coloca pressão sobre inflação e juros, e o aumento da dívida pública é observado com cautela por parte de economistas. “Quando o consumo cresce numa economia já com pleno emprego, a recuperação pode vir acompanhada de inflação, exigindo juros maiores e ampliando o peso da dívida no orçamento”, aponta Samuel Pessoa, pesquisador da FGV e do BTG Pactual. Em contrapartida, especialistas como Nelson Marconi, da FGV Eaesp, lembram que o problema da dívida está relacionado a metas de inflação, e que juros altos acabam aplainando o caminho para o crescimento, num ambiente de metas que não é simples de negociar.
No campo político, analistas observam que a polarização entre lulismo e bolsonarismo pode reduzir o impacto eleitoral direto dessas medidas. Pesquisas de opinião apontam que, se a eleição fosse hoje, Lula e Flávio Bolsonaro estariam empatados em um provável segundo turno, com variações por faixa de renda. Uma leitura comum é de que, apesar de avanços para a classe média e de benefícios para os mais pobres, o peso da economia na decisão do voto vem sendo ampliado pela contestação política, o que desafia a traduzir políticas públicas em vitória eleitoral de curto prazo.
No campo dos benefícios sociais em si, o movimento de 2024 para 2025 já mostrou evolução. O Bolsa Família, que ganhou o status de Auxílio Brasil durante a gestão anterior, manteve o valor mínimo de R$ 600 por família, embora com redução no número de beneficiários. Em 2025, o total transferido ficou próximo de R$ 160 bilhões, ante R$ 170 bilhões em 2024, mantendo previsões estáveis para 2026. O programa Pé de Meia, criado em 2024, continua com orçamento de R$ 12 bilhões por ano, direcionado a estudantes de ensino médio de famílias carentes, como uma forma de evitar abandono escolar. A promessa de universalizar esse benefício para todos os estudantes da rede pública ficou sem previsão de cumprimento neste momento, principalmente por questões orçamentárias. O Ministério da Educação confirmou que o orçamento anual permanece em R$ 12 bilhões, enquanto o ministro da pasta, em declarações anteriores, indicou que a universalização exigiria recursos adicionais significativos.
Em síntese, as medidas anunciadas trazem um conjunto amplo de ações que buscam aquecer a economia neste ano eleitoral, com foco em consumo, crédito e habitação. No entanto, a combinação entre pressão inflacionária, juros em patamar elevado e a volatilidade política amplia a dúvida sobre o efeito prático dessas políticas no curto prazo. No fim das contas, leitores comuns vão sentir o impacto no orçamento familiar, na disponibilidade de crédito e nas oportunidades de moradia, enquanto o cenário macroeconômico segue desafiador e dependente de desdobramentos regionais internacionais.