Crítica | Tojima Wants To Be a Kamen Rider
Animê com fortes inspirações em tokusatsu é um dos mais divertidos e aleatórios da última temporada.
A cada temporada, surgem opções que parecem atravessar gêneros e gostos, desafiando expectativas. Nesta leva, Tojima Wants To Be a Kamen Rider se destaca ao combinar caos, humor constrangedor e uma dose bem-amarrada de realismo fantástico. São 24 episódios, distribuídos em dois cours, que entregam um caldo único: quando o humor acerta o tom, a experiência rende boas risadas e muita diversão — mesmo que o humor nem sempre esteja no lugar certo.
Não se trata de apenas revisitar o tokusatsu pela nostalgia. Tojima Tanzaburo é um homem de 40 anos que, assim como muitos de nós, guardou na memória a infância diante da TV e as passadas de luta do herói. Diante de uma vida que não parece ter grande chama, ele encontra motivação para se transformar… em um Kamen Rider. Essa virada gera uma perspectiva diferente sobre como histórias com heróis podem nascer da crise existencial da vida adulta.
Essa abordagem reflete uma tendência recente nos animes: em vez de focar apenas no jovem shonen, vemos protagonistas adultos repensando seus caminhos. O paralelo com títulos como Kaiju Nº 8 é evidente: é o público de poucas décadas que se identifica com a ideia de recomeçar a partir de uma paixão antiga, de uma forma que dialoga com a realidade do dia a dia.
Mas a força de Tojima Wants To Be a Kamen Rider não está apenas no protagonista. A obra se abre para várias frentes narrativas, permitindo que Tanzaburo apareça em momentos-chave, mesmo quando não está em cena. Entre os destaques, surge Yuriko Okada, professora que quer ser Tackle, a Humanoide de Onda Eletrônica, e vive um conflito entre o segredo da fantasia e a vida escolar. Já Ichiyo Shimamura se transforma no Kamen Rider V3 e Mitsuba Shimamura assume o papel de Riderman, compondo uma equipe improvável, mas que funciona pela química entre eles.
Essa construção de elenco não pode ser subestimada. Para fãs da franquia, as referências aparecem a cada passo — trilha sonora que evoca o espírito original, e até recriações animadas de cenas da série histórica de 1971 e de temporadas posteriores. Entretanto, até quem conhece a saga apenas pelo nome consegue acompanhar a narrativa: é possível reconhecer o afeto pelos heróis de infância e entender por que esse amor impulsiona cada decisão dos personagens.
No dia a dia da história, o que vemos é uma mistura de treinamentos, batalhas e dilemas reais que permeiam a trama. Em tela, o conceito de “adultos vestindo fantasias” se mistura com vilões da organização Shocker que parecem estar mais próximos da vida cotidiana do que de ficção, oferecendo lutas que são ao mesmo tempo físicas e simbólicas. Além da ação, o humor às vezes beira o nonsense — como aquele momento em que uma galinha intervém em um treino — e há até um toque de romance que, de vez em quando, te faz questionar o que está assistindo. Ainda assim, a história de Yokusaru Shibata transborda emoção, temperada com nostalgia que dá sabor extra ao conjunto.
“Topar enfrentar um urso?” não é apenas uma piada; é a metáfora da persistência do protagonista. Em meio ao caos do dia a dia, Tojima continua se levantando para enfrentar cada novo desafio, mantendo a esperança viva em um tom que lembra os grandes atos de bravura do cinema de tokusatsu. A cada episódio, o enredo parece lembrar que, por trás das máscaras, existem pessoas com desejos, quedas e certezas que ajudam a compor uma experiência que cativa.
Por outro lado, há um ponto a observar com atenção: mesmo com grandes motivações, as protagonistas femininas ganham espaço e carisma, mas o traço de algumas cenas às vezes tende a um fetichismo visual que não conversa com o restante da narrativa. Em particular, Yuriko é retratada em poses que destacam o corpo de forma ostensiva, e certos enquadramentos parecem destoar do tom que a série quer estabelecer. Não chega a comprometer a experiência, mas é um cuidado que o anime poderia evitar para fortalecer a coesão da história.
Entre risos, situações embaraçosas e parcerias que vão se fortalecendo, Tojima Wants To Be a Kamen Rider se firma como uma surpresa interessante no cenário recente dos animes. Não é uma produção para assistir repetidamente — a primeira rodada pode bastar —, mas quem abrir o coração, com dose de curiosidade e boa vontade, pode encontrar uma jornada singular e, no fim das contas, prazerosa.
A temporada completa, com 24 episódios, está disponível na Crunchyroll, com opções dublada e legendada. O texto apresentado é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião do portal.