Prévia da inflação acende alerta: qual o espaço para mais cortes de juros no ano?
Impulsionado pelo preço de passagens aéreas e alimentos, o avanço da prévia da inflação pressiona o Banco Central e pode reduzir o ritmo de quedas da taxa Selic ainda neste ano
O IPCA-15, que funciona como a prévia da inflação, já sinaliza que o conflito no Oriente Médio deve pressionar os preços ao longo deste ano. Na prática, esse cenário restringe o espaço do Banco Central para manter o ciclo de cortes da taxa Selic, hoje em 14,75%, segundo avaliações de economistas. O dado de março indicou inflação de 0,44%, acima da expectativa de 0,29%; em fevereiro, o indicador tinha ficado em 0,84%. No acumulado de 12 meses, o IPCA chega a 3,90%, reforçando a pressão para ajustes futuros.
Além disso, o Relatório de Política Monetária divulgado na quinta-feira aponta para uma aceleração da inflação a partir do segundo trimestre. A projeção de inflação para o fim de 2026 foi elevada de 3,5% para 3,9%, ou seja, ainda bem distante da meta de 3,0%. No dia a dia, isso significa mais difícil para o BC manter a rota de cortes tão vigorosa quanto se imaginava há pouco tempo.
Altas no IPCA-15: alimentação e passagens aéreas dominam as altas em março. Conforme dados do IBGE, todos os nove grupos apresentaram alta no mês, com destaque para o aumento nas passagens e nos alimentos. O economista Alexandre Maluf, da XP, lembra que a coleta de dados ocorreu antes do início da guerra, mas já apontava uma alta de cerca de 5% nas passagens aéreas, o que explica boa parte do desvio observado frente ao que era esperado. “Esse dado reflete uma inflação do passado, de quando a guerra começou a impactar o diesel”, comenta. Ele acrescenta que, embora os números tenham ficado alinhados com a projeção, há uma pressão relevante para o IPCA fechado de março, já que o IPCA-15 capta variações entre o dia 15 do mês anterior e o dia 15 do mês do levantamento. Em relação ao mês, Maluf projeta gasolina entre 3% e 4%, o que coloca o conjunto da inflação em patamar elevado. Quanto aos alimentos, o avanço também puxou o índice, com itens in natura em alta e, em especial, a variação de 20% no preço do feijão carioca, contribuindo para o avanço de 1,1% da alimentação em domicílio, segundo o economista.
Baixas no IPCA-15: serviços subjacentes e industriais. Natalie Victal, chefe do setor econômico da SulAmérica Investimentos, aponta que as medidas subjacentes de serviços vieram mais fracas e o setor industrial teve resultado ligeiramente melhor. Isso sugere que o quadro da inflação, do ponto de vista qualitativo, ficou um pouco menos desfavorável do que o índice cheio indica, embora ainda não tenha sido afetado pela pressão da guerra.
Projeção de inflação em alta. Na visão da XP, a inflação para março pode ficar em torno de 0,70%, ante 0,30% antes do início do conflito. Para o ASA, a inflação de 2026 fica estimada em 4,4%, com a pressão adicional derivada de alimentos e combustíveis. Além disso, a média móvel de inflação mostra estabilidade nos últimos três meses no núcleo de serviços, que permanece acima do teto do regime de metas (4,5%). “Sem desaceleração adicional desse grupo, chegar à meta de 3% fica mais desafiador”, avalia Leonardo Costa, da ASA.
Corte de juros. Segundo Maluf, o IPCA-15 ainda não muda o plano de voo do Copom. A próxima reunião, em fins de abril, deve manter o ritmo de cortes de 0,25 ponto percentual, levando a Selic a 14,50%. “Continuar cortando no curto prazo é provável, embora os dados tragam incerteza sobre até quando e quanto será possível reduzir”, diz. Para a XP, a previsão é de um fechamento do ano em torno de 12,75%.
José Faria Júnior, sócio da Wagner Investimentos, ressalta que os números do IPCA-15 e o Relatório de Política Monetária não deixam muito espaço para cortes significativos. “A nossa visão é de que o Copom pode reduzir o ritmo de quedas e, eventualmente, pausar o movimento”, aponta. Ele estima que os próximos dois encontros devem trazer cortes mais moderados, mantendo a possibilidade de pausa caso a guerra não encontre solução. Já para Leonardo Costa, do ASA, a deterioração do quadro inflacionário de curto prazo e a resistência do núcleo de inflação devem limitar o espaço para cortes adicionais. Natalie Victal reforça uma perspectiva desafiadora, mantendo a leitura de um cenário com taxa terminal em torno de 13%.
- IPCA-15 aponta pressão de preços com alta em passagens aéreas e alimentos
- Projeção para 2026 sobe para 3,9% e se distancia da meta de 3,0%
- Copom deve manter cortes de 0,25 p.p. até novas informações sobre o conflito