Paulo Kliass: Copom sabota Lula?
Política econômica só piora
Nos dois primeiros anos do atual mandato, o presidente enfrentou controvérsias explícitas com o Banco Central, especialmente com o então presidente Roberto Campos Neto. Chamava o dirigente de infiltrado do bolsonarismo no coração do governo, em meio a críticas recorrentes sobre a independência do BC, que ganhou respaldo com a Lei Complementar nº 179/2021, assegurando mandatos fixos aos diretores. Assim, Lula iniciou 2023 convivendo com a maioria dos oito ou nove membros indicados pelo adversário eleitoral, incluindo o Comitê de Política Monetária (COPOM).
Durante o período em que o então presidente do BC permaneceu à frente das decisões regulatórias, o Brasil viveu uma contenção econômica provocada pela pandemia de covid-19, o que ajudou a manter a SELIC em patamares relativamente baixos entre 2019 e 2021. Contudo, a partir de 2022, o COPOM retomou uma trajetória de alta, e a expectativa de que, ao fim do mandato de Campos Neto, houvesse um recuo substancial das taxas ganhou força entre parte da população. A ideia era que a posse de alguém nomeado por Lula pudesse marcar uma inflexão na condução da política monetária.
Em meio a esse cenário, o nome de Gabriel Galípolo, então diretor de Política Monetária do BC, foi visto como a oportunidade de sinalizar uma nova etapa para o Banco Central. Em 30 de dezembro de 2024, o Chefe do Executivo assinou o Decreto que o nomeou para a presidência do BC, após sabatina e aprovação pelo Senado. A expectativa do governo era de maior autonomia, e Lula chegou a publicamente exaltá-lo como o administrador capaz de transformar a relação entre política monetária e desenvolvimento.
No entanto, a narrativa pública começou a mudar com o tempo. Ainda em 2024, antes da posse de Galípolo, o PT já se manifestava de modo contundente sobre o papel do BC, descrevendo a autarquia como uma esfera de sabotagem institucional — uma espécie de “bunker” para a minimização de ajustes necessários. Em outras palavras, osbolsonaristas teriam deixado um cenário difícil para quem passaria a dirigir a política monetária, alimentando uma linha crítica das próprias bases de apoio ao governo.
Logo no período de transição, o tom de Lula já mostrava sua expectativa de mudança de rumo. Em junho de 2024, com a SELIC em torno de 10,5%, o presidente externou a opinião de que o comportamento do BC não correspondia à autonomia que o momento exigia, afirmando que havia uma desarmonia entre o que se esperava da direção da política monetária e a realidade das taxas.
Com a entrada de Galípolo, a leitura inicial não se confirmou. Ao contrário, a prática mostrou uma escalada da taxa de juros, agravando o aperto monetário. Em vez de recuar, a SELIC seguiu subindo e, ao longo de 2025, houve um ciclo de decisões que surpreendeu quem aguardava movimentos mais lânguos. Na prática, de janeiro de 2025 a março de 2026, o COPOM promoveu quatro aumentos da taxa, levando-a de 13,25% até 15%, seguido por cinco reuniões em que a taxa ficou estável em 15%, até o momento em que houve um recuo simbólico de 0,25 ponto percentual.
Os números falam por si: segundo levantamentos, o Brasil permanece com um dos mais altos juros reais do mundo, ocupando posição de destaque ao lado da Turquia, que encabeça o ranking. Esse cenário põe em evidência um debate: juros elevados tendem a favorecer o circuito financeiro, em detrimento do investimento no chamado setor real da economia. No dia a dia, isso se traduz em custos maiores para o Tesouro, que, em doze meses, gastou mais de R$ 1 trilhão apenas com encargos da dívida pública, um choque para qualquer planejamento de crescimento sustentável.
Nesta leitura, fica evidente que o COPOM continua sob uma operação que parece, para muitos, sabotadora da condução pretendida pelo governo. A expectativa de que Galípolo representaria uma mudança de marcha ficou, na prática, localizada em promessas e discurso de autônoma, sem ainda traduzir uma redução consistente da SELIC. E, enquanto Lula observa esse desfecho, o desafio é claro: reconfigurar prioridades para que o crédito barato favoreça o setor produtivo, sem arrastar a dívida pública a patamares incompatíveis com o crescimento.
Além disso, o debate sobre o rumo da política econômica ganhou novos contornos com a possível recomposição do Ministério da Fazenda, sinalizando que o governo pode buscar perfis mais alinhados ao conservadorismo e ao que hoje se chama de liberalismo econômico. Resta saber, no fim das contas, se esse movimento ajudará ou atrapalhará o objetivo de reduzir o aperto monetário de forma responsável, equilibrando inflação, crescimento e distribuição de renda.
Paulo Kliass é doutor em economia e atua na área de políticas públicas. O momento recente sugere que vale acompanhar com atenção não apenas as decisões do COPOM, mas também a leitura que o câmbio, o crédito e o orçamento fazem daquilo que chamamos de prioridade econômica para o país. Afinal, no jogo entre juros e desenvolvimento, cada decisão custa caro para quem vive no cotidiano das famílias brasileiras.