Socialistas insatisfeitos com a ida de Carneiro à Venezuela

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Socialistas incomodados com ida de Carneiro à Venezuela

A ida do líder do PS a Caracas gerou desconforto interno. Assis distancia-se, Temido fala em eventual “tiro no pé” e outros socialistas questionam a oportunidade política da deslocação.

No fim de semana, a viagem de José Luís Carneiro, secretário-geral do PS, para Caracas colocou o tema Venezuela no centro de um debate agudo dentro do partido. A deslocação, organizada pelo departamento das comunidades do PS e acompanhada por Paulo Pisco e pelo líder parlamentar Eurico Brilhante Dias, deixou vários socialistas com ressalvas: o movimento poderia confundir a posição oficial do PS face ao regime venezuelano num momento particularmente sensível.

Entre as sinas de desconforto, destacou-se o receio de que a passagem de Carneiro pudesse conferir legitimidade a Delcy Rodríguez, figura de continuidade do poder chavista e ao mesmo tempo aliada estratégica dos Estados Unidos após o ataque militar norte-americano à Venezuela e a detenção de Nicolás Maduro em janeiro — operação que o PS já tinha condenado na altura.

Francisco Assis, secretário nacional para as Relações Internacionais, respondeu por escrito ao Observador, aclarando que não acompanhou a visita em pormenor e que mantém distância da atual força em Caracas. “A minha posição sobre o regime venezuelano não se alterou. É exatamente a mesma que me levou a elaborar e votar várias resoluções no Parlamento Europeu, condenando um regime autoritário que desrespeita princípios democráticos”, escreveu, referindo-se à deslocação de Carneiro. Sobre a falta de informação, Assis disse que a organização coube ao departamento das comunidades do PS, dirigido por Paulo Pisco, que também integrou a comitiva ao lado do líder parlamentar Eurico Brilhante Dias.

Chegou a haver a expectativa de uma reunião entre Carneiro e a presidente interina Delcy Rodríguez, mas a agenda pública não contemplava esse encontro. A reunião apareceu apenas no sábado, quando o líder socialista já se encontrava em Caracas, e acabou por ser adiada por um “imprevisto de última hora” da Presidente interina. Mesmo assim, Carneiro manteve contato com outros elementos da equipa de Delcy, nomeadamente com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Yván Gil, núcleo central do Governo de Maduro.

À margem, Assis desalinhou-se de parte dos socialistas na Venezuela: “Nem hesitei. Era um imperativo de consciência”, afirmou, deixando claro que não confunde o regime com o povo venezuelano. Em paralelo, o eurodeputado reiterou a posição europeia contrária a legitimidades que desrespeitam princípios democráticos. E recordou que, em 2024, entrou em linha com a posição de reconhecer Edmundo González Urrutia como presidente legítimo da Venezuela, uma leitura diferente da que recai sobre Maduro.

Do lado de dentro do PS, Marta Temido avalia com reserva o impacto da visita. Em declarações ao Observador, a eurodeputada destacou a falta de dados para uma leitura firme e advertiu que, se a ação não se resumisse apenas a “mostrar empenho máximo junto da comunidade portuguesa, então pode ter sido um tiro no pé” — dizendo, de forma enfática, que não se pode deixar transparecer uma leitura de legitimação de um governo escolhido externamente.

Outros socialistas, no dia seguinte, fizeram eco dessas dúvidas. Um deputado sugeriu que, com uma avaliação política mais apurada, seria possível perceber que não era o momento. Outro comentou a tendência de a deslocação suscitar interpretações diversas, enquanto a União Europeia manteve duas notas que, no fim das contas, não reconhecem a legitimidade democrática de Maduro nem da presidência interina de Delcy Rodríguez. Em paralelo, Portugal reiterou o apoio ao levantamento de sanções da UE — considerado essencial para avançar a transição democrática e libertar todos os presos políticos, especialmente lusodescendentes.

Na prática, a própria sessão parlamentar da semana terminou com a aprovação de uma resolução da IL recomendando ao Governo que considere ilegítimo o executivo venezuelano e apoie a transição democrática na Venezuela. O PCP votou contra e o BE abstive-se. Ainda assim, o PS aprovou também uma resolução para reforçar os apoios à comunidade portuguesa na Venezuela e intensificar esforços para libertação de presos portugueses e lusodescendentes.

Durante a visita, Carneiro manteve contato com órgãos de Estado, incluindo o Presidente da República e o Primeiro-Ministro, tendo, na conversa com Yván Gil, ficado claro o foco na situação dos presos políticos lusodescendentes na Venezuela — com Carneiro a defender a libertação de, pelo menos, quatro desses cidadãos.

Na Rádio Observador, Ana Gomes elogiou o “senso de iniciativa” de Carneiro, afirmando que uma atitude política era necessária, mas criticou o eurodeputado Sebastião Bugalho, que atacou o líder socialista. Gomes considerou que Bugalho foi “despropositado e despeitado” e sugeriu que o político deveria ter priorizado a busca pela libertação de portugueses presos na Venezuela. Por outro lado, o Eduardo Cabrita avaliou que Carneiro soube capitalizar a relação que tem junto às comunidades, recordar o seu passado como secretário de Estado das Comunidades, entre 2015 e 2019. E o nome de José Luis Zapatero, antigo líder socialista espanhol, foi citado por ter medido libertações na Venezuela, em uma referência aos ganhos diplomáticos que emergem de intervenções internacionais.

Em síntese, a operação expõe uma tensão permanente no interior do PS entre a leitura estratégica de ações internacionais e o cuidado com a leitura pública de apoio a regimes controversos. No dia a dia da política, timing, agendas e a percepção do eleitorado pesam tanto quanto as resoluções parlamentares, especialmente quando se trata de um país com uma história complexa como a Venezuela.

  • Pontos-chave: desconforto interno com a deslocação; dúvidas sobre legitimidade de ações externas; posição da UE e de Portugal; foco na libertação de presos portugueses; leitura pública do apoio a regimes controversos.

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Jornalista

Fernanda Costa

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