Trump não deve conseguir mudar o regime iraniano só com bombardeios, diz especialista
Para Ronaldo Carmona, professor de Geopolítica da Escola Superior de Guerra, o conflito no Irã e a resposta dos Estados Unidos na região mostram que o Brasil precisa manter dissuasão e equilíbrio estratégico
Uma semana após os primeiros bombardeios dos EUA contra o Irã, o Golfo vive uma etapa marcada pela incerteza e pela escalada de tensões. Mesmo com a morte do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei — atribuída aos ataques iniciais dos EUA e de Israel — o regime iraniano tem mostrado capacidade de resistência e de reação. Os ataques iniciais anunciados pelo presidente Donald Trump, sob a justificativa de provocar uma mudança de regime em Teerã, deram origem a uma sequência de respostas militares iranianas que elevam o risco de um confronto prolongado.
Desde então, a região assiste a um ciclo contínuo de ofensivas aéreas, mísseis e retaliações que miram alvos americanos, israelenses e, mais recentemente, de potências da região vizinha. As repercussões vão além do campo militar: há impactos econômicos globais, com oscilações no preço do petróleo e alertas sobre efeitos na cadeia de suprimentos de fertilizantes e insumos estratégicos. Nesse cenário, países como o Brasil procuram manter uma posição de equilíbrio diplomático, condenando a violação da soberania iraniana, mas evitando alinhamentos abertos com qualquer lado do conflito.
Para entender onde o conflito pode chegar e quais caminhos traçar, a BBC News Brasil conversou com Ronaldo Carmona, doutor em Geopolítica pela Universidade de São Paulo e docente da Escola Superior de Guerra, para analisar os primeiros sete dias de operação e as perspectivas para os próximos passos. A leitura dele aponta que o desfecho ainda está longe de ser definido, mesmo diante de uma pressão militar tão intensa.
Sobre a ideia de “mudança de regime” apenas por meio do uso de força aérea, Carmona é claro: embora haja a intenção declarada de provocar uma mudança radical nas forças políticas do Irã, não há, na prática, um cenário próximo de um governo derrubado apenas com bombardeios. O professor ressalta que uma deposição do poder de fato exigiria uma campanha terrestre e uma ocupação para consolidar uma nova ordem política — o que, no seu ver, não parece plausível neste momento. Nesse quadro, não dá para traçar um prognosis definitivo sobre o fim da guerra.
Quanto às retaliações iranianas, o especialista aponta que o foco tem sido alvos militares e instalações sensíveis, tanto em território iraniano quanto fora dele. Em paralelo, não faltam incidentes imprevisíveis, como erros de sistemas de armas que podem degradar a capacidade de resposta de qualquer lado. E isso, segundo Carmona, é parte do fluxo natural de uma guerra de alta intensidade onde, no calor dos ataques, as ações podem ter consequências não intencionais, inclusive com perdas civis.
Outro ponto discutido foi o debate sobre a evolução da guerra. Nos últimos anos, havia um receio de que conflitos futuros caminhassem para uma “guerra de ciberataques” contra infraestruturas críticas. Na prática, a análise é mais equilibrada: as técnicas modernas coexistem com os métodos tradicionais, combinando artilharia, mísseis, drones e ataques cibernéticos — sem deixar de lado a importância de estratégias antigas que ainda funcionam bem no campo financeiro e logístico do conflito.
No cenário regional, o Brasil adota uma postura cuidadosa. A visão romeira do equilíbrio é explícita: o país condena a violação da soberania iraniana, reforçando a adesão aos princípios do direito internacional, mas deixa claro que não participa do conflito no terreno. Na prática, as repercussões para o Brasil passam pela economia — especialmente pela flutuação dos preços do petróleo e pelos impactos na importação de fertilizantes e insumos — e, ao mesmo tempo, pela necessidade de reforçar a capacidade de dissuasão para enfrentar possíveis pressões externas.
Sobre o tema da dissuasão nuclear, Carmona aponta que o debate está vivo em várias regiões, especialmente na Europa, onde países discutem novas formas de proteção. Ele observa que, por aqui no Sul global, a leitura é outra: as fragilidades militares são vistas como risco ao status quo político, ampliando a urgência de manter capacidades que desestabilizem ações externas. A lição que fica, segundo o analista, é a importância de o Brasil preservar mecanismos de defesa e dissuasão para evitar ficar à mercê de pressões de potências maiores.
Quanto à participação da China, as respostas oficiais são de condenação à agressão e ao desrespeito ao direito internacional, mas sem envolvimento direto no conflito. A leitura chinesa, segundo Carmona, é de que é preciso manter um ambiente internacional estável para apoiar o seu avanço econômico e político, evitando um confronto prolongado que possa prejudicar seu desenvolvimento. Com isso, a China não se coloca como aliado de nenhum dos lados, mas como um ator que busca reduzir riscos para preservar sua ascensão global.
Sobre a duração do confronto, o especialista lembra que o público costuma receber números do tipo “três a quatro semanas”, mas que esse tipo de cálculo pode esconder realidades muito mais complexas no terreno. O custo direto da operação para as forças americanas, já estimado em volumes elevados, sugere que ambas as partes devem pensar em termos de continuidade do choque militar por semanas adicionais, sempre com a cautela de evitar que o conflito se transforme em uma escalada sem controle. No fim das contas, o objetivo declarado de desorganizar as capacidades iranianas permanece como combustível de ações, independentemente do tempo que leve para alcançar ou não esse objetivo.
Para quem acompanha a dinâmica entre grandes potências, fica a ideia de que o Brasil precisa se manter firme na defesa de princípios básicos — soberania, autodeterminação e respeito ao equilíbrio regional — sem procurar movimentos de alinhamento que possam expor o país a riscos desnecessários. Além disso, vale ficar de olho nos desdobramentos econômicos, que afetam o dia a dia do consumidor, desde o preço do petróleo até impactos em cadeias de fornecimento estratégicas. Em memória prática, a lição é simples: dissuadir, dialogar e manter a cooperação internacional são maneiras concretas de reduzir vulnerabilidade frente a choques geopolíticos.
Em tempos de tensão, pensar adiante significa entender que conflitos como esse não são apenas disputas entre governos: afetam cidades, empresas, trabalhadores e famílias. A boa notícia possível é que essa leitura mais ampla pode motivar políticas públicas capazes de preservar a tranquilidade econômica e a segurança nacional, sem abrir mão de buscar soluções diplomáticas que evitem uma escalada desnecessária. E você, como percebe as consequências desse cenário para o dia a dia do Brasil e do mundo?
- Equilíbrio diplomático: o Brasil aposta em uma posição de equilíbrio, condenando a agressão sem se colocar diretamente no conflito.
- Mercado global: oscilações no petróleo e impactos na importação de insumos estratégicos ganharam destaque.
- Dissuasão: a capacidade de dissuadir ações externas continua sendo uma lição central para o país.
- China: a postura é de condenação, mas sem envolvimento militar direto, para não prejudicar seu desenvolvimento.
- Duração: estimativas variam, mas a tendência é de que a tensão siga com intensidades diferentes nas próximas semanas.