Manolo De Los Santos: Recuo tático — por que a Bolivariana segue

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Manolo De Los Santos: Recuo tático — por que a Revolução Bolivariana continua de pé

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Um mergulho profundo nas consequências dos acontecimentos de 3 de janeiro de 2026, quando a Venezuela enfrentou uma intervenção internacional de alto impacto. Este texto reconstrói as tensões entre o governo e o Estado, analisa a nova correlação de forças na região e explica por que o recuo tático pode abrir caminho para avanços futuros da Revolução Bolivariana.

Ao longo das primeiras horas de 3 de janeiro, o mundo assistiu a um choque direto entre uma potência imperial e o Estado venezuelano. A narrativa dominante foi rapidamente contestada por quem vive e acompanha a conjuntura latino-americana: a tentativa de derrubar o regime, sequestrar o presidente Maduro e estabelecer uma mudança de regime não foi tão simples quanto parecia, e a reação interna foi decisiva para manter a continuidade do projeto bolivariano.

O que mudou na prática foi o equilíbrio de forças. Embora a agressão tenha exposto vulnerabilidades, ela também evidenciou a capacidade da Venezuela de mobilizar seus recursos, de manter o controle sobre instituições centrais e de evitar uma ocupação que poderia ter destruído o governo de forma abrupta. Em vez disso, houve uma série de ajustes estratégicos que preservaram o funcionamento do Estado, o que, a longo prazo, pode permitir novas frentes de luta e renegociações com as potências externas.

Para entender esse movimento, é necessário distinguir entre governo, Estado e liderança: as políticas e declarações podem oscilar, mas as instituições permanentes — exército, tribunais e polícia — representam o poder real que sustenta o projeto revolucionário. O bolivarianismo não nasceu apenas de um momento eleitoral, mas de décadas de organização que foram consolidando a capacidade do Estado de atuar no campo social, econômico e militar, mesmo diante de pressões externas. O PSUV manteve a linha de promover o poder da classe trabalhadora e de fortalecer o socialismo, mesmo que os caminhos para esse objetivo passem por recuos táticos e recuos calculados.

Afirmação 1: o suposto apoio interno a traidores não se sustenta frente à realidade de resistência e coragem no terreno. Embora os relatos de bastidores descrevam pressões e dilemas, a resposta venezuelana envolveu uma mobilização de defensas, a rearticulação de comandos e uma demonstração de coesão institucional para evitar a completa desestabilização do governo. A narrativa de um “golpe perfeito” foi confrontada por depoimentos de quem viveu o cenário de perto e por reconhecimentos oficiais de que a Venezuela enfrentou uma ofensiva tecnológica e militar sem precedentes.

Na prática, a narrativa de que houve uma rendição completa não encontra apoio sólido. O país reagiu com uma combinação de defesa eletrônica, organização cívico-militar e uma compreensão realista de que a intervenção estrangeira não poderia, de imediato, derrotar a estrutura de poder formada pela revolução. A liderança venezuelana, por sua vez, assumiu uma postura de continuidade institucional: manter as instituições sob controle, ganhar tempo e preservar a base de apoio social, tudo para não entregar o Estado ao inimigo.

Afirmação 2: a ideia de que Delcy Rodríguez e demais dirigentes teriam “entregado” o país ao imperialismo é abordada com cautela na análise. As mudanças em curso — entre elas ajustes na condução das relações exteriores e a reconfiguração de alianças estratégicas — são vistas como respostas a um cenário de pressão extrema, não como sinal de capitulação. O que se observa é uma redefinição de prioridades, uma relação mais pragmática com o petróleo e com as potências do setor energético, e a busca por manter o Estado em funcionamento, mesmo que sob condições de negociação imposta pela força externa.

Desde esse 3 de janeiro, a correlação de forças regional mudou de maneira substantiva. A presença naval estadunidense permanece significativa, enquanto governos de direita na região aplaudem, com ressalvas, a intervenção. Rússia e China mantêm apoio retórico, mas sem dissuadir de forma decisiva a agressão. O resultado prático é que a Venezuela passou a explorar um novo patamar de negociação com Washington, aceitando concessões no setor petrolífero para preservar democraticamente o Estado e evitar o colapso econômico completo.

Em termos concretos, o acordo resultante abriu espaço para que empresas privadas estrangeiras operem sob condições mais flexíveis, com impostos reduzidos e maior autonomia para vender petróleo no exterior. Em contrapartida, os EUA passaram a gerenciar o fluxo de receitas e a influenciar as condições de reconstrução energética do país. Ainda assim, esse arranjo mantém o Estado venezuelano vivo e com capacidade de investimento em áreas como saúde, educação e infraestrutura, algo que a sana narrativa de “rendição” tende a minimizar. O petróleo, que sempre foi o eixo da relação com o Ocidente, volta a ocupar um papel central como moeda de equilíbrio dentro de um espaço político cada vez mais restrito.

Afirmação 3: a leitura de que a política externa venezuelana abandonou o anti-imperialismo foi contrastada pela prática recente que mostra um exercício de diplomacia sob pressão extrema. Enquanto o Catar tem sido visto como mediador e abrigo financeiro, a relação com o Irã e com outras potências continua complexa e estratégica. A ideia de solidariedade automática com qualquer aliado antiamericano é substituída por uma avaliação prática da situação: manter relações estáveis com parceiros que possam garantir a soberania do país sem fechar portas para futuras negociações com o Ocidente. Em resumo, a Venezuela parece privilegiar a sobrevivência do Estado revolucionário em detrimento de posições ideológicas fixas que poderiam inviabilizar a gestão cotidiana.

Quem é Delcy Rodríguez, afinal? Entre a retórica revolucionária e a prática de gestão da crise, a liderança tem se apresentado como uma figura central. O passado de luta, a relação com Maduro e a posição nas negociações com o Império ajudam a entender o papel que ela assume hoje: não uma traidora, mas uma peça-chave na estratégia de sobrevivência do Estado, do partido e do conjunto da cidadania. A narrativa externa tenta caricaturá-la, mas a leitura mais cuidadosa revela uma líder que atua sob condições de pressão máxima, buscando preservar a continuidade do projeto revolucionário para o futuro.

No dia a dia, a prioridade é neutralizar a direita, buscar a normalização das relações internacionais e manter a resistência socioeconômica da Venezuela. O pragmatismo, reconhecido por analistas, é mostrado como uma ferramenta para evitar a desintegração, não como um sinal de rendição. O objetivo, em última instância, é preservar o que não pode ser substituído: o Estado revolucionário, o papel do partido e a vida de milhares de pessoas que dependem das políticas públicas para uma vida digna. E, se o leitor perguntar: isso funciona? A resposta está no tempo: só saberemos quando a correlação de forças mudar novamente a favor do povo venezuelano.

O papel da solidariedade internacional entra aqui como conceito, não como ortodoxia. Solidariedade significa apoiar a continuidade da luta e compreender que Delcy Rodríguez atua em circunstâncias extremas, sem abrir mão da soberania. Não se trata de defender cada declaração ou cada gesto de governo, mas de reconhecer que, em tempos de ataque direto, o caminho da emancipação passa pela preservação das estruturas que tornam possível a resistência. A revolução, então, não terminou: apenas recuou para reorganizar-se, ganhando fôlego para o próximo salto.

Enquanto a Venezuela avança, o país permanece sob vigilância constante. A ideia de que o petróleo serve apenas a interesses externos é substituída por uma visão mais complexa: manter a capacidade de decisão soberana, proteger o aparelho estatal e garantir que a população siga recebendo serviços e oportunidades mesmo diante da pressão internacional. E, quando a maré mudar, o objetivo não será apenas manter o governo, mas retornar aos trilhos de um projeto que, ao longo de décadas, tem buscado libertar o país de dependências externas.

No fim das contas, a lição é simples, ainda que forte: a história mostra que recuos estratégicos podem, com o tempo, abrir caminhos para avanços decisivos. O recuo tático, visto com cautela, pode ser um passo para frente se mantiver a espinha dorsal do movimento e a coesão da base social. E a revolução continua, não porque se mantém imutável, mas porque se adapta, se reorganiza e persiste, confiando que a justiça social é um objetivo de longo fôlego.

Nota do autor: Manolo De Los Santos, ligado ao Fórum Popular e pesquisador do Tricontinental-Instituto de Pesquisa Social, contribui com uma leitura que coloca a sobrevivência da revolução como condição para o futuro. A ideia central é que o recuo, longe de significar derrota, pode ser a base para novas vitórias. O tempo dirá como esse caminho se desenrolará.

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Jornalista

Sarah Martins

Jornalista especializada em lifestyle e decoração. Responsável por criar guias, tutoriais e reviews que realmente ajudam nas escolhas.

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