PF envia ao STF relatório com menções a Toffoli na investigação do caso Master; ministro diz que dará resposta a Fachin
Ao longo dos últimos meses, a Polícia Federal entregou ao presidente do STF um material que aponta possíveis vínculos envolvendo o ministro Dias Toffoli na apuração sobre a venda do Banco Master. Em meio aos desdobramentos, Toffoli afirmou que irá se posicionar diretamente ao presidente da Corte.
A Polícia Federal apresentou ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, um relatório no qual aparecem menções ao ministro Dias Toffoli no âmbito da investigação sobre o caso Master. Segundo uma fonte da PF ouvida pela BBC News Brasil, haveria “achados” relativos ao ministro. O entendimento, de acordo com a PF, é que, caso surgissem elementos que vinculem um ministro do STF aos fatos apurados, isso precisaria ser informado ao presidente da Corte. Na prática, o que se sabe é que a investigação ganhou contornos relevantes para o papel institucional do tribunal.
Na noite de 12/02, o STF divulgou uma nota oficial informando que Toffoli pediu para deixar a relatoria do caso. O ministro André Mendonça foi sorteado para assumir a relatoria. O episódio ganhou eco nas informações complementares do portal UOL, que afirmou ter havido um suposto pedido de suspeição por parte da PF; no entanto, uma fonte da PF afirmou à BBC News Brasil que essa solicitação não existiu — e, posteriormente, a menção ao pedido de suspeição foi retirada da matéria publicada pelo UOL. A suspeição é, em termos jurídicos, um afastamento de um magistrado quando há riscos à imparcialidade.
Para explicar o que exatamente significa esse tipo de questão, a PF reforçou que a suspeição ocorre justamente quando uma autoridade não pode atuar com isenção. Ainda assim, a PF esclareceu que o relatório em questão não cita outras autoridades, apenas o ministro Toffoli.
Por meio de nota, o gabinete de Toffoli disse que o ministro se manifestaria sobre o assunto diretamente ao presidente Fachin. No dia seguinte, Toffoli voltou a se pronunciar, em outra nota, reiterando que não recebeu qualquer valor de Daniel Vorcaro, proprietário do Master, nem de seu cunhado Fabiano Zettel.
Um tema relacionado que ganhou destaque envolve questões associadas ao resort da família Toffoli. A empresa Maridt, ligada ao ministro, tinha participação no antigo grupo Tayaya Ribeirão Claro. Em janeiro, o jornal O Estado de S. Paulo informou que uma fatia dessa participação foi vendida em 2021 a um fundo cujo dono era Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. Toffoli confirmou que foi cotista do fundo, afirmou ter deixado o investimento em 2022 e ressaltou que a operação foi liquidada em 2025. Zettel foi detido temporariamente no curso da segunda fase da operação para garantir o sigilo do caso. A empresa Maridt, que não participa mais da gestão do resort desde 2025, tem endereço registrado em uma casa em Marília (SP), segundo reportagens. Mesmo após deixar a participação, Toffoli frequenta o local com certa regularidade.
Segundo a cobertura do Metrópoles, Toffoli passou pelo menos 168 dias no Tayayá desde dezembro de 2022, com diárias de segurança que teriam consumido cerca de R$ 548,9 mil dos cofres públicos. O resort, além de uso pessoal, é citado como espaço onde o ministro recebe políticos e empresários, o que alimenta o debate sobre eventual conflito de interesses.
Em resposta às controvérsias, Toffoli declarou que a Maridt é uma empresa familiar devidamente registrada, com prestações de declarações aprovadas pela Receita Federal. A nota publicada pelo ministro também esclarece que ele integra o quadro societário de forma não ligada à gestão, com a ressalva prevista na lei: o magistrado pode possuir participação societária, desde que não atue como administrador. A defesa reforça que a participação foi encerrada em fevereiro de 2025, com duas operações de venda de cotas, e que, na prática, o grupo Tayaya não integrava mais o conjunto societário desde então. Além disso, o ministro destacou que não conhece o gestor do Fundo Arllen e enfatizou que não manteve relações de amizade com Vorcaro.
Quanto à condução do caso Master, a Administração do Banco Master, liquidado pelo Banco Central, levou Vorcaro à prisão e, hoje, ele está em regime de prisão domiciliar com monitoramento. A defesa dele afirma que tem colaborado integralmente com as autoridades e que continuará obedecendo às determinações judiciais, enquanto critica o que chamou de vazamento seletivo de informações, que pode gerar interpretações inadequadas e prejudicar a defesa. Em resposta, o STF divulgou uma nota defendendo o tribunal e Toffoli, reiterando que as perguntas sobre nulidades foram decididas dentro dos trâmites legais e que o caso segue com as devidas salvaguardas processuais.
Para alguns, o episódio aponta para um cenário de tensão institucional e de escrutínio público sobre a atuação de membros do STF em casos sensíveis. O que se observa na prática é um equilíbrio entre a necessidade de transparência e a proteção de decisões judiciais, inclusive com a possibilidade de redistribuição de processos conforme as normas internas da Corte. O próprio ministro Toffoli deixou claro que, ao fim das investigações, poderá haver remessa a instâncias ordinárias, desde que confirmadas as nulidades ou violação de prerrogativas.
Em síntese, o que fica é um retrato de um caso que envolve a PF, o STF, o Ministério Público e figuras associadas a empreendimentos financeiros relevantes. O tema, claro, continua em pauta, alimentando debates sobre a fronteira entre influência financeira, a forma como as investigações são conduzidas e os limites da atuação de autoridades, inclusive em situações que afetam o funcionamento do sistema judicial.
- PF entrega relatório ao STF com menções a Toffoli
- Toffoli afirma que não houve pedido de suspeição por parte da PF
- Imbróglio envolvendo o resort da família Toffoli e participação societária
- Condução do caso Master segue sob escrutínio e discussão sobre nulidades