CPMI do INSS aprova quebra de sigilo de Lulinha em sessão tumultuada; o que já se sabe sobre acusações envolvendo filho do presidente
Ex-funcionário do INSS teria dito à Polícia Federal que filho de Lula recebia ‘mesada’ de Antônio Carlos, o ‘careca do INSS’, apontado como operador das fraudes
Em uma sessão marcada por vai e vem e confronto entre oposição e base aliada, a CPMI do INSS aprovou nesta quinta-feira (26/2) a quebra de sigilo bancário e fiscal do filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha. O momento foi tenso, com parlamentares trocando acusações sobre a contagem de votos na votação simbólica. O presidente da comissão, senador Carlos Viana, rejeitou o pedido de anulação, e a bancada governista levou a questão ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, mas a decisão dele ainda não foi anunciada.
A decisão de quebra de sigilo tem como objetivo esclarecer uma possível ligação entre Lulinha e o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o famoso “careca do INSS”, considerado um operador-chave das supostas fraudes. Em dezembro, durante uma nova fase da operação da Polícia Federal chamada Sem Desconto, foram revelados pagamentos que somam R$ 1,5 milhão, feitos por ordem de Antunes a uma empresária próxima do filho do presidente. Essa empresária, Roberta Luchsinger, é sócia da RL Consultoria e Intermediações, empresa ligada a uma rede suspeita de facilitar desvios de recursos. A operação também resultou na prisão de Adroaldo da Cunha Portal, apontado como o “número 2” do Ministério da Previdência, além de mandados de busca para o senador Weverton Rocha (PDT-MA).
Entre as informações captadas, uma transferência de R$ 300 mil destinada a Luchsinger aparece em mensagens onde Antunes afirma que o dinheiro seria “do filho do rapaz”. Os investigadores tentam esclarecer se a referência é a Lulinha. Enquanto isso, Lula comentou, em tom firme, que “todas as pessoas envolvidas” no esquema de desconto ilegal de benefícios do INSS seriam investigadas, fortalecendo a ideia de que ninguém ficará acima da lei — e, se o filho dele estiver envolvido, também será apurado.
No núcleo da investigação, Antunes é apontado como um dos operadores centrais, atuando como elo entre sindicatos, associações de aposentados e servidores do INSS. Segundo a PF, ele recebia valores de descontos supostamente indevidos, repassando partes para funcionários do instituto, familiares e empresas ligadas ao grupo. A PF indica ainda que a RL Consultoria recebia recursos via uma empresa de fachada ligada a Antunes, a Brasília Consultoria Empresarial Ltda. Os repasses teriam como justificativa serviços que, na prática, não foram prestados.
As apurações destacam que Roberta Luchsinger atuaria como componente do núcleo político da organização criminosa, com papel essencial na ocultação de patrimônio e na gestão de estruturas empresariais usadas para lavagem de dinheiro. Além disso, haveria uma ligação entre Lulinha e Antunes em projetos ligados à área da saúde. Em mensagens analisadas, Luchsinger relata a Antunes que encontraram “um envelope com o nome do nosso amigo” na operação e orienta a descartar telefones. Em outro momento, ela envia um áudio tentando acalmar a situação e comenta que “na época do Fábio” também teriam surgido acusações semelhantes ligadas à empresa Friboi.
A CPMI já havia rejeitado, em outubro, a convocação de Lulinha. O requerimento ganhou força após o depoimento de Edson Claro, ex-funcionário do INSS, que, segundo o portal Poder360, afirmou que Lulinha manteria proximidade com Antunes e teriam viajado juntos para Portugal. A imprensa também destacou que Claro citou uma possível sociedade entre o filho de Lula e o operador, mas não há confirmação oficial sobre a natureza exata desse vínculo.
Quem é Lulinha
Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, é o filho mais velho de Lula com Marisa Letícia. Formado em biologia, já trabalhou como estagiário em um zoológico em São Paulo e hoje atua em empresas do setor de tecnologia. Na trajetória pública, esteve envolvido em episódios polêmicos: em 2019, o Ministério Público Federal o denunciou por suposto recebimento de vantagens da Oi/Telemar entre 2004 e 2016; em 2020, foi investigado na Operação Lava Jato por suposta participação em repasses de valores da Oi/Telemar para influenciar decisões do governo, mas o caso foi arquivado. Em anos recentes, reports indicaram que ele se mudou para a Espanha, com planos de retornar ao Brasil apenas após o fim do mandato de Lula.
Fraude no INSS
Em abril de 2025, uma investigação conjunta da Controladoria-Geral da União (CGU) e da Polícia Federal revelou uma fraude bilionária no INSS, que desvio centenas de milhares de aposentados por meio de descontos não autorizados em benefícios. A PF aponta que sindicatos e associações de aposentados utilizavam convênios com o INSS para descontar mensalidades sem autorização, estimando um desvio de R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024. Entre os investigados, estavam seis servidores, incluindo o então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, demitido e preso na época. Em setembro foram feitas novas prisões, entre elas de Antunes, o “careca do INSS”, considerado facilitador do esquema. A PF também aponta que empresas ligadas a ele atuaram como intermediárias, com recursos desviados e repassados a membros do grupo e a empresas ligadas aos envolvidos.
A investigação descreve uma rede complexa de relações entre atores públicos, empresas intermediárias e sindicatos, que teriam operado no sentido de desviar recursos de aposentados e pensionistas. No centro do debate está a ideia de que estruturas empresariais, muitas vezes fantasmas, serviram para ocultar riqueza e facilitar operações de lavagem de dinheiro, com o objetivo de sustentar um funcionamento ocorreu no dia a dia do INSS.
No fim das contas, o desdobramento da CPMI e as apurações da PF colocam em evidência a delicada relação entre política, empresas e benefícios sociais. Para o leitor comum, a pergunta é simples: o que isso muda na prática? Continuar atento aos desdobramentos é essencial para entender como eventuais irregularidades podem impactar a vida daqueles que dependem do INSS para a renda de aposentadoria e sustento.