O suposto revés de Donald Trump

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A Suposta “Derrota” de Donald Trump

Tarifas são uma ferramenta e o objetivo é produção interna de bens consumíveis e de alto valor acrescentado, emprego qualificado, classe média pujante, as maiores empresas do mundo, e inovação.

De forma inesperada para muitos, o debate público sobre tarifas não girou apenas em torno de uma decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o IEEPA — a Lei de Poderes Econômicos de EmergênciaInternacionais, de 1977. Fontes próximas aos bastidores já haviam sinalizado que o presidente estaria pronto para enfrentar cenários desfavoráveis no SCOTUS, enquanto autoridades como o Secretário do Tesouro e o Representante do Comércio, em Davos, deixavam claro que haveria janelas de oportunidade caso o decreto de IEEPA não autorizasse tarifas. O tribunal, por sua vez, foi direto: o IEEPA não autoriza tarifas. Não disse que o presidente não pode usá-las por outras vias, nem que a política comercial estratégica seja ilegítima. E não questionou a autoridade para aplicar tarifas sob bases legais diversas.

Pouco tempo depois, a Administração respondeu com uma estratégia nova: evocou a Ley de Comércio Exterior de 1974 e destacou pareceres que apontaram caminhos concretos. Nesse roteiro legal, três dispositivos aparecem com força própria: a Secção 122, permitindo tarifas de até 15% para lidar com desequilíbrios externos da balança de pagamentos ou déficits externos significativos; a Secção 301, que autoriza o Representante Comercial dos EUA (USTR) a atuar contra práticas comerciais injustas ou que prejudiquem o comércio americano, buscando reciprocidade; e a Secção 232, que faculta o Presidente a restringir importações quando haja ameaça à segurança nacional, inclusive com tarifas. Em uma linha, uma porta fechada se abriu — e três portas se abriram ainda mais.

Não se trate apenas de um episódio jurídico ou de uma aposta arriscada na economia. O que está em jogo é a compreensão de um sistema que tem raízes profundas no pensamento econômico americano. Em vez de vencer apenas por meio de uma única norma, o debate — e a prática — passam a ressaltar um modelo de longo prazo. E é justamente esse arcabouço que os próprios defensores chamam de Sistema Americano, ancorado na visão de Alexander Hamilton, o primeiro ministro do Tesouro dos EUA, que moldou a nação desde o século XVIII. A ideia central é clara: exportar matéria-prima exige acompanhar o desenvolvimento de manufaturas, sob pena de dependência política e econômica.

Para entender o que isso significa no dia a dia, vale retornar aos alicerces do século XIX e ao que se seguiu. Lincoln, McKinley e Roosevelt ajudaram a consolidar uma trajetória que não despreza o livre comércio, mas o utiliza de forma estratégica para erguer a indústria interna. Tarifas não eram dogmas; eram instrumentos. Hoje, ela volta com o rótulo de soberania estratégica das nações, reverberando na forma como o país reconstrói cadeias produtivas, investe em tecnologia e busca autonomia frente a crises globais.

Na virada do século XX, a Big Stick Diplomacy de Theodore Roosevelt sinalizava que primeiro se monta a capacidade interna antes de abrir o mundo. Essa lógica não é apenas histórica: ela se conecta com as dinâmicas modernas de tecnologia, energia e competitividade. A partir de McKinley, a proteção industrial ganhou forma com tarifas calibradas e negociações que buscavam reciprocidade. A narrativa evoluiu, incorporando a ideia de proteção como estratégia, e não como isolamento. Em paralelo, a Europa passou por transformações que muitos leitores reconhecem apenas com o tempo: a centralização regulatória em Bruxelas, o aperto sobre setores nacionais estratégicos e a sensação de que a independência econômica ficava cada vez mais distante.

No século XXI, o panorama muda de escala. A pendência entre regulação, inovação e soberania não é mais apenas sobre tarifas, mas sobre como manter cadeias de suprimento robustas, competitivas e seguras. A tecnologia, a competição geopolítica, a dependência energética e a volatilidade de mercados criam um cenário de vulnerabilidades que pedem respostas firmes. A resposta, para muitos analistas, não é abandonar o termômetro da proteção, mas recalibrar o modelo de produção para priorizar bens de alto valor, empregos qualificados e uma classe média fortalecida. Nesse raciocínio, o líder que reaviva o espírito do Sistema Americano aparece como alguém que não está preso a dogmas, mas às necessidades de sobrevivência econômica.

Não surpreende que resenhas sobre o passado mostrem um traçado: o mundo não deseja retornar a condições onde o dólar perdia fôlego ou a indústria domesticava-se lentamente. O que se defende, em termos práticos, é uma economia mais resistente — com regras claras, incentivos certos e uma visão de longo prazo que aponta para o equilíbrio entre produção interna e comércio externo. E, no centro disso, está a ideia de que a liberdade econômica só se sustenta com capacidade produtiva real, tecnologia de ponta e uma visão de país capaz de manter a prosperidade sem abrir mão da autonomia.

Ao seguir esse fio, percebe-se uma leitura sobre a atuação de Donald J. Trump e de sua equipe: não se trata apenas de retomar políticas antigas, mas de reativar um discurso que, segundo seus defensores, aponta para uma economia capaz de conciliar competitividade com proteção estratégica. Em termos práticos, isso significa regras que priorizam reciprocidade, mercados internos fortalecidos e uma agenda de reindustrialização que visa beneficiários diretos como a classe média, trabalhadores qualificados e grandes empresas que lideram a inovação. É um caminho que, para alguns, abre portas para o renascimento econômico, desde que haja equilíbrio entre interesses nacionais e o vigor do comércio global.

Por outro lado, a leitura europeia de tudo isso não é/parece idêntica. A impressão comum é de que regras, por melhores que sejam, não substituem o poder econômico real. E que a Europa precisa repensar não apenas a regulação, mas a própria base industrial, para não ficar à margem de um cenário onde a soberania econômica volta a ocupar o centro das decisões. A conclusão prática é ambiciosa: sem energia competitiva, sem indústria e sem autonomia, a soberania fica apenas como ideia, sem músculo.

É por isso que o debate sobre tarifas, governos e políticas industriais volta a soar atual. Tarifas não são panaceias; são instrumentos dentro de um ecossistema mais amplo, onde o objetivo maior é a produção interna de bens de consumo e de alto valor agregado, empregos qualificados e uma classe média fortalecida. E, nesse contexto, a história de Hamilton, Lincoln, McKinley e Roosevelt é retomada como referência para entender que o caminho da nação não depende apenas de promessas, mas de uma prática consistente de construção de capacidade e de soberania econômica.

Em linhas simples, o que a Suprema Corte abriu e o que a Administração respondeu sinalizam uma transformação do debate: a ideia de que o século XXI pede uma economia menos vulnerável a choques externos e mais capaz de manter a liderança tecnológica, industrial e financeira. No fim das contas, não é apenas sobre uma taxa ou outra: é sobre a visão de país que queremos, com reformas, investimento estratégico e uma relação inteligente entre mercado livre e proteção interna. E, nesse sentido, o legado de Trump aparece como uma tentativa de restabelecer a lógica que os fundadores perceberam como essencial: a união entre proteção da indústria, liberdade de comércio e prosperidade compartilhada.

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Jornalista

André Santos

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