Oposição faz primeira manifestação na Venezuela após queda de Maduro
A mobilização ocorreu em várias cidades, com foco na Universidade Central e debates sobre uma lei de anistia apresentada pela oposição ao chavismo
Milhares de opositores voltaram às ruas de Caracas nesta quinta-feira (12), na primeira manifestação expressiva desde a queda do ditador Nicolás Maduro, anunciada após uma operação internacional em janeiro. A mobilização aconteceu no momento em que a Assembleia Nacional iniciava a análise de um projeto de lei de anistia em segunda votação, cuja continuidade acabou sendo adiada para a semana que vem.
A ação de ontem integrou um movimento nacional que mobilizou pessoas em 17 estados do país. Em outras regiões, como Bolívar, Mérida, Táchira e Carabobo, estudantes universitários também cobraram a libertação de todos os presos políticos e maior transparência no tratamento das denúncias.
O foco da manifestação em Caracas foi o entorno da Universidade Central da Venezuela (UCV), principal instituição de ensino do país. Os opositores vestiam camisas brancas, símbolo típico da oposição, exibiam faixas e bandeiras contrárias ao regime chavista e repetiam a cobrança por anistia e pela libertação de presos políticos.
Segundo a ONG Foro Penal, que acompanha o sistema carcerário do chavismo, há mais de 600 presos políticos ainda aguardando libertação dentro do processo de indultos iniciado no dia 8 de janeiro. A líder opositora e ganhadora do Nobel da Paz, María Corina Machado, publicou no X um vídeo da mobilização e escreveu que o país precisa de liberdade para os estudantes. A proposta de anistia, apresentada por Delcy e defendida por Jorge Rodríguez, o presidente da Assembleia Nacional, prometia libertar detidos ao longo de quase três décadas, desde que não cometam violações graves de direitos humanos.
No entanto, o texto excluía crimes graves como violações de direitos humanos, crimes contra a humanidade, crimes de guerra, homicídio doloso, tráfico de drogas com pena mínima superior a nove anos e crimes contra o patrimônio público. Na prática, isso gerou dúvidas entre organizações de direitos humanos sobre quais critérios realmente seriam aplicados para conceder o benefício.
Durante a semana, a condução do debate foi descrita por interlocutores do governo como ambiciosa e capaz de representar uma virada significativa. Já especialistas alertam que, mesmo com a promessa de liberdades amplas, é possível que o número de liberados seja alto sem imposição de condições rigorosas. Por outro lado, entidades de defesa dos direitos humanos destacam a falta de divulgação de critérios detalhados, alimentando desconfiança entre a oposição.
Na semana anterior, os deputados aprovaram o projeto em primeira votação. A segunda estava prevista para terça-feira (10), mas foi suspensa para abrir espaço à consulta pública, com participação de juristas, líderes da oposição e familiares de presos políticos. O procurador-geral do país, Tarek William Saab, também esteve presente, entre outros membros do Judiciário. “Continuaremos a discussão na próxima sessão ordinária, na semana que vem”, afirmou Delcy.
Em entrevista exclusiva ao programa Meet the Press, da NBC News, a presidente interina afirmou que María Corina Machado deverá prestar contas caso retorne ao país, questionando seu apoio a intervenções militares e sanções. “Ela terá de explicar por que pediu intervenção militar, por que pediu sanções contra a Venezuela e por que celebrou as ações do início de janeiro”, disse Delcy. A chefe do governo interino manteve a tese de que Maduro continua sendo o “líder legítimo” da Venezuela, acrescentando que “tanto o presidente Maduro quanto Cilia Flores são inocentes” (com informações de agências internacionais).
As informações vêm de fontes que cobrem a situação no país.