Como Bad Bunny furou a bolha e virou o artista internacional mais ouvido no streaming no Brasil
Artista nunca tinha estado entre os 50 mais ouvidos do Spotify no Brasil, até seu show no Super Bowl, às vésperas das primeiras apresentações em São Paulo, ser visto por milhões e unir brasileiros e outros latino-americanos contra Donald Trump.
Depois de uma apresentação histórica no intervalo do Super Bowl e de shows em São Paulo na sexta-feira (20/2) e no sábado (21/2), Bad Bunny vem surfando uma onda de popularidade inédita e repentina no Brasil. O porto-riquenho, que até então não figurava entre os 50 cantores mais ouvidos no Spotify brasileiro, passou a figurar entre os favoritos do serviço de streaming mais utilizado por brasileiros. Na semana posterior à final da NFL, ele chegou à 12ª posição; nesta semana, caiu para a 24ª. Mesmo assim, o estrangeiro continua sendo o artista internacional mais ouvido do país, atrás apenas de nomes do funk e do sertanejo.
No YouTube, onde também pesa o volume de consumo, ele aparece como o artista internacional mais popular no momento, ocupando a 76ª posição no ranking de músicas mais ouvidas. Em um mercado tão competitivo como o brasileiro — que lidera globalmente o hábito de ouvir a própria música — esse feito é relevante não apenas para Bad Bunny, mas para qualquer artista vindo de fora.
No entanto, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil destacam que esse momento pode estar mais associado à repercussão da apresentação no Super Bowl do que a uma performance puramente musical. A exibição na televisão aberta no Brasil — com a Globo transmitindo os melhores trechos do show e da partida, e o concerto completo pelos canais Multishow e SporTV — ajudou a ampliar a adesão. Somando todas as plataformas, a cobertura atingiu 12,9 milhões de pessoas, segundo análises do setor. Além disso, o impacto nas redes foi avassalador: o name‑brand do cantor apareceu em 218,5 mil publicações em um único dia, na segunda-feira após o evento, mais do que o dobro do que havia sido registrado no ano anterior.
Ao longo da semana, o tema foi ainda o terceiro assunto mais comentado na rede social X, atrás de narrativas envolvendo o BBB. Já no Instagram, o clipe pode ter sido o seu maior propulsor: entre os perfis brasileiros que compartilharam o trecho, houve 5,7 milhões de visualizações, 754 mil curtidas, 50,7 mil compartilhamentos e 3,4 mil comentários, segundo o Buzzmonitor. E o momento mais lembrado entre os fãs foi o instante em que o cantor pede que “Deus abençoe a América” — não apenas os Estados Unidos, mas também as várias regiões do continente.
Orgulho latino. Embora pesquisas de instituições como o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) indiquem que apenas cerca de 4% da população brasileira se reconhece como latino‑americana, o sentimento de união entre latinos passou a ser o principal combustível desse engajamento. “Essa leitura convergente entre Brasil e demais territórios latino‑americanos é o que explica a força do momento”, analisa Rafael Noleto, doutor em Antropologia Social pela USP e professor da Universidade Federal de Pelotas. Ele destaca que a presença de Bad Bunny alimenta uma visão comum de identidade, ainda que em contextos diferentes.
A avaliação também resvala para as dinâmicas de redes: as menções a Bad Bunny no ar em torno do Super Bowl não se limitam a elogios; parte do público reagiu criticamente, inclusive a instruments de oposição. Segundo Soutto, do Buzzmonitor, a torcida negativa representa apenas uma parcela menor (em torno de 15,25%), mas é suficiente para manter o artista em pauta — o que, por si, já alimenta uma busca por quem ele é e o que canta. E, neste exercício, surgem também vozes que cruzam fronteiras políticas: peças de ataque a ele foram publicadas por contas associadas a políticos brasileiros, evidenciando como o assunto ganhou contornos políticos no Brasil.
Falar sobre o seu impacto leva à pergunta: isso é apenas um pico de momento ou pode se tornar um fenômeno duradouro? Analistas, inclusive, apontam que, mesmo com a queda de ranking no Spotify — da 12ª para a 24ª posição — e a queda no volume de menções, a conexão do artista com o Brasil é forte. A eventual parceria com um artista brasileiro ainda pode reativar esse interesse, mesmo que por ora Bad Bunny tenha dito que não faria duetos sem conhecer melhor os músicos locais e sentir desejo genuíno de colaboração. Depois da visita, esse cenário pode mudar.
De qualquer forma, a permanência dessa identificação entre cultura brasileira e a pulsação de Bad Bunny não depende apenas de música. A sonoridade dele, que carrega uma matriz africana comum aos ritmos do país, somada a elementos visuais — como a capa do álbum DtMF (com cadeiras de plástico diante de bananeiras) — reforça a noção de uma conexão que transcende fronteiras. Conforme lembra o pesquisador, “temos idiomas diferentes, mas nossos universos conversam: todos compartilham histórias de colonização e enfrentam o mesmo pulso de impérios”.
Fato é que, independentemente do ritmo das paradas, o fenômeno já deixou um rastro claro no Brasil: o público fica atento, o debate fica aceso e a cidade que mais ouve música própria do mundo passa a acompanhar mais de perto a trajetória de Bad Bunny.