Delcy Rodríguez no fio da navalha — cartas da presidente da Venezuela

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A corda bamba de Delcy Rodríguez — e as cartas na manga da presidente da Venezuela

A presidente interina precisa equilibrar a adesão a uma base leal com as pressões externas, especialmente de Donald Trump, enquanto o país busca manter a ordem e atrair investimentos

No coração de Caracas, alonga-se uma linha tênue entre o que a Delcy Rodríguez representa no dia a dia e as pressões que chegam de fora. Em uma virada de roteiro, a ampla exibição de drones no céu noturno — um show organizado pelo governo venezuelano — projetou a imagem de Nicolás Maduro ao lado de sua esposa, Cilia Flores, para simbolizar força e continuidade. O recado na tela, em espanhol, era direto: “El pueblo los reclama”, ou seja, o povo os quer de volta. E a pergunta que fica é: qual o custo político de manter essa narrativa?

Desde a operação relâmpago que levou o casal deposto a deixar o país, em 3 de janeiro, a Venezuela entrou num limbo diplomático. Delcy Rodríguez, ocupando o posto de presidente interina, precisou navegar entre a fidelidade à base chavista e as pressões de um cenário internacional cada vez mais ativo — com destaque para o governo de Donald Trump. Enquanto canta promessas de estabilidade, ela também precisa calibrar políticas para não provocar perdas internas e, ao mesmo tempo, atrair órgãos internacionais e investidores que possam reativar a economia estagnada.

Na prática, Rodríguez tem atuado como uma espécie de equilíbrio entre dois polos. Por um lado, mantém o discurso anti-imperialista que ancora o seu eleitorado. Por outro, implementa mudanças pragmáticas para não afastar o capital externo: abriu espaço para que empresas petrolíferas norte-americanas operem no país e liberou políticos e defensores dos direitos humanos que estavam detidos havia meses ou anos. A justificativa oficial é que o país precisa de um caminho prático para sair do abismo econômico; a oposição, porém, aponta que muita gente continua atrás das grades devido à pressão externa. A delicadeza dessa linha de atuação é o que define a credibilidade de Rodríguez dentro e fora do país.

Entre o que se lê nas telas de Caracas e o que chega de Washington, a tensão é visível. De um lado, Trump já sinalizou que a Venezuela pode virar um protetorado americano, o que, segundo analistas, seria um marco poderoso para quem administra o país. Do outro, Rodriguez precisa manter um diálogo, ainda que tenso, com as forças que apoiam o líder deposto — o que a leva a reconhecer conversas com o governo americano, ainda que sob condições de cortesia e de respeito mútuo. E quanto menos barulho houver, mais ela parece ganhar espaço para conduzir o país para uma fase mais estável e menos volátil; mas a pergunta persiste: até quando?

As discussões também passam pelo papel dos militares e de figuras associadas ao chavismo. Enquanto Diosdado Cabello — hoje uma figura central na estrutura de poder — detém enorme influência sobre as forças de segurança, Rodríguez precisa manter uma relação cuidadosa com ele para evitar desestabilizações. O apoio dos militares é visto como crucial para que as decisões políticas não se per camadas, especialmente diante de uma alta exposição internacional. A ideia de um “policial bom, policial mau” circula entre analistas, sugerindo que Rodríguez e Cabello até onde podem, trabalham uma parceria que, na prática, busca assegurar governabilidade sem deixar espaço para a intrusão de interesses que desequilibrem o jogo político.

Para quem analisa o cenário, há uma constante tensão entre pragmatismo e manutenção de uma base ideológica. Segundo Christopher Sabatini, especialista que acompanha a região, o foco é manter a coesão com o projeto chavista, sem se apagar por completo da linguagem que já foi o motor de anos de mobilização. Já a Ana Milagros Parra aponta que o desafio é antigo: manter o apoio popular ao mesmo tempo em que se oferece sinais de melhoria econômica e administrativa. O alinhamento com os Estados Unidos, mesmo que superficial, é visto como uma alavanca para desbloquear acordos que tragam liquidez ao país. Nesse cenário, Rodríguez precisa equilibrar as vozes que a cercam, sem abrir brecha para que seus apoiadores se afastem.

Enquanto isso, a economia persiste como a maior dor de cabeça da vida cotidiana venezuelana. A inflação continua alta, o custo de vida disparou e a pobreza se manteve entre os temas centrais de debate público. Pesquisas de 2025 sinalizam que uma cesta básica representa um valor expressivo, o que aumenta a pressão por investimentos que reprisem a produção interna. No centro dessa discussão está a expectativa de que a ajuda externa — principalmente em termos de setor petrolífero — possa reacender a economia, tornando possível uma retomada sustentável para comunidades que já sofreram anos de instabilidade.

Entre as peças do quebra-cabeça também aparecem as chamadas “coletivos”, grupos de apoio que atuam como contingentes às ordens de segurança. Rodríguez precisa manter o equilíbrio com esses grupos, que funcionam como uma espécie de braço de força para assegurar a autoridade do governo. E, ao lado disso, a mira internacional sobre Cabello — cuja captura é uma recompensa significativa — reforça a ideia de que o entrelaçamento entre poder interno e interesses externos é uma faca de dois gumes: oferece alicerce para manter o governo, mas eleva o risco de conflitos internos caso haja rupturas maiores.

Como fica, afinal, a leitura para o cidadão comum? Os especialistas apontam que a líder venezuelana precisa consolidar uma trajetória que combine resultados econômicos com uma narrativa política capaz de manter a base apoiadora, sem abrir mão da capacidade de dialogar com o que vem de fora. Entre promessas de eleições e a necessidade de paz social, a primeira linha de ação de Rodríguez parece ser: manter o equilíbrio entre o que o país precisa hoje e o que o cenário global exige. Será que essa estratégia, por vezes áspera, pode virar uma virada que leve a Venezuela a uma nova fase? No fim das contas, a resposta pode depender menos de palavras bonitas do que da capacidade de transformar promessa em resultado concreto para a vida das pessoas.

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Jornalista

Renata Oliveira

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