Venezuelanos estão divididos entre esperança de voltar para casa e desconfiança sobre o futuro do país
Os venezuelanos espalhados pela América Latina dizem que estão começando a avaliar se podem ter um futuro no país, diante de mudanças políticas e de um cenário econômico instável que continua pairando sobre a nação.
Ao longo dos últimos anos, Cerca de um quarto da população venezuelana deixou o país, buscando abrigo na América Latina, no Caribe, na Espanha e nos Estados Unidos. O movimento migratório foi impulsionado pela crise econômica, pela gestão do petróleo e pela percepção de que mudanças políticas poderiam abrir espaço para eleições democráticas e uma saída para o colapso que se arrasta há anos. No dia a dia, essas famílias se reconhecem em diferentes realidades: entre a saudade de casa e o receio de reviver instabilidade.
Entre quem olha para o retorno com cautela, está Juan Carlos Viloria, médico que atua ajudando comunidades imigrantes na Colômbia. Em conversa com quem está no terreno, ele afirma que a Venezuela precisa do retorno de exilados para reconstruir instituições e fortalecer a economia. “Quero participar desse retorno. Quero participar da reconstrução da Venezuela. Sei que ela vai precisar de muitos dos talentos que deixaram o país”, disse ele, sinalizando que a colaboração internacional pode ser parte da solução.
Mas não é simples. A conjuntura que se desenha no continente não garante tranquilidade. Do lado da oposição, a ex-vice-presidente do governo de Maduro, Delcy Rodríguez, aparece como figura central, com o apoio de setores que reconhecem transformações rápidas como necessárias para devolver à Venezuela a normalidade. Enquanto isso, o cenário de incerteza se agrava após a captura de Maduro no início de janeiro, o que provocou deslocamentos e debates em comunidades no nordeste da Colômbia, próximas à fronteira com a Venezuela, onde mais venezuelanos chegaram na esperança de encontrar trabalho e evitar a instabilidade.
Entre os imigrantes entrevistados em diferentes países — Colômbia, Peru, Chile, México e Panamá — está a percepção de que Washington pretende “governar” de alguma forma o destino da Venezuela, sem um cronograma claro para eleições. Nesse contexto, surgem dúvidas sobre o que realmente está por vir e quais caminhos o país pode trilhar no médio prazo. Viloria é um dos que observam que qualquer decisão envolvendo o retorno deve levar em conta a segurança, as liberdades políticas e a possibilidade de reconstrução institucional.
No território americano, a presença de venezuelanos na fronteira sul passou a representar um traço marcante da política de imigração adotada pela gestão de então. Entre quem viveu essa experiência, está Nélia Carrasco, que se mudou para o Chile em 2019 após o pai, um oficial, ter sido preso pelo governo de Maduro. Ela confessa o desejo de regressar para ver a família e saborear novamente as arepas, mas teme que a situação para prisioneiros políticos e seus familiares ainda esteja comprometida. “Não é como se a Venezuela ainda fosse livre… Ainda há muitas pessoas, pessoas muito vulneráveis, sob o poder daqueles que promovem a repressão”, desabafou.
Já a líder da oposição, vencedora do Prêmio Nobel da Paz, Maria Corina Machado, sustenta que a transição de poder precisa acontecer o quanto antes para que os venezuelanos possam retornar às suas casas. No entanto, o desejo de voltar não é uma meta para todos. Néstor Paredes, morador da Cidade do México, expressa que tem uma vida construída fora do país e não acredita que será possível viver novamente na Venezuela; mesmo assim, pretende manter um vínculo próximo com a família e retornar para abraçar quem ficou para trás, mesmo que seja apenas para um reencontro breve.
Entre as dúvidas que pairam no ar está a curiosidade sobre quais planos os EUA teriam para o futuro da Venezuela, ainda mais com o interesse em acessar as reservas petrolíferas e com a figura de Delcy Rodríguez em foco. Ainda assim, há quem espere que qualquer mudança seja para melhor. Luis Díaz, que havia deixado o país há um ano e tentou se estabelecer no México com o filho, acabou voltando diante da ausência de documentos após uma passagem pelo Panamá — uma história que exemplifica como a distância também redefine as escolhas no cotidiano.
No fim das contas, a decisão de retornar ou ficar pode remodelar de forma radical o destino venezuelano. A diáspora vem redesenhando a demografia das Américas ao longo dos anos, e o debate sobre o que realmente pode mudar em casa ganha força entre quem observa de fora e entre quem continua no país, dia após dia.