Sorrentinos: a história da massa que une a Itália à Argentina
No livro “Os Sorrentinos”, a autora Virginia Higa mescla memória e ficção para retratar a trajetória de uma família de imigrantes italianos na Argentina
Entre as páginas que cruzam continentes, há uma massa que carrega memória e identidade: os sorrentinos. Em Os Sorrentinos, a narradora Virginia Higa costura lembranças pessoais com ficção para contar a saga de uma família italiana que escolheu a Argentina como chão de vida. A trama acompanha Chiche, que parte de Sorrento para se estabelecer em Mar del Plata, onde a família inaugura, primeiro, um restaurante e, logo depois, uma trattoria à beira-mar. A obra, portanto, é também um olhar sobre o modo como o alimento pode traduzir memória, tradição e afeto para uma nova casa.
No cerne da narrativa aparecem três pilares que dão sustento à história: a trajetória do restaurante e da própria massa dos sorrentinos; o itinerário do protagonista Chiche; e o léxico familiar, aquele conjunto de expressões que a família utiliza no dia a dia. Esses elementos se entrelaçam para revelar não apenas uma biografia, mas também a construção de uma identidade que nasce na interseção entre culturas distintas.
Quanto à fronteira entre o que é real e o que é ficção, a autora explica que a faísca vem de pessoas reais e de um restaurante de fato existente. Contudo, ao transformar o material em romance, cada voz acrescenta uma camada de interpretação. Assim, a história ganha uma natureza coletiva, filtrada pela memória de quem conta e pela vontade de recontar o passado com ritmo literário. O resultado é uma narrativa que celebra a força das lembranças, mesmo quando elas se misturam com a imaginação.
A obra mergulha de cabeça na fusão entre culturas: a autora herda uma linha de antepassados italianos e portugueses pelo lado materno, enquanto o pai traz raízes japonesas. Esse mosaico familiar reforça a ideia de que nada é totalmente puro; a identidade é resultado de encontros, misturas e apropriações que ampliam a visão de mundo. No dia a dia, esse entrelaçamento se traduz em hábitos, sabores e formas de ver a vida que dialogam entre si.
Há também um ponto central: a comida como memória em movimento. Quando a língua original pode se perder entre gerações, os pratos funcionam como elo vivo com os ancestrais. O livro aponta que, em muitos lares, a mesa é o lugar onde histórias são contadas, transmitidas e, às vezes, renegociadas. Nesse sentido, os sorrentinos viram muito mais do que apenas uma receita — tornam-se um legado compartilhado que atravessa décadas e fronteiras, provocando reflexões e encontros entre leitores de diferentes culturas.
Além disso, a obra sugere curiosidades sobre maneiras de comer. Tanto os italianos quanto os japoneses aparecem com traços de rigor e de ritual na prática cotidiana de alimentar-se, o que acrescenta camadas de humor e de observação sociocultural ao enredo. No fundo, a história convida o leitor a pensar: como pequenas regras na hora de comer revelam grandes traços de uma comunidade? E, no fim das contas, o que esse cuidado com a comida diz sobre quem somos?
A recepção de leitores de outros países já começou a abrir caminhos para novas leituras: mesmo sendo fortemente argentina em sua base, a narrativa encontra eco em quem valoriza memórias familiares, migração e o poder da cozinha como testemunha histórica. É interessante observar como a tradução e a circulação da obra ganham força quando atravessam fronteiras, inclusive com a participação de uma tradutora brasileira que ajudou a levar o título a editoras do Brasil. O fenômeno reforça a ideia de que a universalidade das histórias está justamente na experiência de sentir na prática o peso da herança, do lugar e do alimento.
Em síntese, Os Sorrentinos é um romance que celebra a memória, a cidade de origem, a mistura de culturas e o papel da comida na construção de identidades. A leitura deixa uma pergunta no ar: até que ponto a comida pode manter vivo o vínculo com quem já partiu? E, para o leitor, qual prato da nossa mesa cotidiana pode revelar mais sobre quem somos do que imaginamos?