Bolsonaro como Bozo e críticas a evangélicos: como foi o desfile em homenagem a Lula contestado no TSE
Corte ainda vai avaliar se houve crime eleitoral como campanha antecipada e abuso de poder
No clima do Carnaval carioca, a Acadêmicos de Niterói abriu o desfile do grupo especial no Rio, dedicado ao presidente Lula e marcado por críticas a opositores do governo. Sob o olhar atento da Justiça Eleitoral, a escola chegou a abrir um debate sobre possível campanha antecipada, já que o tema escolhido evocava o petismo com detalhes que irritaram adversários. O TSE deliberou sobre o tema, recusando, na prática, uma proibição total do desfile, mas deixando claro que o teor do espetáculo continua sujeito a escrutínio pela Justiça.
A apresentação encantou parte do público que apoia o governo e gerou reação veemente entre opositores. O ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje principal desafiante de Lula, foi alvo de várias menções ao longo da passagem pela avenida. Logo na linha de frente, atores encenaram momentos recentes da política brasileira com uma leitura claramente favorável ao PT. Máscaras de Lula e de Dilma Rousseff foram usadas para retratar episódios políticos, incluindo a suposta transformação do impeachment em golpe, sob a perspectiva da encenação.
Em meio às cenas, o elenco mostrava o ator que interpretava Lula cercado por grades enquanto Bolsonaro aparecia, representado por um palhaço caracterizado de Bozo, surgindo entre as grades e recebendo a faixa presidencial de Temer. No quarto carro alegórico, o Bozo reapareceu atrás das grades, simbolizando a prisão de Bolsonaro por suposta tentativa de golpe. Já a ala “Neoconservadores em conserva” provocou forte reação entre bolsonaristas, com presença de parlamentares próximos ao governo, como a senadora Damares Alves e o deputado Nikolas Ferreira, que protestaram contra o tom da ala.
Segundo a própria descrição da ala disponível aos espectadores, a fantasia trazia uma lata de conserva defendendo a ideia de família tradicional, com um núcleo formado por um homem, uma mulher e os filhos. A manifestação de Damares Alves acusou a escola de “perseguição religiosa” e prometeu ação judicial por supostamente desrespeitar a fé de milhões de brasileiros. A crítica também envolveu o uso de verbas públicas para financiar o desfile, com financiamentos distribuídos entre as 12 escolas do grupo, o que elevou o debate sobre o papel do Estado no evento.
O financiamento público do Carnaval envolve a Embratur, com repasses que somaram bilhões de reais para a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) e, por sua vez, para as próprias agremiações. Entre os números citados, observa-se que a Académicos de Niterói reuniu verbas vindas de diferentes esferas — prefeitura de Niterói, governo estadual, governo federal via Embratur e prefeitura do Rio — totalizando valores próximos a R$ 9,65 milhões, com o montante maior vindo da prefeitura municipal de Niterói. O conjunto da distribuição regional também envolve a Liesa, que administrou um montante considerável de recursos públicos para o carnaval do estado, em especial para as doze escolas.
Durante a transmissão, a Globo trouxe uma narração contida da apresentação, destacando que o financiamento ocorre de modo contratual com a Liesa e que os valores devem, em tese, ser distribuídos de forma igual entre as agremiações. Ainda assim, houve a participação de personalidades em momentos-chave: o ator Paulo Vieira interpretou Lula e a atriz Dira Paes representou a mãe do presidente, Dona Lindu, em cena que mostrou a migração da família do interior de Pernambuco para São Paulo na infância do líder petista.
O refrão tradicional do samba-enredo não passou despercebido: “Olê, olê, olê, olá / Lula, Lula”. A letra também menciona o número 13 do PT e faz referências indiretas a Jair Bolsonaro com passagens que insinuam defesa da soberania e críticas a narrativas de gratuidade ou anistia, gerando debate sobre se haveria apelo eleitoral camuflado na apresentação. O próprio Lula acompanhou a folia do camarote da prefeitura do Rio, sem desfilar na avenida com a escola, enquanto a primeira-dama Janja Lula da Silva abriu mão da participação pública em meio às controvérsias.
Antes do desfile, o PT publicou orientações para seus militantes no Rio, pedindo discrição em relação a símbolos do partido, à sigla “13” e a menções a 2026, bem como para evitar ataques a pré-candidatos nas redes sociais. O recado final reforçava que descumprir as recomendações poderia prejudicar o PT e o próprio presidente Lula. Procurado, o Palácio do Planalto não se pronunciou. A BBC News Brasil também buscou a Acadêmicos de Niterói, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.
Para especialistas, o desfile abriu uma discussão sobre os limites entre homenagem cultural e propaganda política. O jurista Alberto Rollo, que analisou o caso após o evento, apontou “excessos” que podem gerar punição, mesmo sem um pedido explícito de voto. Ele destacou que referências a slogans de campanha e ao número de campanha podem ser interpretadas como “palavras mágicas” que induzem o eleitor. Outros colegas, porém, discordam de uma leitura unívoca de crime eleitoral, especialmente por não haver participação direta da Presidência nem uso de recursos de forma irregular. Ainda assim, o debate sobre abuso de poder econômico e uso da mídia para favorecer uma eventual candidatura é tema que fica em pauta, a depender da decisão do TSE.
Entre críticas e defesas, o que fica para o dia a dia é a pergunta: qual é o limite entre entretenimento e política eleitoral em um palco tão grandioso quanto o Carnaval? No fim das contas, resta a sensação de que o tema polariza a sociedade, convertendo a avenida em praça de discussão pública, com consequências que vão além do brilho dos carros alegóricos.