Ex-presidente colombiano: Trump quer expulsar China da América Latina

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Samper: Trump tenta frear a influência chinesa na América Latina

Para o ex-presidente colombiano, a aproximação China-América Latina explica a pressão dos EUA na Venezuela e aponta caminhos para uma transição democrática na região

Em entrevista concedida por videoconferência de Bogotá, o ex-presidente Ernesto Samper (75) sustenta que o que de fato incomoda Trump não é apenas a economia ou as terras, mas a presença positiva da China na América Latina. Segundo ele, a atual estratégia dos EUA na Venezuela e em outros países nasce, em grande medida, de uma leitura de que a China está ocupando o espaço que os americanos já haviam aberto com investimentos em infraestrutura e comércio na região.

Samper lembra que a China hoje é o principal elo comercial de nações como o Brasil, o Chile e o Peru, com fluxos de capitais que atravessam fronteiras e setores estratégicos. Na prática, isso tem deixado os EUA mais tensos sobre a capacidade de cooperação regional e de influência na região, segundo ele. “Há quem entenda que o que realmente preocupa a administração americana é o peso que a China vem ganhando, percorrendo justamente o caminho que eles deixaram aberto”, afirma.

Sobre a Venezuela, o ex-presidente colombiano comenta que a intervenção norte‑americana provocou surpresa e gerou uma onda de indignação na América Latina. Ele destaca que, ainda que as intervenções norte‑americanas na região sejam parte de um histórico longo, o episódio recente rompeu com o que muitos chamam de zona de paz no continente. Além disso, ele aponta o cartel de Soles como um elemento que já não sustenta as acusações que vieram à tona, o que, na visão dele, enfraquece o argumento de uma intervenção com base em narcotráfico ou criminalidade.

Apondo para o cenário político venezuelano, Samper descreve Delcy Rodríguez – atual presidente em exercício – como uma líder competente, com boa formação e forte capacidade de diálogo entre setores econômicos e militares, bem como com a oposição. “Ela tem a habilidade de manter pontes e dialogar com diferentes players”, reforça. O interlocutor relembra que, durante seu tempo na Unasul, já conhecia Rodríguez e que a mantinha próximo de Maduro, o que, segundo ele, facilita a construção de um eventual acordo de transição.

Quanto à leitura sobre o papel dos EUA, Samper afirma que a ideia de “intervenção institucional” para sustentar regimes aliados é um tema recorrente na casa brasileira e europeia, mas que a questão vai além do petróleo. Em suas palavras, há uma leitura estratégica de que as terras raras, hoje também associadas a avanços tecnológicos como a inteligência artificial, entraram na equação. “No fim das contas, o objetivo é frear a ascensão chinesa na região”, resume, sugerindo que a disputa não é apenas ideológica, mas tecnológica e econômica.

No âmbito da Colômbia, Samper cita a relação entre Petro e Trump como um movimento que pode evitar a interferência externa nas eleições colombianas. Ele ressalta que o diálogo com Washington é essencial, principalmente para reduzir o risco de envolvimento direto dos EUA na política interna colombiana. Já no plano venezuelano, ele aposta em uma via de transição que inclua a participação de actores relevantes – militares e civis – para garantir que a mudança de poder ocorra sem rupturas institucionais, com eleições livres no fim do caminho.

Ao discutir o que seria um caminho viável para a Venezuela, o ex‑presidente colombiano propõe um conjunto de condições que, na prática, sinalizam uma saída menos traumática. Entre elas, a recuperação da economia venezuelana através da liberação gradual de condições de bloqueio externa, a libertação de presos políticos e a construção de um mapa de transição que leve a eleições livres após uma reforma constitucional capaz de reequilibrar o poder entre ramos do governo. Em sua leitura, entregar o governo à oposição não seria solução preferível, pois representaria “trocar a frigideira pelo fogo”.

Sobre o cenário internacional, Samper observa que a Europa também vive seu próprio momento de redefinição. A combinação de crises europeias, tensões com a Rússia, a situação na Ucrânia e o ritmo de recuperação econômica, segundo ele, abre espaço para que a União Europeia se liberte de uma dependência militar dos EUA. Nesse sentido, a Groenlândia aparece como um símbolo das tensões entre visão expansionista e necessidade de cooperação global, e ele sugere que a resposta europeia pode forçar uma reconfiguração de alianças.

Quanto à integração regional, o ex‑presidente lamenta que a UNASUL tenha se esfacelado e que a CE-LAC permaneça sem poder real de ação. Ainda assim, ele reconhece avanços pontuais, como o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia e o Pacto Amazônico. Segundo ele, a chave para o futuro está em restabelecer o fio condutor da integração regional, reconhecendo que regimes presidencialistas, tal como o brasileiro, herdaram os defeitos de modelos que não favorecem uma governança estável. A saída, conclui, pode passar por uma transição que aproxime modelos parlamentaristas, com eleições regulares e pacíficas, sem rupturas institucionais.

Por fim, Samper reflete sobre o impacto dessas dinâmicas no dia a dia do leitor: a política externa molda investimentos, empregos e oportunidades de consumo na região. Em uma leitura prática, o que está em jogo é a forma como a América Latina dialoga com grandes potências, define seu próprio projeto de desenvolvimento e constrói mecanismos de governança que resistam a pressões externas sem desvalorizar a democracia interna. No ritmo da leitura, fica a lembrança de que escolhas regionais costumam beneficiar ou desafiar diretamente a vida de cada cidadão.

É nesse duplo front, entre o peso da China e a influência dos EUA, que a América Latina volta a se perguntar: qual caminho levará a uma região mais integrada, mais estável e mais justa para a população?

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Jornalista

Sarah Martins

Jornalista especializada em lifestyle e decoração. Responsável por criar guias, tutoriais e reviews que realmente ajudam nas escolhas.

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