Latinos que votaram em Trump desiludem: preços prometidos não caíram

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Os latinos eleitores de Trump desiludidos com seu governo: ‘Ele prometeu que os preços iriam cair, e não caíram’

Depois de eleger Trump para a Casa Branca em uma virada histórica, alguns latinos sentem que ele não está melhorando a economia.

Entre os eleitores latinos que apoiaram Donald Trump na corrida de 2024, o entusiasmo vem dando lugar à frustração prática. Muitos citam a economia como a questão central no dia a dia, especialmente diante de preços que não recuam conforme o prometido. Em relatos de moradores de áreas com forte presença latina, a memória da promessa de “fortalecer os EUA” fica marcada por um preço de vida mais caro, lembrando que o dinheiro não rende como antes.

Foi assim que, em 2024, Trump conseguiu chegar à vitória isolando um segmento que representa o maior conjunto de eleitores não brancos do país — os latinos. Naquela corrida, o republicano atingiu um recorde entre esse grupo, obtendo 46% do voto latino, até então o maior índice já registrado para um candidato republicano. E, mesmo com o tempo passando, o cenário parece ter se revelado mais complexo do que o entusiasmo inicial sugeria.

Agora, pouco mais de um ano depois do início deste mandato, surgem sinais de desgaste entre esse eleitorado. Uma nova pesquisa da CBS News, em parceria com a BBC, aponta que a porcentagem de latinos que aprovam a forma como Trump lida com a economia caiu para 38%, frente ao pico de aprovação registrado no começo de 2025, quando chegou a 49%. O recuo é significativo e acende o debate sobre o que está pesando na balança econômica de cada família.

É importante lembrar: o voto latino é diverso, reunindo comunidades de tamanhos, origens e condições econômicas distintas. Ainda assim, esse grupo soma mais de 36 milhões de pessoas, constituindo o maior bloco de eleitores não brancos do país. A leitura comum é que a economia, mais do que qualquer outra pauta, orientou grande parte do recado do voto latino de 2024.

A constatação não é apenas um dado isolado. Um aspecto recorrente nas avaliações é que o apoio a Trump em 2024 surgiu, em grande medida, da insatisfação com a economia durante a gestão de Joe Biden. Segundo o Pew Research Center, 93% dos latinos que votaram em Trump apontaram a economia como a principal preocupação — enquanto questões como criminalidade violenta e imigração ficaram atrás. As mesmas dúvidas, no entanto, começam a retornar ao radar neste semestre.

Para a CBS, a oposição à condução econômica de Trump tem ganhado espaço, com 61% dos latinos desaprovando o manejo do tema, e 69% desaprovando a abordagem de inflação. Em muitos relatos de leitores, o coração da percepção sobre a economia é basicamente quem consegue pagar as contas e manter o poder de compra no carrinho do supermercado.

Entre especialistas, o viés econômico aparece como motor de mudança. O estrategista republicano Mike Madrid, conhecido por acompanhar a política latina, sugere que a erosão de confiança entre eleitores latinos pode exigir de Trump o alinhamento de mensagens — não apenas de retórica. Para ele, a maior parte dos latinos votou no 2024 movida pela sensação de “ninguém está entregando resultados” em Washington.

Dados de campo de cidades com forte presença latina ajudam a entender o retrato no cotidiano. Em áreas ao norte da Filadélfia, onde a comunidade latina é robusta, eleitores relatam que o custo de vida está apertando o orçamento familiar. Um morador, que trabalha na área de redução de danos de drogas, afirma que a percepção de responsabilidade por parte do governo é compartilhada, mesmo que os efeitos diretos de políticas ou anúncios pareçam amplificar o peso do dia a dia.

Quem observa o mercado imobiliário também encontra o sameira: anos de inflação e preços mais altos se repetem, com a impressão de que promessas não se transformam em queda real de preços. Even assim, há quem reconheça aspectos positivos nos esforços do governo para atrair investimentos, o que, na prática, poderia sinalizar um caminho de recuperação para setores estratégicos.

No conjunto de dados oficiais de dezembro de 2025, a inflação nos EUA foi de 2,7% ao ano, e a inflação de alimentos ficou em 3,1%. A meta do Fed permanece em torno de 2%, o que ajuda a entender por que muitos veem as quedas anunciadas como tímidas. Em paralelo, o paralelo com a dinâmica de outros países fica claro: o Brasil, por exemplo, fechou 2025 com uma inflação anual de 4,26% e alimentos com 2,95%, ainda que com a própria meta de juros em mira.

Diante desse cenário, Trump insiste em atribuir os tropeços econômicos a gestões anteriores, em especial à administração de Biden. Enquanto a inflação atingiu seu ponto mais alto em 2022, de 9,1%, o índice recuou para níveis bem menores até o fim do mandato de Biden, em torno de 2,9%. A leitura de parte dos eleitores é que a percepção de melhoria depende de uma composição de fatores que ainda não se consolidou.

Entre as próprias comunidades latino-americanas, surgem vozes que tentam entender a dimensão prática dessas mudanças. Lydia Dominguez, natural do México e veterana da Força Aérea, que atua no conselho escolar de Las Vegas, diz que manter a economia nos trilhos tem sido um desafio, ainda que reconheça avanços na atração de empresas e em iniciativas que dão maior autonomia a empresários e trabalhadores. No dia a dia, os ajustes continuam, e cada família faz as contas com o que tem.

Para muitos apoiadores fiéis, a relação entre políticas migratórias e economia gera ambivalência. Amanda Garcia, criadora de gado no Texas, afirma que, embora a satisfação com aspectos da gestão seja visível, atos públicos que afetam o comércio e tarifas podem desorganizar o mercado, provocando impactos diretos na produção. Em resumo, a percepção de governança fica dividida entre pontos positivos e interferências que podem pesar no preço final.

Já sobre a imigração, o debate permanece aceso. A operação de fiscalização em larga escala, com deportações de centenas de milhares de pessoas, gerou desconforto em comunidades de trabalho envolvendo imigrantes legais e cidadãos norte-americanos. De maneira geral, a pesquisa aponta que cerca de 70% dos latinos desaprovam a forma como Trump conduz a migratória, bem acima da média nacional. Ao mesmo tempo, uma parcela expressiva do próprio eleitorado latino entende que, em certos contextos, medidas mais rígidas podem proteger empregos e meios de subsistência de quem já está no país de forma regular.

Entre os que prestigiam o diálogo com a política, há quem defenda uma linha firme de controle de fronteiras. Ainda assim, parte dos latinos que votaram em Trump reconhece que a repressão migratória pode ter excedido limites, o que alimenta uma conversa interna sobre equilíbrio entre segurança e compaixão. Em palavras de quem observa a cena do dia a dia, há quem peça pelos direitos de quem já está em território americano e pelo respeito às regras; afinal, todos querem contribuir para o país.

O debate permanece vivo também entre quem viu na candidatura de Trump uma resposta a problemas que pareciam não ter solução. O estrategista Mike Madrid observa que, para reverter o desaprovação entre latinos, seria necessário ajustar a narrativa pública e demonstrar resultados consistentes. No fim das contas, o público latino continua entre a necessidade de ver conquistas econômicas reais e a expectativa de uma política que reconheça as peculiaridades de cada comunidade.

No radar dessas conversas, cresce a ideia de que o apoio a Trump pode oscilar conforme a percepção de quem tem mais a perder com as oscilações da inflação, do custo de vida e da posição frente à imigração. E, entre quem acompanha o desenrolar político, fica a sensação de que a comunidade latina permanece dividida entre ceticismo e esperança — esperando que esse segundo mandato traga as mudanças prometidas, com menos ruídos e mais resultados práticos para o dia a dia de quem trabalha, paga as contas e sonha com um futuro mais estável para a família.

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Jornalista

Mariana Silva

Personal organizer que adora soluções práticas para casa. Especialista em maximizar espaços pequenos com produtos inteligentes.

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