A birra de Lula com o STJ
Fantasma da Lava-Jato ainda assombra o presidente, que revelou ressalvas ao tribunal em conversa com ministros do Supremo
No radar das conversas políticas, Lula surge com a memória recente de confrontos com o Superior Tribunal de Justiça. Prestes a tentar a reeleição, o presidente é citado em relatos como alguém que carrega um trauma com o tribunal, alimentado pelos desgastes da Lava Jato e pelos julgamentos que não lhe deram votos favoráveis. Em conversas com ministros do STF, ele teria aberto ressalvas ao funcionamento do STJ, sinalizando que o tema não ficou no passado.
Essa leitura se sustenta especialmente ao olhar para a Quinta Turma, o nicho que julga processos da Lava-Jato. Na prática, Lula não viu, no decorrer dos julgamentos mais duros, o apoio que esperava dentro do colegiado. O rastro desse momento reverbera em sua leitura sobre o caminho de futuras indicações para o STF e sobre a influência do STJ no desenho político de 2026.
Além disso, o cenário trouxe à tona a decisão não de apressar a abertura de vagas no STJ — nem de colocar em pauta nomes que pudessem chegar ao STF. No meio dessa leitura, aparece a indicação de Marluce Caldas ao STJ, tia do prefeito de Maceió, João Henrique Caldas, conhecido como JHC. Filiado ao PL, ele tem feito acenos ao presidente Lula e deve renunciar ao mandato para concorrer ao Senado numa dobradinha com o senador Renan Calheiros. A indicação é vista como parte de um movimento político para apoiar palanques em Alagoas para 2026.
No encontro entre Lula e ministros do STF, o tema da indicação do Advogado-Geral da União Jorge Messias para o STF voltou a ganhar relevância, reforçando a leitura de que as conversas sobre o tema seguem em curso, ainda que com cautela. Na prática, esse conjunto de sinais aponta para uma estratégia que cruza governo, cortes superiores e o calendário eleitoral que se anuncia para 2026.
Na prática, quem acompanha o assunto aponta para a dureza dos julgamentos da Quinta Turma como a vida real do momento: Lula ainda não supera o tom da época, e a ausência de votos favoráveis no colegiado é lembrada como um entrave na trajetória política dele. Essa memória influencia, inclusive, a forma como o governo avalia possíveis nomes e o timing certo para tratá-los com o STJ.
Quem esteve por dentro do tema relembra que, naquela fase, o conjunto de julgadores era formado por Félix Fischer, relator da Lava-Jato e indicado por Fernando Henrique Cardoso; Jorge Mussi, indicado por Lula; Reynaldo Soares da Fonseca, Ribeiro Dantas e Joel Ilan Parcionik, todos indicados pela Dilma Rousseff. Eles costumavam votar em uníssono contra os réus da Lava Jato; em algumas sessões, Parcionik acabou ausentando-se por ter o mesmo advogado da Petrobras, o que reforçou o entrelaçamento entre casos e interesses.
Fontes que acompanharam aquele período dizem que a suposta decepção não nasceu apenas do desgaste, mas da leitura de que poucos nomes dentro do STJ mereciam um lugar no STF — ou, ao menos, que Lula não reconheceria qualquer integrante como possível ministro da alta corte naquele momento. Foi um sinal de que o relacionamento com as cortes não seria simples nem imediato, exigindo, antes de tudo, leitura estratégica para o cenário de 2026.
Vale mencionar que, pouco menos de um ano antes, a nomeação de Marluce Caldas ao STJ foi interpretada por analistas como uma costura para formação de palanques em Alagoas na corrida de 2026. O cenário mostra como o jogo político se entrelaça entre tribunais e alianças locais, com o objetivo de consolidar forças para o próximo pleito.
No fim das contas, fica claro que a birra com o STJ não é apenas ruído: é parte de uma leitura de poder que mira o STF, os palanques estaduais e o caminho de 2026. Para o leitor comum, a lição é simples: as escolhas sobre quem ocupa o judiciário e quando avançar nelas são, antes de tudo, decisões de agenda eleitoral — e, no dia a dia, moldam quem pode dar apoio ou freio às aspirações de Lula no próximo ciclo.