Nikolas inicia marcha fria, cresce e agita redes após MT por Bolsonaro

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Marcha de Nikolas começa fria, cresce e agita redes após articulação Michelle-Tarcísio por Bolsonaro

Caminhada de Paracatu (MG) a Brasília começa com 40 pessoas, ganha adesão ao longo do trajeto e visa dar resposta a críticas de que parlamentares ‘não fazem nada’ pelo ex-presidente

A marcha que nasce como um gesto de protesto ganhou contornos de movimento estratégico ao longo da semana. Liderada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), a caminhada que parte de Paracatu, no interior de Minas, aponta para Brasília como destino final para cobrar posição sobre a prisão de Jair Bolsonaro, com o clipe de bastidores ensinando que o grupo tem trabalhado para dar voz às cobranças que a base faz aos parlamentares. No dia a dia, a soma de apoio cresce enquanto as redes ajudam a ampliar a mensagem, mantendo o tom combativo, mas sem perder o foco público.

A guinada decisiva veio na semana em que o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes autorizou a transferência de Bolsonaro da Polícia Federal para uma cela maior no presídio da Papudinha, em Brasília. A decisão, até então vista como um desfecho institucional, foi construída após a articulação entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) com ministros da Corte, deslocando o peso da cobrança para o eixo de aliados diante dos holofotes. Em meio a isso, surgiram relatos de que a relação entre Michelle e Tarcísio favoreceu um movimento que tenta consolidar a pauta de defesa do ex-presidente.

Uma pessoa próxima à família relatou ao jornal que a articulação entre Michelle e Tarcísio contrasta com a postura de alguns aliados que costumam criticar tais movimentos. Segundo essa visão, enquanto há quem faça barulho, há quem opere nos bastidores para buscar o que consideram o melhor para Bolsonaro. A percepção de que existem frentes distintas dentro do campo conservador ficou evidente para quem acompanha o toma-lá-dá-cá da política nos últimos dias.

Logo, as lideranças de direita passaram a defender ações nas redes, tentando traduzir o cansaço com a inércia em mobilização real. O deputado Gustavo Gayer (PL-GO), um dos primeiros a aderir à marcha, publicou nas redes uma mensagem de desabafo, afirmando que o objetivo é manter o impulso pela libertação de Bolsonaro e dos demais presos políticos, sem abandonar o trabalho nos bastidores. “Estamos atuando diariamente para ajudar Bolsonaro e Flávio, e assegurar a liberdade dos presos políticos. agir nas redes não nos impede de agir nos bastidores e buscar cada objetivo, mas sair das redes é justamente o que o PT e o sistema mais querem”, escreveu.

Foi então que Nikolas Ferreira anunciou, na segunda-feira, 19, a marcha como um “ato simbólico” para trazer esperança àqueles que já desistiram e aos que ainda se movem pela pauta. A ideia central era clara: caminhar até Brasília para iluminar o debate público e dar visibilidade a críticas sobre a atuação da própria direita diante da prisão de Bolsonaro.

A caminhada teve início em Paracatu, município de 94 mil habitantes no noroeste de Minas, na segunda-feira, com a meta de percorrer 250 quilômetros até a capital federal. No primeiro dia, cerca de 40 pessoas se deslocaram pela rodovia BR-040; com os dias seguintes, o grupo foi ganhando adesões e chegou a reunir centenas de participantes ao longo do trajeto. Nem todos vão completar o percurso inteiro, mas o objetivo é manter o ritmo de deslocamento diário até o dia marcado para chegar a Brasília.

Entre os nomes que se somaram à marcha estiveram lideranças como o ex‑verador Carlos Bolsonaro (PL-SC), os deputados Maurício do Vôlei (PL-MG), Zé Trovão (PL-SC), André Fernandes (PL-CE), Luciano Zucco (PL-RS), Delegado Caveira (PL-PA), Carlos Jordy (PL-RJ) e os senadores Magno Malta (PL-ES) e Marcos do Val (Podemos-ES), além de outros apoiadores de peso. Michelle Bolsonaro também manifestou apoio ao ato, elogiando a mobilização e destacando o papel de Nikolas na liderança do movimento.

Participantes relataram à imprensa um clima de união e a presença de figuras de centro e centro-direita, não necessariamente alinhadas às pautas mais explosivas do bolsonarismo. Diante do cansaço da caminhada, a conversa tende a se concentrar nas paradas e nas metas do trajeto: manter um ritmo que permita superar a meta diária mínima de 33 quilômetros, para chegar ao destino no tempo previsto.

Dentro do partido, há quem veja a marcha como uma resposta para calar o fogo amigo, segundo fontes que prefiram manter o sigilo. A ideia é mostrar que há mobilização organizada, mesmo quando as críticas apontam para uma suposta passividade entre parlamentares. Em Brasília, a expectativa é de que esse movimento sirva para manter a base mobilizada sem depender exclusivamente de Bolsonaro, que permanece afastado da cena pública.

Por outro lado, a deputada Bia Kicis (PL-DF) manteve posição discreta: segundo ela, o protesto não estaria vinculado à articulação entre Michelle e Tarcísio, mas admitiu que houve cobrança entre a militância para que haja resposta pública. Enquanto isso, a repercussão ganhou as redes com o monitoramento da empresa Palver, que acompanha mais de 110 mil grupos públicos de mensageria. O levantamento apontou que o assunto atingiu milhões de perfis na segunda e na manhã da quinta-feira seguinte, demonstrando o alcance da pauta no ecossistema digital.

Com o avanço da prisão de Bolsonaro, a leitura entre as lideranças da direita é de que é preciso manter a mobilização, ora para pressionar as instituições, ora para manter a base mobilizada para as próximas eleições. A articulação observada entre Michelle e Tarcísio, em meio a uma semana de acirradas críticas da militância e de aliados, reforça a ideia de que o bolsonarismo não está apenas dependente do ex‑presidente para se manter relevante. A proximidade entre o apoio da primeira-dama e um governador de peso sinaliza um eixo que pode influenciar a pauta pública nos próximos meses.

Enquanto o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera as pesquisas de intenção de voto, o bolsonarismo aposta na reativação de sua base, buscando manter a chama acesa para retomar o impulso político, mesmo sem Bolsonaro no centro das ações. No fim das contas, o movimento de Nikolas Ferreira apresenta-se como uma tentativa de traduzir dissenso em ação concreta, conectando o público a uma pauta de defesa da liberdade e de contestação de decisões que, para os apoiadores, parecem cercar o ex-presidente.

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Jornalista

André Santos

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