X burlaria sanções dos EUA e venderia contas premium a líderes do Irã

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X estaria burlando sanções dos EUA e vendendo contas premium a líderes do Irã

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Um relatório de monitoramento independente levanta suspeitas sobre uma prática preocupante envolvendo o fundador da empresa por trás de uma das redes sociais mais usadas no mundo. Segundo a avaliação, haveria duas frentes operando ao mesmo tempo na crise iraniana: de um lado, o discurso público de apoio a manifestantes e de outro, a venda de assinaturas premium a autoridades iranianas. A denúncia aponta que mais de 20 contas associadas a órgãos do governo, agências oficiais e veículos de imprensa estatais ostentavam o selo azul de verificação e recebiam propaganda patrocinada pelo governo, mesmo com parte da população sob restrições de acesso à internet. Além disso, as mensagens teriam sido amplificadas de modo a ampliar alcance e engajamento.

Segundo uma liderança de um grupo de especialistas em sanções, esse conjunto de ações não apenas eleva a visibilidade de indivíduos vinculados ao regime, como também envolveu transações financeiras que poderiam violar sanções norte‑americana. A afirmação ressalta que cobrar assinaturas premium de autoridades sancionadas e oferecer recursos extras pode representar uma forma de contornar as restrições impostas pelos EUA e por autoridades regulatórias.

Na prática, o período que se seguiu ao fim de dezembro trouxe o desdobramento das grandes comoções no Irã: protestos surgiram diante da desvalorização cambial e da crise econômica, com cidadãos pedindo mudanças no regime e a saída do líder supremo. A repressão foi marcante, com prisões e mortes relatadas. Enquanto isso, figuras de peso internacional ficaram, no dia a dia, acompanhando os desdobramentos. Em resposta, o mandatario de uma grande nação manifestou apoio aos manifestantes, em suas redes sociais, enquanto o líder de um conglomerado opinou que o líder iraniano era delirante. Em seguida, o chefe do judiciário do Irã usou a mesma plataforma para afirmar que não haveria misericórdia com os manifestantes. A conta citada perdeu o selo de verificação azul após a verificação desse contato pelo público.

Logo depois, a rede trocou o emoji da bandeira iraniana por um símbolo que já havia sido utilizado antes da revolução de 1979. Em paralelo, houve a divulgação de que serviços de internet poderiam ficar disponíveis gratuitamente via uma rede específica ligada ao dono da empresa. A conectividade, na prática, ficaria restrita a dispositivos sob controle dessa rede, diante de bloqueios impostos pelo governo local. Nesse cenário, indivíduos ligados ao governo iraniano passaram a figurar entre os perfis com o selo azul — sinal de uma assinatura ativa do serviço premium — enquanto o sistema tradicional de validação mudou para perfis de autoridades que não são chefes de Estado.

Entre os perfis identificados por quem analisou o material, está um assessor sênior do líder supremo do Irã, com expressiva base de seguidores e descrito pelas autoridades como parte do aparato repressivo. Também houve referências a um ex‑ministro das Relações Exteriores próximo ao círculo íntimo do líder iraniano, que perdeu o selo azul no mesmo dia. Outro perfil citado foi o chefe de comunicações da presidência, que chegou a compartilhar um link para doação em bitcoins. Especialistas lembram que tais transações poderiam configurar atividades proibidas com bens bloqueados e serviços financeiros restritos ao Irã, conforme a legislação aplicável.

Até o envio deste material, o botão de doação permaneceu ativo em algumas situações, mas sem redirecionamento claro para a conta de bitcoins. Um dos especialistas afirma que esse tipo de prática evidencia um problema mais amplo: a plataforma lucrando com assinaturas premium por meio de entidades e indivíduos sob sanção. E, ao analisar demissões ocorridas na sequência de uma aquisição, observa-se uma deterioração não apenas da moderação e da segurança, mas também da conformidade legal em relação às sanções vigentes.

Além disso, há a explicação de que a identificação de autoridades no serviço envolve o uso de selos. Normalmente, selos cinzas são usados para chefes de Estado, enquanto aqueles com alto alcance financeiro estariam pagando pelo acesso a uma assinatura premium. Antes da mudança de controle, o selo azul era concedido a perfis de verificações de identidade; em 2023, o sistema passou a exigir pagamento.

Em contato com representantes da empresa, a reportagem não obteve resposta. Um ponto curioso observado foi que, horas depois de tornar públicas as evidências envolvendo as autoridades iranianas, os selos azuis em tais contas foram removidos, enquanto outros perfis identificados pela análise permaneceram com a marca. Enquanto isso, a expectativa de órgãos centrais foi a de que as autoridades norte‑americanas não comentariam alegações específicas, mas destacaram que tais condutas são tratadas com rigor quando envolvem sanções nacionais.

As sanções, por sua vez, são direcionadas a indivíduos e entidades listadas pelo órgão de controle de ativos estrangeiros de um grande país. Contudo, existem exceções que permitem o uso de plataformas tecnológicas em território iraniano para fins de compartilhamento de informações entre cidadãos comuns. Esse tipo de brecha facilita o uso de serviços, desde que os conteúdos sejam publicamente acessíveis e gratuitos. Como aponta o debate entre especialistas, se a plataforma forneceu selos azuis mediante pagamento ou prestou serviços a autoridades do Irã sem licenças adequadas, isso poderia não estar coberto pela autorização vigente.

Quanto à identificação de autoridades no X, vale lembrar que o serviço utiliza selos diferentes conforme o perfil. Selos cinzas costumam indicar chefes de Estado, enquanto selos azuis para autoridades iranianas indicariam uma cobrança pela assinatura. Mesmo com as mudanças de governança, a leitura comum é de que o uso de plataformas por autoridades sancionadas precisa de fiscalização cuidadosa.

No fim das contas, a avaliação sugere que a plataforma pode estar abrindo espaço para que autoridades sob sanções obtenham lucro direto com a sua infraestrutura, algo que aumenta a preocupação sobre conformidade regulatória e segurança nacional. A dúvida central permanece: até que ponto uma rede social pode competir com controles externos sem ferir as regras internacionais de sanção?

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Jornalista

Ana Martins

Designer de interiores apaixonada por achados acessíveis. Adora transformar espaços sem estourar o orçamento e compartilhar cada descoberta.

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