Venezuela: o período pós-Maduro e o interesse de Portugal

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Venezuela: o pós-Maduro e o interesse português

A reconstrução está em marcha. Infraestruturas, energia, serviços básicos e indústria exigem investimento e capacidade técnica. Portugal deve posicionar as suas empresas na linha da frente.

No dia 3 de janeiro deu‑se o choque: uma operação militar de precisão em Caracas colocou o país no centro de um cenário que parecia de ficção. Bombardeamentos estratégicos antecederam o anúncio de que Nicolás Maduro tinha sido capturado, com a imagem do antigo presidente a surgir, supostamente a bordo de um helicóptero americano. Nos primeiros momentos, a população ficou em casa, receosa de uma escalada violenta. Surgiram manifestações pró‑Maduro, mas tudo permaneceu em suspenso até a conferência de imprensa anunciada por Trump para a tarde seguinte.

No discurso, o presidente dos Estados Unidos descreveu a intervenção como “extraordinária” e explicou que os EUA iriam assumir temporariamente o controlo da Venezuela para garantir uma transição “justa, correta e equilibrada”. Falou ainda da entrada de empresas petrolíferas norte‑americanas para reconstruir o setor e deixou explícito que um segundo ataque não estava completamente fora de questão.

Sobre Delcy Rodríguez, Trump foi direto: a sua permanência seria essencial para assegurar continuidade institucional e evitar um vazio de poder; caso o rumo não seguisse o esperado, pagaria-se um preço elevado. Por outro lado, María Corina Machado foi afastada por “falta de apoio interno”. A mensagem era clara: Delcy Rodríguez aproximava‑se da liderança de Washington na Venezuela.

As medidas tomadas nos dias seguintes — desde acordos petrolíferos até à libertação de presos políticos, passando pela reabertura da embaixada norte‑americana em Caracas — mostraram que Washington procurava cumprir o “caderno de encargos” com rigor. Nos corredores da informação multiplicaram‑se as leituras e as análises, com muitos a acreditar que o objetivo principal seria apenas roubar o petróleo venezuelano.

No entanto, a leitura mais precisa aponta para outra lógica: os EUA querem comprar o petróleo através das empresas privadas, controlar o processo e garantir que os recursos ingressem num quadro de gestão alinhado aos seus interesses estratégicos. O dinheiro, por assim dizer, ficaria nas mãos de contas nos Estados Unidos, sendo libertado apenas para cumprir dívidas, importar alimentos e medicamentos, e cobrir os custos operacionais e de segurança da intervenção. Em síntese, não se trata de um simples saque: é uma forma de controle financeiro sobre o fluxo de riqueza petrolífera.

Para entender o interesse, vale lembrar o histórico: na era de Chávez, a Venezuela chegava a mais de 3,5 milhões de barris/dia, com grande parte exportada para os Estados Unidos. Com Maduro, a produção caiu para cerca de 1 milhão de barris diários, grande parte vendida à China. O que está em jogo não é apenas manter o controle da produção, mas permitir que o país invista na recuperação e modernização do setor, com a ambição de voltar, e quem sabe superar, os níveis de Chávez.

Os EUA, por sua vez, manteriam uma base de operações na região, avaliando o custo zero para o tesouro e afastando rivais como China e Rússia. Ao mesmo tempo, abririam margem para negociar com parceiros estratégicos como Turquia e Índia — um cartão de troca que pode abrir portas em várias frentes. No fim das contas, a ideia não é um roubo, mas uma gestão condicionada pela compra, que alivia algumas pressões estratégicas americanas.

O dinheiro gerado por essa operação, na prática, poderia também favorecer a melhoria das condições de vida no país, facilitar a reconstrução de infraestruturas e permitir ao Estado pagar dívidas a empresas estrangeiras, incluindo várias portuguesas. E aqui surge a grande interrogação sobre Portugal: qual o papel que o nosso país pode assumir? A comunidade portuguesa reagiu com a cautela exigida pelo momento, e o corpo diplomático atendeu rapidamente, assegurando contatos permanentes e a segurança de milhares de portugueses no território venezuelano. Já houve libertação de alguns presos políticos lusitanos, e esse trabalho continua a ser feito, com o reconhecimento merecido.

Mas a pergunta que ficou no ar é: o que pode Portugal fazer de concreto para aproveitar as oportunidades que surgem? A resposta passa por explorar o espaço criado por esta nova fase. Existem empresas portuguesas com dívidas por receber do Estado venezuelano, e há um apelo claro para interceder junto das autoridades venezuelanas e dos interlocutores norte‑americanos, de modo a canalizar parte das receitas do petróleo para o pagamento dessas obrigações, injetando milhões de euros diretamente na economia portuguesa. Paralelamente, a reconstrução do país já está em marcha. Infraestruturas, energia, serviços básicos e indústria vão exigir investimento e know‑how técnicos — espaço para as empresas portuguesas se posicionarem na linha de frente desses projetos. Algumas já atuam nesse sentido, assinando acordos com os governos venezuelano e norte‑americano, com aprovação da OFAC, para participação nesses desenvolvimentos. Existem contratos vigentes, mas estagnados, que precisam de restabelecimento urgente.

Num cenário internacional cada vez mais instável, esta não é apenas uma história de política externa ou de solidariedade com a comunidade emigrante. É também uma questão de interesse nacional: proteger os nossos compatriotas, sim, mas agir com pragmatismo quando surgem oportunidades reais. A Venezuela entra numa nova fase. Resta a Portugal decidir se observa à distância ou se entra, de forma ativa e estratégica, nesse processo de construção conjunta.

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Jornalista

Ana Martins

Designer de interiores apaixonada por achados acessíveis. Adora transformar espaços sem estourar o orçamento e compartilhar cada descoberta.

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