Os principais pontos dos milhões de arquivos recém-divulgados do caso Epstein
Três milhões de novos documentos incluem centenas de menções a Trump e e-mails entre Epstein e uma pessoa chamada “O Duque”.
Milhões de páginas de documentos, além de 180 mil imagens e 2.000 vídeos, foram tornados públicos pelo Departamento de Justiça dos EUA, marcando o maior volume de material divulgado pelo governo desde que uma lei passou a exigir essa transparência. A divulgação, ocorrida na sexta-feira, 30 de janeiro, acontece seis semanas após o órgão não cumprir o prazo legal firmado pelo governo para tornar públicos os itens relacionados a Jeffrey Epstein. A gestão explicou que a liberação faz parte de um amplo trabalho de identificação e revisão de documentos para assegurar a transparência com o público e o cumprimento de normas.
No caderno de conteúdos, aparecem detalhes sobre o tempo de Epstein na prisão — incluindo um relatório psicológico —, a sua morte enquanto estava custodiado e registros de investigação sobre Ghislaine Maxwell. Além disso, constam correspondências entre Epstein e figuras públicas influentes, incluindo mensagens que envolvem uma pessoa intitulada como “O Duque”.
Entre os achados está a menção a um encontro entre Epstein e uma suposta dama russa, discutido em mensagens que indicam a participação de outro nome de destaque da elite britânica. Os e-mails, assinados com a letra “A” e com uma assinatura que parece “Sua Alteza Real Duque de York KG”, sugerem conversas sobre uma reunião em Genebra, com indagações sobre se haveria alguém para levar uma mensagem. Essas trocas teriam ocorrido em agosto de 2010, dois anos após Epstein ter reconhecido culpa por aliciar uma menor.
Aliás, um capítulo curioso aponta para a chamada de atenção sobre a “privacidade” em encontros e jantares no Palácio de Buckingham. A BBC afirmou não ter conseguido verificar de forma independente esses e-mails, e procurou Andrew Mountbatten-Windsor para comentários. O perfil dele tem sido alvo de escrutínio por sua ligação com Epstein, que ele nega veementemente ter qualquer irregularidade associada ao empresário.
Outro ponto destacado mostra Epstein enviando R$ 72 mil (aproximadamente £10 mil na época) a Reinaldo Avila da Silva, marido de Peter Mandelson, lord britânico, em 2009. Em resposta aos e-mails, Epstein se comprometeu a quitar o empréstimo, enquanto da Silva agradeceu. Em mensagens posteriores, Mandelson também pediu hospedagem em uma das propriedades de Epstein. Vale lembrar que Mandelson, que já havia recebido críticas por sua amizade com Epstein, acabou assumindo, anos depois, funções oficiais no Reino Unido.
Já em dezembro de 2024, Mandelson foi nomeado embaixador britânico nos EUA, mas foi exonerado menos de um ano depois, quando surgiu que ele manteve contatos de apoio a Epstein após a condenação. Houve desdobramentos adicionais, com o SNP e o Partido Reformista encaminhando denúncias à Polícia Metropolitana, apontando possíveis contatos com Epstein durante seu tempo como secretário de negócios, o que gerou investigações administrativas e pedidos de esclarecimentos. O governo informou que houve uma revisão com participação de centenas de funcionários ao longo de mais de dois meses, e que os cortes foram feitos para proteger vítimas e informações sob investigação, com a exigência de um resumo claro das exclusões legais.
O material também traz a presença de Donald Trump, mencionado em centenas de trechos. O ex-presidente, que mantinha relação com Epstein em algum momento, nega qualquer conhecimento sobre os crimes do parceiro e diz que a amizade acabou há muito tempo. O governo ressaltou que algumas alegações contidas nos documentos são falsas ou sensacionalistas, apresentadas a partir de informações não verificadas recebidas pelo FBI.
A divulgação não se restringe apenas aos nomes na esfera norte-americana. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Jair Bolsonaro aparecem em menções nos lotes de comunicações reveladas. Além disso, Noam Chomsky — linguista e filósofo que mantinha dialogos com Epstein — foi citado em mensagens sobre visitas ao Brasil envolvendo Lula, levantando questões sobre as relações entre Epstein e figuras públicas. Já Bolsonaro aparece em trocas com Steve Bannon, amigo de Trump, elogiando o desempenho de sua candidatura. Outros trechos indicam que Bill Gates, cofundador da Microsoft, foi alvo de acusações desmentidas por um porta-voz da empresa, que disse serem “absurdas e completamente falsas”.
No fim das contas, resta a dúvida se a divulgação encerrará de fato a investigação sobre Epstein. O vice-procurador-geral Todd Blanche afirmou que o dia marca o fim de um amplo esforço de identificação e revisão de documentos, mas os democratas continuam defendendo que o governo retenha uma parte relevante do material — estimada em milhões de páginas — sem justificativa adequada. Lideranças como Roh Khanna questionaram a razão para manter grande parte do conteúdo em sigilo, mesmo diante de tantos dados já tornados públicos. O debate, portanto, segue aberto: até onde essa liberação atende ao interesse público e à justiça?
Kwasi Gyamfi Asiedu, Jack Fenwick e Chi Chi Izundu contribuíram para esta reportagem.