Maioria dos brasileiros concorda com operação dos EUA na Venezuela, revela pesquisa
Apoio é mais comum entre homens, evangélicos e eleitores do ex-presidente Jair Bolsonaro
Um levantamento recente da Ipsos-Ipec traz à tona um cenário curioso: pouco mais da metade da população brasileira afirma concordar com a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na deposição e prisão do ditador Nicolás Maduro. O estudo, conduzido entre os dias 10 e 14 de janeiro, ouviu 2.000 pessoas em 130 municípios do país, e aponta uma leitura que varia conforme renda, religião e posição política.
No dia a dia, os números chamam a atenção pela distribuição: o apoio se mantém mais forte entre segmentos com maior renda familiar (62%), entre evangélicos (61%), na faixa etária de 25 a 34 anos (60%), entre quem ganha de 2 a 5 salários mínimos (59%) e entre os homens (58%). Em resumo, não é um retrato homogêneo, mas sim um mosaico em que a resposta varia conforme o perfil dos entrevistados.
Quando a atuação é medida por orientação política, o cenário fica ainda mais claro. Entre os eleitores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o índice de apoio chega a 73%, enquanto entre os que votaram em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a aprovação cai para ~34%. A diferença ajuda a entender como a questão se encaixa no mapa político do país, com fortes divisões regionais e de identificação ideológica.
Já a região Nordeste aparece de forma destacadamente contrária à intervenção: a grande maioria se mostra contrária, com o recorte regional chegando a 35%
Quanto às motivações atribuídas à intervenção, as respostas também variam bastante. Em 26% dos entrevistados, o governo de Donald Trump aparecia como o responsável por buscar tomar o controle do petróleo e dos recursos naturais venezuelanos — uma leitura mais comum entre quem tem maior escolaridade e renda. Na outra ponta, 22% apontam a defesa da democracia e dos direitos humanos no país caribenho, uma justificativa que costuma ressonar entre evangélicos e eleitores de Bolsonaro. No conjunto, isso mostra que as avaliações sobre o que impulsiona a ação são tão diversas quanto as próprias motivações políticas dos brasileiros.
No balanço geral, a pesquisa aponta uma postura de neutralidade para o Brasil como um caminho dominante: 66% defendem que o país mantenha posição neutra, enquanto 17% acreditam que o Brasil deva apoiar a intervenção. Apenas 9% entendem que o governo de Lula deveria se manifestar contrariamente. Essa distribuição ilustra a ambivalência da opinião pública diante de intervenções internacionais e de possíveis impactos econômicos e políticos no Brasil.
Ao perguntar sobre impactos possíveis para o Brasil, a percepção é mista: 29% acreditam que a ação trará consequências negativas, 23% veem efeitos positivos e 28% entendem que não haverá grandes mudanças. Além disso, houve um grupo de entrevistados que não soube opinar, o que demonstra a sensibilidade do tema e a complexidade de associar ações externas a impactos internos diretos.
Os dados também revelam um retrato interessante sobre o modo como os brasileiros enxergam intervenções semelhantes no futuro. Uma parte considerável dos respondentes não teme a possibilidade de uma intervenção externa, o que mostra uma munição de debates sobre o papel do Brasil no cenário geopolítico regional. Por outro lado, existe uma cautela histórica sobre as intenções reais por trás de tais movimentos, com o fator econômico sendo visto como motor importante da decisão de agir.
Em síntese, o estudo aponta uma dicotomia marcada entre pragmatismo e reservas: por um lado, há uma leitura prática de que intervenções podem ter impactos estratégicos ou econômicos; por outro, uma desconfiança crônica sobre intenções e ganhos de curto prazo, predominantemente associada a interesses econômicos. O que fica claro é que, embora haja porções expressivas de apoio, o Brasil permanece dividido e atento aos desdobramentos de ações externas em uma região historicamente instável.