Governo Trump recua de acusação de Maduro chefiar Cartel de los Soles

Ouvir esta notícia

Governo Trump recua de acusação de que Maduro era chefe de “Cartel de los Soles”

Análise do NYT mostra alterações na denúncia do Departamento de Justiça após a captura do ex-ditador venezuelano

O cenário político-judicial envolvendo Nicolás Maduro ganhou uma reviravolta inesperada: o Departamento de Justiça dos Estados Unidos revisou uma parte da denúncia apresentada contra o ex-ditador venezuelano após sua captura, e The New York Times apontou esse recuo na nova versão do documento. Nas palavras do jornal, o governo americano passou a reconhecer as críticas sobre a designação do Cartel de los Soles e ajustou o tom da acusação para não apresentar o grupo como uma organização criminosa claramente existente. Na prática, a mudança ocorreu depois da operação que levou Maduro a ser detido, em uma ação coordenada pelo governo de Donald Trump no último fim de semana.

Para entender o pulso da mudança, vale resgatar a linha do tempo: a ideia de que Maduro liderava o Cartel de los Soles remonta a uma denúncia apresentada a um grande júri em 2020, documento este que também subsidiou a designação do grupo como uma organização terrorista no período anterior pelo Departamento do Tesouro. Em julho do ano passado, essa designação ganhou peso ao classificar o suposto grupo como terrorista. Já em novembro, o então secretário de Estado, Marco Rubio, parte de uma ala que defendia mudança de regime em Caracas, exigiu que o Departamento de Estado seguisse a linha de enquadramento, tornando o Cartel de los Soles oficialmente uma organização terrorista. A partir daí, porém, especialistas em criminalidade organizada e narcotráfico passaram a questionar a existência real do grupo, alimentando a dúvida de que o termo seria um rótulo jornalístico usado pela imprensa venezuelana para designar autoridades associadas ao narcotráfico no país.

Com a captura de Maduro, a Justiça americana apresentou uma versão revista da acusação na qual se reconhecem explicações já apresentadas por críticos da designação. Embora permaneça a acusação de participação em uma conspiração de tráfico de drogas, amplia-se o recuo em relação à ideia de que o Cartel de los Soles seria uma entidade real e estruturada como tal. Segundo a nova apresentação, o termo funciona mais como um sistema de patronagem e como uma cultura de corrupção alimentada pelo dinheiro do narcotráfico, em uma reformulação que, segundo o NYT, reduz as referidas ligações diretas entre Maduro e uma organização criminosa reconhecida. Além disso, a imprensa venezuelana costumava associar o termo a sinais visuais usados por militares de alto escalão para indicar patentes.

Na prática, a atualização coloca Maduro diante de acusações de participação, proteção e perpetuação de um ambiente de corrupção ligado ao tráfico de drogas, mas afasta a narrativa de que ele chefiaria uma organização criminosa de fato existente. O relatório revisado aponta que, assim como o seu antecessor Chávez, o ex-ditador estaria envolvido na promoção de um sistema de benefícios decorrentes do narcotráfico. Ainda assim, a percepção entre especialistas permanece ambígua: muitos sustentam que o governo venezuelano, de alguma forma, seria beneficiado pelas dinâmicas da produção e do comércio de cocaína, mesmo que o Cartel de los Soles não seja tratado como uma entidade independente dentro da denúncia.

O conjunto de dados sobre a droga é claro: grande parte do tráfico parte da Colômbia, com destino a Centro e América do Norte, e envolve rotas que chegam aos Estados Unidos. O que se discute, no entanto, é o peso da participação venezuelana nesses fluxos: relatos de ex-funcionários americanos e venezuelanos apontam que o governo federal e as Forças Armadas teriam vantagens econômicas associadas a essas atividades. A denúncia afirma que Maduro teria distribuído passaportes diplomáticos a traficantes, reunido-se com guerrilheiros no palácio Miraflores e discutido rotas com autoridades de alta patente após uma apreensão de cocaína em Paris, registrada em transporte proveniente da Venezuela.

Em entrevista ao Financial Times, o ex-diplomata americano Brian Naranjo — que atuou na gestão anterior e foi expulso do país por ordem do regime — afirmou que os promotores poderão abandonar a retórica grandilóquente herdada da era Trump para buscar uma condenação com base em provas mais sólidas de participação material no transporte de drogas, na lavagem de dinheiro ou no envolvimento de redes de crime organizado. Naranjo enfatizou que as promessas de prova deverão demonstrar a prática concreta de crime, e não apenas a narrativa midiática da época.

Enquanto Maduro se apresentou diante de um tribunal em Nova York e negou veementemente as acusações, dizendo ser inocente, o cenário ganhou contornos ainda mais dramáticos. Ele se declarou sequestrado na cidade norte-americana, mantendo a defesa de que é o presidente legítimo do seu país, mesmo diante das acusações que pairam sobre ele e sobre Cilia Flores, sua esposa, capturada na operação. O ex-ditador contratou o renomado advogado Barry Pollack, conhecido por atuar em causas de grande repercussão internacional. Durante a audiência, Pollack sugeriu que podem existir dúvidas sobre a legalidade do sequestro militar e sinalizou recursos, especialmente no que tange ao papel de Maduro como chefe de Estado.

Além disso, o contexto internacional continua a moldar a narrativa: embora haja a defesa de imunidade de chefes de Estado sob o direito internacional, o governo americano sustentou que Maduro liderava um governo tido como ilegítimo após a eleição de 2024, na visão de alguns, com a oposição representada por Edmundo González. E a cada passo, surgem novas leituras sobre o que tudo isso significa para a estabilidade venezuelana e para as relações entre Caracas e Washington. No fim das contas, a notícia que chega aos leitores é que o debate jurídico se tornou tão importante quanto as próprias acusações, e que o conteúdo da acusação pode ter mudado para acompanhar as evidências disponíveis, sem, contudo, apagar completamente a sombra de uma prática política conectada ao narcotráfico.

Mais recente Próxima FT: México vira maior fornecedor de petróleo de Cuba e pode despertar ira de Trump

  • Principais mudanças na narrativa: o Cartel de los Soles não é mais apresentado como uma organização criminosa claramente existente; o foco passa a ser um sistema de corrupção ligado ao tráfico.
  • Implicações legais: Maduro continua sob acusações de participação no tráfico, mas com ênfase menor na liderança de uma entidade formal.
  • Impacto no cenário venezuelano: o episódio alimenta dúvidas sobre a real extensão da influência do governo no tráfico e sobre a legitimidade de acusações internacionais em tempo de captura.

O que achou deste post?

Jornalista

Carlos Ribeiro

AO VIVO Sintonizando...